Quem somos nós?

Você sabia que existem estrelas um bilhão de vezes maior do que o nosso sol? Sabia que nossa galáxia, a via láctea, é apenas um borrão de luzes entre outros milhões de borrões espalhados pelo universo? Sabia que o nosso universo pode ser apenas um dentre vários outros universos espalhados dentro de um super-universo? 

Há fenômenos tão grandes que deixariam a explosão do nosso sol como um pequeno grão de areia tentando ser percebido dentro do mar. Há ocorrências tão espetaculares a ponto de deixarem qualquer chuva de meteoros parecida com o espirro de um cachorro. Há constelações tão ricas que deixariam a existência de toda a nossa galáxia semelhante a menor faísca produzida pelo atrito entre duas pedras. Já ouvi falar de fatos tão únicos que superam até mesmo a complexidade da existência da vida. 

Tudo isso me faz perguntar: Quem somos nós? 

Partículas de grãos de poeira cósmica juntas num determinado ponto de um vasto espaço de tamanho incalculável. Se nosso planeta explodisse nesse momento, o universo nem sequer perceberia. Toda a sua existência independe de nós. Sua grandeza nem sequer nota que existe algum ser vivo ou pensante. E nem precisa notar. Cada espaço impenetrável do cosmo existe sem a necessidade de conhecer o homem. 

Nossa existência, para o universo, é como a neblina que cai num fim de noite que molha a grama de leve comparada ao vasto oceano. É como uma lanterna de bolso colocada ao lado do sol. Nossa existência, ao lado de toda a existência, é como uma gaiola num mundo onde não há pássaros: desnecessária. 

Somos menores do que o tamanho que demos a nós mesmos. 

Quem somos nós? 

Quem somos nós diante da existência para dizer o que é certo e errado? Quem somo nós para dizer quem deve viver ou morrer? Quem somos nós para definir o Deus correto? Quem somos nós para julgar, mentir, humilhar, escravizar e apedrejar nossos semelhantes? Quem somos nós para guerrear? Quem somos nós para possuir mais do que os outros? Quem somos nós para chamar o universo, o sol, a galáxia, o planeta de nosso? Quem somos nós? 

Somos o nada que pensa ser tudo! 


Eliab Alves Pereira

Eu poderia...

Eu poderia conhecer o mundo inteiro. Eu poderia apreciar as montanhas do Congo, poderia brincar no Cubo D’água em Pequim, tomaria banho na piscina infinita num resort de Cingapura. Eu poderia conhecer as luzes de Nova York, poderia sentir o frio da Antártida e o calor do Saara. Eu poderia conhecer as belezas da Abadia de Westminster, abraçar as árvores da Amazônia, banhar-me no mar morto. Eu poderia apreciar as nuvens de fim de verão sobre o lago Garnet. Eu viajaria até o Cânion Claustral para vislumbrar suas gigantescas samambaias, iria até o Xingu conhecer o cacique Aritana. Eu iria até o vale Rift conhecer os leões e o vulcão Nyiragongo, mergulharia para conhecer os tubarões das Maldivas. Eu poderia ir a Africa conhecer os elefantes e girafas. Poderia desbravar o Yosemite nos EUA. Eu poderia ir ao Egito conhecer as pirâmides e apostar corrida de camelo. Poderia aprender Krav Maga com os israelenses e a meditar com os monges Tibetanos. Eu iria a França conhecer a Torre Eiffel. Treinaria Kung Fu na China, mergulharia nas cavernas das Bahamas, iria ao paraíso dos rinocerontes na Índia. Eu poderia dançar flamingo com as espanholas, tango com as argentinas e samba com as cariocas. Poderia surfar no Hawaii, esquiar no Canadá e comer pizza na Itália. Eu poderia rezar no vaticano, tirar foto em Petra. Eu poderia apostar todas as fichas em Las Vegas, tentaria fazer algum soldado real perder a postura, poderia escalar o Everest. Eu poderia tomar tequila no México. Poderia ajudar uma aldeia africana. Eu poderia dançar na chuva em qualquer lugar do mundo. Eu esperaria pelo trem, ouviria a música que gosto um milhão de vezes seguidas. Eu sentaria na mesa pra jantar com minha família, leria todos os livros da estante, assistiria a todos os filmes do armário. Eu diria menos “faça” e mais “vamos”. Eu escreveria mais poemas e comporia algumas músicas. Eu não ficaria calado quando deveria dizer “Eu te amo.” Eu poderia fazer tudo isso, e mais. Mas estou aqui! 

Abaixo dessa citação encontrei: Aqui jaz Homem arrependido, 01/01/1990 - 01/01/2013. 

Pena que todos os seus “poderia”, “iria” e “faria” não se tornaram “consegui”, “fui”, “fiz”! A vida só acontece uma vez. Não viva como se você fosse ter outra chance. Até as grandes histórias terminam com um mero ponto final. O que as torna grandes é o que acontece antes dele. O mesmo vale para a vida!


Eliab Alves Pereira

A morte de Deus

Ele foi morto. Seu corpo foi destruído. O profeta avisou que ele seria ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades. O calvário foi testemunha do que os homens podem fazer se conseguirem tocar no amor. Ele era puro de coração, manso e humilde. Sua pregação olhava para dentro do homem. Ele se importava com a sujeira de dentro, não com as belas pinturas de fora. Ele negou o poder, abriu mão de sua glória, perdoou na hora da morte.

O Cristo crucificado ensina muita coisa se pararmos para pensar em cada palavra sua e comportamento desde o sinédrio até o calvário. Desde o beijo da traição até o "Está consumado!". Mas os relatos de sua ressurreição também podem nos ensinar algo de extremo valor; Algo que foge das mãos da morte, algo que superar as más interpretações, os mitos, as heresias.

Imaginemos que sua morte e ressurreição sejam metáforas.

Imaginemos que a cruz seja nosso coração, lugar onde desprezamos e assassinamos o amor. Lugar onde guardamos para um Deus morto. Lugar de dor e angústia onde o próprio Deus chorou. Imaginemos nosso coração, corrupto, orgulhoso, narcisista, prepotente, cruel. E se ele fosse a cruz que matou Deus dentro de nós?

A forma de Deus interagir com nosso mundo é através de sua criação. E isso nos inclui. Como um avatar. Como uma cápsula. Deus, para interagir em nosso mundo, precisa de nós assim como um astronauta precisa de sua roupa especial para visitar outros planetas.

Deus veio ao mundo através da pessoa de Cristo para ensinar que cada um de nós pode ser como Cristo foi: expressão de Deus na terra. Cristo foi prova de que a roupa especial do astronauta funciona.

Nosso eu interior foi transformado num calvário por causa de nossa corrupção. O que tínhamos de Deus dentro de nós, foi crucificado por nossa humanidade doentia.

É aí que aprendo com a ressurreição do Cristo.

Nossa missão é ressuscitar o Cristo dentro de nós!

Mesmo depois de matar qualquer vestígio de Deus aqui dentro, aprendi que a vida de Cristo foi para ensinar como ressuscitá-lo em mim.

Tudo que me faz ser uma pessoa má, tudo que me faz olhar apenas pra mim e esquecer o próximo, tudo que eu faço para destruir o mundo em que vivo, tudo isso são chicotadas no corpo de um Deus amarrado dentro do meu ser. O momento em que decido abandoná-lo, esquecer o que ele pode me ensinar, a partir do momento em que escolho a mim em vez do próximo, é nesse momento que Cristo grita: "Pai, perdoa-o, pois ele não sabe o que faz!" E, depois de todo sofrimento, toda dor e angústia, Ele morre. Mas antes de sua morte, Ele brada: "Está consumado!" Foi feito. Sua missão acabou. Combateu o bom combate e guardou a fé. Entregou-se aos necessitados e feridos de almas surradas. Não viveu conforme a sua vontade, mas conforme a necessidade dos seus semelhantes. Consumou-se! 

O que está consumado dentro de nós? Seus ensinos ou sua morte?

Seus ensinos que dizem: "Perdoa, ama, atira se não tiver pecado"; ou sua morte que diz: "Persigam, condenem, discriminem, matem"?


Eliab Alves

Se Deus existe...

Adoro conversar com crianças. Depois que tive a oportunidade de trabalhar numa ONG que desenvolve trabalho com os pequenos, esse prazer foi multiplicado. A conversa inocente, as perguntas difíceis, o jeito peculiar de lidar com os fatos me encanta. Uma vez uma criança estava observando sua mãe reclamar das contas que precisava pagar. A mãe, falando consigo mesma, diz: “Essas contas só me trazem estresse. O que eu vou fazer com tudo isso?” Sua filha, num ato de extrema inteligência e lógica, responde: “Queime tudo!” Em outro caso, a vovó estava se maquiando quando seu neto pergunta: “Vovó, por que você está fazendo isso?” “Pra ficar bonita, querido.” E o netinho responde: “E por que não fica?”
Isso não é lindo? Como disse o Rubem Alves: “as criança ainda não aprenderam a encenar.” Elas não aprenderam o que dizer na hora que têm de dizer. Elas falam o que não devem (não devem?) no momento que ninguém quer ouvir.

Crianças são puras. Delas é o Reino dos Céus, afirmou o Nazareno.

Talvez um mundo governado por elas seja isso mesmo. O Reino dos Céus.

Observe comigo: Hoje, 20% da população do planeta sofre com a fome enquanto alguns países produzem comida para 4 vezes sua própria população. Alguns líderes políticos montam estratégias para utilizar vírus em armas biológicas em caso de uma guerra. Gasta-se trilhões de dólares por ano em material bélico. Estima-se que há gastos mensais em coisas fúteis que ultrapassam a quantia mínima para alimentar uma criança de rua. Recentemente o cachorro da minha prima foi atropelado e o custo para deixá-lo internado no hospital veterinário foi de R$ 400,00. Enquanto há milhares de pessoas deitadas em corredores de hospitais públicos esperando atendimento. Fui comprar uma calça semana passada e tive de sair da loja indignado quando a atendente me passou o preço: R$ 480,00 (em uma calça). Cara, R$ 480,00 é muito mais do que muita gente ganha em um mês com bicos e trabalhos simples. R$ 480,00 é o salário de um trabalhador (explorado). E há quem ganhe muito menos! Há governantes que gastam bilhões de dólares na construção de bankers para se refugiarem caso haja uma guerra biológica ou nuclear. Vejamos: eles desencadeiam uma guerra por causa de motivos políticos que não nos interessam, nós somos atingidos com isso, mas são eles que vão ser abrigados? Ou seja, os caras que tentam acabar com o mundo todo dia, pensam que precisam sobreviver. Pra que? Pra voltar  e acabar com tudo novamente?

Agora pense comigo: Voltemos as crianças. Um mundo governado por elas ofereceria isso? Uma vez uma aluna perguntou o porque de o ex-marido de sua tia ter tentado matá-la com um facão. O que eu podia responder? “Ah, os adultos são assim. Um dia você vai ser adulta e vai entender.” Uma vez minha prima de cinco anos de idade me perguntou porque o cara do filme estava matando o outro. O que eu poderia responder? “Ah, é só um filme. É assim que nós, adultos, nos entretemos, com a violência oferecida nos cinemas!”

O mundo dos adultos criou armas, criou a desigualdade, o mundo dos adultos criou o preconceito, a inveja, o mundo dos adultos ridicularizou as crianças, zomba dos sonhos, mata as perguntas inocentes. O mundo dos adultos não quer responder o porque não devemos queimar as contas. Estamos mais preocupados em descobrir vida em outro planeta, em saber qual a melhor combinação de elementos para criar a bomba “perfeita”, como podemos usar a natureza a nosso favor para destruir uma cidade. O mundo dos adultos diz que não existe Papai Noel, diz que não há pote no fim do arco-íris, o mundo dos adultos diz pra não brincarmos com fulano porque ele é pobre, negro ou tem pais desestruturados. O mundo dos adultos diz pra não falar a verdade, diz que devemos alisar o ego dos outros, diz que devemos ser territorialistas, defensores de nossos ideias sem se importar com o que o outro diz, o mundo dos adultos ensina que a vida não passa de trabalho, ganância, corrupção e traições. O mundo dos adultos fez do sexo, vulgar, do álcool, droga, da verdade, escândalo, dos amigos, oportunistas, do amor, mentira!

Se Deus existe, Ele é uma criança! Não é um velho de barba grande, sentado num trono, segurando um cajado. Deus não é assim! Se Deus é amor, ele é criança, e se Ele é crianças, ele não mandou guerrear por seu nome, ele não mandou dominar as massas, não exigiu impérios construídos com o dinheiro de fiéis, ele não projetou um apocalipse, nem desenhou um inferno. Crianças desenham paraísos. Anjos, não demônios. Amor, não vingança. São os homens quem criam essas coisas. São os homens quem criam um deus que é a sua imagem e semelhança. Deus nos criou a sua imagem e semelhança, é por isso que nascemos crianças! Mas nós achamos que aumentar de tamanho por fora significa diminuir de tamanho por dentro. Quem disse isso? Ouvi falar de um cara que, com 33 anos de idade, se ofereceu no lugar do seu povo pra salvá-los. Ouvi falar de outro, cheio de rugas, que até hoje é sinônimo de paz, me contaram sobre uma mulher, bem velhinha, que fez da sua vida um canal de amor ao povo de Calcutá. Não importa a idade dessas pessoas, elas morreram crianças.

Conheço muita crianças com oitenta anos de idade.

Criança não é uma definição etária. Criança é o que somos quando nossa alma ainda está viva! Depois que matamos nossa alma, viramos adultos. Quando deixamos de pensar no simples com seriedade, deixamos de ser criança.

Eliab Alves Pereira


Oração [por Rubem Alves]

Hoje vou escrever sobre a arte de rezar. Dirão que esse não é tópico que devesse ser tratado por um terapeuta. Rezas e orações são coisas de padres, pastores e gurus religiosos, a serem ensinadas em igrejas, mosteiros e terreiros. Acontece que eu sei que o que as pessoas desejam, ao procurar a terapia, é reaprender a esquecida arte de rezar. Claro que elas não sabem disso. Falam sobre outras coisas, 10 mil coisas. Não sabem que a alma deseja uma só coisa, cujo nome esquecemos. Como disse T.S. Eliot, temos 

Conhecimento do movimento, mas não da tranquilidade; conhecimento das palavras e ignorância da Palavra. Todo o nosso conhecimento nos leva para mais perto da nossa ignorância, e toda a nossa ignorância nos leva para mais perto da morte. 

A terapia é a busca desse nome esquecido. E quando ele é lembrado e é pronunciado com toda a paixão do corpo e da alma, a esse ato se dá o nome de poesia. A esse ato se pode dar também o nome de oração. 

Por detrás da nossa tagarelice (falamos muito e escutamos pouco), está escondido o desejo de orar. Muitas palavras são ditas porque ainda não encontramos a única palavra que importa. Eu gostaria de demonstrar isso – e a demonstração começa com um passeio. Para começar, abra bem os olhos! Veja como este mundo é luminoso e belo! Tão bonito que Nietzsche até mesmo lhe compôs um poema: 

Olhei para este mundo – e era como se uma maçã redonda se oferecesse à minha mão, madura dourada maçã de pele de veludo fresco... Como se mãos delicadas me trouxessem um santuário, santuário aberto para o deleite de olhos tímidos e adorantes: assim este mundo hoje a mim se ofereceu...

Tudo está bem. Tudo está em ordem. Nada impede o deleite dessa dádiva. Ninguém doente. Nenhuma privação econômica terrível. E há mesmo o gostar das pessoas com quem se vive, sem o que a vida teria um gosto amargo. 

Mas isso não é tudo. Além das necessidades vitais básicas, a alma precisa de beleza. E a beleza – o mundo a serve de mancheias. Está em todos os lugares, na lua, na rua, nas constelações, nas estações, no mar, no ar, nos rios, nas cachoeiras, na chuva, no cheiro das ervas, na luz que cintila na água crespa das lagoas, nos jardins, nos rostos, nas vozes, nos gestos. 

Além da beleza, estão os prazeres que moram nos olhos, nos ouvidos, no nariz, na boca, na pele. Como no último dia da criação, temos de concordar com o Criador: olhando para o que tinha sido feito, viu que tudo era muito bom. 

E, no entanto, sem que haja qualquer explicação para esse fato, tendo todas as coisas, a alma continua vazia. Álvaro de Campos colocou esse sentimento num poema: 

Dá-me lírio, lírios, e rosas também. Crisântemos, dálias, violetas e girassóis acima de todas as flores. Mas por mais rosas e lírios que me dês, eu nunca acharei que a vida é bastante. Faltar-me-á sempre qualquer coisa. Minha dor é inútil como uma gaiola numa terra onde não há aves. E minha dor é silenciosa e triste como a parte da praia onde o mar não chega.

Como se uma nuvem cinzenta de tristeza-tédio cobrisse todas as coisas. A vida pesa. Caminha-se com dificuldade. O corpo se arrasta. As pessoas procuram terapia alegando faltar um lírio aqui, uma rosa ali, um crisântemo acolá. Buscam, nessas coisas, a única coisa que importa: a alegria. Acontece que as fontes de alegria não são encontradas no mundo de fora. É inútil que me sejam dadas todas as flores do mundo: as fontes da alegria se encontram no mundo de dentro. 

O mundo de dentro: as pessoas religiosas lhe dão o nome de alma. O que é a alma? Alma são as paisagens que existem dentro do nosso corpo. Nosso corpo é uma fronteira entre as paisagens de fora e as paisagens de dentro. E elas são diferentes. “Temos dois olhos”, disse o místico medieval Ângelus Silésius. “Com um, vemos as coisas que no tempo existem e desaparecem. Com o outro, as coisas divinas, eternas, que para sempre permanecem.” Em algum lugar escondido das paisagens da alma se encontram as fontes da alegria – perdidas. Perdidas as fontes de alegria, as paisagens da alma se apagam, o corpo fica como uma casa vazia. E quando a casa está vazia, vai-se a alegria. E as paisagens de fora ficam feias (a despeito de serem belas). 

O mundo de fora é um mercado onde pássaros engaiolados são vendidos e comprados. As pessoas pensam que, se comprarem o pássaro certo, terão alegria. Mas pássaros engaiolados, por mais belos que sejam, não podem dar alegria. Na alma não há gaiolas. 

A alegria é um pássaro que só vem quando quer. Ela é livre. O máximo que podemos fazer é quebrar todas as gaiolas e cantar uma canção de amor, na esperança de que ela nos ouça. Oração é o nome que se dá a esta canção para invocar a alegria. 

Muitas orações são produtos da insensatez das pessoas. Acham que o universo estaria melhor se Deus ouvisse os seus conselhos. Pedem que Deus lhes dê pássaros engaiolados, muitos pássaros. Nisso protestantes e católicos são iguais. Tagarelam. E nem se dão ao trabalho de ouvir. Não sabem que a oração é só um gemido. “Suspiro da criatura oprimida”: haverá definição mais bonita? São palavras de Marx. Suspiro: gemido sem palavras que espera ouvir a música divina, a música que, se ouvida, nos traria a alegria. 

Gosto de ler orações. Orações e poemas são a mesma coisa: palavras que se pronunciam a partir do silêncio, pedindo que o silêncio nos fale. A se acreditar em Ricardo Reis é no silêncio que existe no intervalo das palavras que se ouve a voz de “um Ser qualquer, alheio a nós”, que nos fala. O nome do Ser? Não importa. Todos os nomes são metáforas para o Grande Mistério inominável que nos envolve. Gosto de ler orações porque elas dizem as palavras que eu gostaria de ter dito, mas não consegui. As orações põem música no meu siliencio. 


Rubem Alves

Coragem

A palavra coragem é muito interessante. Ela vem da raiz latina "cor", que significa "coração". Portanto, ser corajoso significa viver com o coração. E os fracos, somente os fracos, vivem com a cabeça; receosos, eles criam em torno deles uma segurança baseada na lógica. Com medo, fecham todas as janelas e portas – com teologia, conceitos, palavras, teorias – e do lado de dentro dessas portas e janelas, eles se escondem.

O caminho do coração é o caminho da coragem. É viver na insegurança, é viver no amor e confiar, é enfrentar o desconhecido. É deixar o passado para trás e deixar o futuro ser. Coragem é seguir trilhas perigosas. A vida é perigosa. E só os covardes podem evitar o perigo – mas aí já estão mortos. A pessoa que está viva, realmente viva, sempre enfrentará o desconhecido. O perigo está presente, mas ela assumirá o risco. O coração está sempre pronto para enfrentar riscos; o coração é um jogador. A cabeça é um homem de negócios. Ela sempre calcula – ela é astuta. O coração nunca calcula nada.

Osho

Seu eu tivesse a chance de voltar ao passado...

Seu eu tivesse a chance de voltar ao passado, cometeria os mesmos erros. Faltaria aos mesmos encontros. Chegaria atrasado do mesmo jeito. Falaria na hora errada. Erraria o gol. Desistiria da viagem. Esperaria os quarenta minutos de atraso. Leria o péssimo livro. Cairia da bicicleta. Apostaria nos mesmos dados. Marcaria a mesma resposta errada na prova. Esperaria o pneu furar. Contaria as mesmas histórias. Faria os mesmos amigos. Voltaria a acampar na chuva. Pisaria nos mesmos espinhos. Dançaria as mesmas músicas. Não evitaria as derrotas. Comemoraria as vitórias como se fosse a primeira vez. Tropeçaria nas mesmas pedras. Não evitaria os buracos que caí.

Se eu tivesse a chance de voltar ao passado, não mudaria nada. Qualquer mudança implicaria em outro futuro. 

Se eu tivesse a chance de voltar ao passado, meu único esforço seria de me certificar que faria tudo exatamente igual.

Não mudaria meu futuro. Ao mudá-lo correria o risco de não ter você aqui comigo hoje. E se eu não tenho você aqui hoje, não importa o que fiz a vida inteira. Se tudo que fiz não me levasse a você eu mudaria todo meu passado para te encontrar no futuro.

Por você eu sofreria as mesmas decepções, cometeria os mesmo erros, apanharia novamente da vida. Se cada erro, cada lágrima, cada constrangimento foi necessário para cruzarmos o mesmo caminho, eu passaria por tudo mais uma vez.

Por você eu voltaria ao passado para garantir você no meu futuro!



Eliab Alves Pereira

Adeus, “Deus seja Louvado”: A religião e o dinheiro

As religiões em geral e o cristianismo em particular nunca mantiveram uma boa relação com o “vil metal”. O dinheiro foi, desde muito, fonte de grande desconfiança pelos religiosos; seu poder e sedução sobre os homens, sua capacidade de corrupção e de gerar divisões, seu caráter de ídolo… Pensando bem, religião e dinheiro não seriam assim tão diferentes; ambos exercem forte fascinação sobre os homens, geram guerras e divisões, são objetos de culto, etc., mas não é isso que quero explorar. O importante é que a religião, notadamente o cristianismo, nunca foi lá tão simpática ao dinheiro. Enxergava neste último algo de profano e perigoso, até mesmo de rivalizador.

Nesse sentido, parece-me particularmente estranho e contraditório o fato de religiosos, católicos e evangélicos, protestarem e incomodarem-se contra a retirada da frase “Deus Seja Louvado” das notas de Reais, pedido pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão de São Paulo na semana passada. Afinal, não foi Jesus, num gesto de revolta, que expulsou enfurecidamente os mercadores e cambistas que haviam transformado o Templo, “uma Casa de Oração” em uma “casa de negócios”, numa “caverna de ladrões”? Também o mesmo Jesus, sendo testado e tentado, acerca de se era ou não lícito pagar tributo a César, afirmou, apanhando uma moeda e mostrando a esfinge; “Dai, pois, a César, o que é César, e a Deus, o que é de Deus”.

Apesar das controvérsias da ostentosa Igreja Católica, da teologia da prosperidade e das igrejas caça-níquéis, de um modo geral, para a religião, ou melhor, para fé e a retidão das pessoas na doutrina, o dinheiro sempre representou uma ameaça corruptora, capaz de desviar ou tornar-se um obstáculo ao crente no caminho da salvação. Por isso, disse Jesus: “Que é mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. Como sabemos, historicamente, o catolicismo condenava a usura, o lucro ao passo que o protestantismo calvinista condenava a ostentação gratuita, o perdulário e esbanjador, preferindo manter em relação ao dinheiro uma atitude ascética, discreta e poupadora.

Portanto, retirar o tal “Deus seja Louvado” significa, a meu ver, não somente prestar um excelente serviço em favor do Estado Laico, como também prestar um grande serviço às religiões em favor da coerência quanto às suas raízes históricas e dogmáticas. Na verdade, como se vê, os cristãos deveriam agradecer em vez de espernear.

Mas, para além dos temores e condenações religiosas, por que a religião manteve uma relação tão ambígua com o dinheiro? E por que espernearam os cristãos contra a queda do “Deus seja louvado” nas notas? Ora, o dinheiro, sobretudo na modernidade, é o único ser que, por seus atributos próprios, assemelha-se a Deus. Como o Todo Poderoso, o dinheiro também é onipotente e onipresente; nada escapa de sua mediação e tudo faz possível. O dinheiro é capaz de apresentar-se aos homens como meio de salvação e conforto, como entidade ao mesmo tempo concreta e transcendente capaz de redimir e elevar os afortunados que o tem e de condenar os desafortunados à miséria.

Tal como Deus, o dinheiro é um artefato criado pelos humanos e que, pela mistificação, logrou tal força sobre as vidas humanas que ganhou vida própria, tornando-se não apenas independente da humanidade mas mais poderosa do que ela. Deus e o dinheiro são fontes de sentido para o mundo, atrás de ambos correm, matam e morrem os homens.

Da mesma maneira que Deus, também o dinheiro usufrui de uma força divina, já dizia Karl Marx nos Manuscritos Econômicos-Filosóficos; ele pode realizar tudo aquilo que o homem como homem, por suas forças e capacidades próprias não pode realizar por si mesmo. “Sou feio, mas posso comprar para mim a mais bela mulher… Eu sou coxo, mas o dinheiro me proporciona vinte e quatro pés…”.

No entanto, o dinheiro possui uma vantagem em relação Deus, qual seja; ele é uma divindade mais visível e palpável. Na verdade, o dinheiro substituiu Deus ao ponto do outrora Todo Poderoso ter de, no mundo moderno, encontrar o seu lugar no seio de outra divindade, o dinheiro. É isto que atesta a expressão “Deus seja louvado”. Deus passa a existir nesta outra divindade, mais humana e mundana, que é o dinheiro.

A revolta dos cristãos com a retirada da frase não é tanto pelo laicismo ou pelos seus privilégios, por tanto tempo tolerados e intocáveis, estarem sendo agora questionados e revisto pelo Estado. Mas sim porque Deus, o “seu” Deus perdeu o lugar no mais poderoso deus, o único capaz de, na fraturada e dividida modernidade, constituir a unidade do mundo, o dinheiro.



Alyson Freire
(Professor de Sociologia. Mestrando no Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais - UFRN. Editor e integrante do Conselho Editorial da Carta Potiguar.)
http://www.cartapotiguar.com.br/2012/11/19/adeus-deus-seja-louvado-a-religiao-e-o-dinheiro/?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter&utm_campaign=Feed%3A+CartaPotiguar+%28Carta+Potiguar%29

Sacrifícios por alforria

E aconteceu depois destas coisas, que provou Deus a Abraão, e disse-lhe: Abraão! E ele disse: Eis-me aqui.
E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi.
Então se levantou Abraão pela manhã de madrugada, e albardou o seu jumento, e tomou consigo dois de seus moços e Isaque seu filho; e cortou lenha para o holocausto, e levantou-se, e foi ao lugar que Deus lhe dissera.
Ao terceiro dia levantou Abraão os seus olhos, e viu o lugar de longe.
E disse Abraão a seus moços: Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o moço iremos até ali; e havendo adorado, tornaremos a vós.
E tomou Abraão a lenha do holocausto, e pô-la sobre Isaque seu filho; e ele tomou o fogo e o cutelo na sua mão, e foram ambos juntos.
Então falou Isaque a Abraão seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui, meu filho! E ele disse: Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?
E disse Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. Assim caminharam ambos juntos.
E chegaram ao lugar que Deus lhe dissera, e edificou Abraão ali um altar e pôs em ordem a lenha, e amarrou a Isaque seu filho, e deitou-o sobre o altar em cima da lenha.
E estendeu Abraão a sua mão, e tomou o cutelo para imolar o seu filho;
Mas o anjo do SENHOR lhe bradou desde os céus, e disse: Abraão, Abraão! E ele disse: Eis-me aqui.
Então disse: Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho.
Então levantou Abraão os seus olhos e olhou; e eis um carneiro detrás dele, travado pelos seus chifres, num mato; e foi Abraão, e tomou o carneiro, e ofereceu-o em holocausto, em lugar de seu filho.
[Gênesis 22:1-13]

O temor de Isaque, a fidelidade de Abraão, a interrupção do anjo, o carneiro preso no mato. Uma trama digna de um palco de shakespeare. Essa narrativa do antigo testamento é bem conhecida como a prova que Deus precisava para considerar Abraão como "O Pai da Fé". Mas o que define Abraão como o pai da fé? Será que a atitude de pegar seu filho para sacrificá-lo seria uma prova de fé? Largar sua família e sair em peregrinação em busca de uma terra prometida por uma voz no meio da noite não seria uma prova suficiente de fidelidade? Por que Deus pediu Isaque a Abraão? 

Será que estamos lendo essa narrativa da forma correta? Você consegue enxergar um significado maior nessa passagem? Você consegue ver o evangelho estampado nessa narrativa do antigo testamento? 

A narrativa acaba com um desfecho feliz: o anjo impede que Abraão sacrifique seu filho, Abraão consegue passar no teste e, pra concluir, ainda consegue um carneiro para entregar no lugar de seu filho. Fim da história, correto?

Mas vejamos por outro ponto de vista: Isaque seria sacrificado. Abraão, com sua fé incondicional, promete a seu filho que "Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto", mesmo sabendo que Deus pedira seu filho, Abraão ainda crê que haverá um substituto, ele não mentiu para seu filho, ele creu que Deus providenciaria, ele creu que Deus não tomaria para si o filho da promessa. 

O carneiro foi aceito no lugar de Isaque. O carneiro foi o redentor do primogênito de Abraão. Assim como Cristo foi nosso substituto. Nos contentamos com o fim da narrativa com a libertação de Isaque. Mas havia um carneiro a ser sacrificado em seu lugar. O sacrifício precisava ser consumado. Enquanto Abraão e Isaque se abraçavam, um animal havia sido providenciado para ser entregue a Deus. 

Cristo, assim como o carneiro, foi entregue em sacrifício em nosso lugar. Todos nós somos Isaques, todos nós seríamos entregues à morte, todos nós seríamos entregues ao juízo de Deus. Mas Deus proveu para si o cordeiro para o sacrifício. O cordeiro de Deus, seu único filho, a representação de Deus na terra, o amor encarnado, foi entregue para que nossa vida tivesse uma nova chance, um novo rumo.

A única coisa que cabe a nós é acreditar na entrega do Redentor. O que salvou Isaque não foi apenas o carneiro, mas a fé de Abraão de que o substituto seria providenciado. O que garante nossa salvação não é apenas a morte de Cristo, mas também a nossa fé de que a sua morte substituiu a nossa. A minha fé baseada no sacrifício de Cristo é que me salvará da morte, não são as coisas que faço, não é a minha cultura, meu sexo, a comida, as roupas, a orientação sexual, a profissão, o vício, o erro, a culpa, o acerto, que me salvarão ou me condenarão, mas apenas e unicamente, minha fé de que Cristo, ao morrer, tomou o meu lugar e, dessa forma, a morte não tem mais poder sobre mim. A minha vida agora foi restaurada pelo que Ele fez. 
Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.
Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.
Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos.
Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.


[Isaías 53:4-7]

Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.
Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas;
Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença.
Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;
Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.
Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados antes cometidos, sob a paciência de Deus;
Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.
 
[Romanos 3:20-26]

Não perca seu tempo tentando encontrar formas de ganhar a salvação. Nada do que você fizer irá te salvar. O que Cristo fez por você, sim, é isso que te salvou! Deus só pede que você creia nisso. Isso é o evangelho! A fé de que nossa salvação foi dada por Cristo lá no calvário quando tomou o nosso lugar. Quando foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades.

Eu sei que o que é pregado hoje em dia pelos homens que se dizem profetas de Deus é diferente do que eu estou falando aqui. Todos ensinam que você precisa fazer coisas, deixar outras, seguir determinadas regras, usar determinadas roupas, dizer certas coisas, privar-se de certas comidas e bebidas, etc. Mas eu não consigo crer nesse deus que me condenará a uma eternidade de sofrimento por causa do meu sexo, ou da bebida que bebi, ou da festa que frequentei. Esse deus não é, e nunca será, o mesmo Deus que entregou-se no meu lugar para que eu pudesse ser chamado de Seu Filho. Ele morreu por TODOS porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Ele morreu por mim sabendo que eu sou falho, que sou corrompido, que sou digno de condenação. Mas mesmo sabendo disso Ele se ofereceu em meu lugar em troca de um relacionamento sincero, baseado no amor incondicional de um pelo outro. Ele não está nem aí para o que sou, o que importa para Ele é o que Ele é pra mim. Ele não está nem aí para o que sou, o que importa para Ele é se eu quero ser seu amigo. Ele não quis saber se Zaqueu era corrupto, Ele só queria jantar com ele. Ele não queria saber se a mulher do poço era Samaritana, Ele só queria ensinar-lhe algo. Ele não queria saber se Judas o trairia, Ele só queria que Ele fosse seu amigo. Ele não queria saber se a mulher trazida pelos fariseus era prostituta, Ele só queria libertá-la de seus opressores. Ele não queria saber se o ladrão na cruz era culpado, Ele só queria perdoá-lo e estar com Ele no paraíso. 

Deus não é como o homem. Ele não se importa com aquilo que os homens usam para condenar os outros. Ele prefere os condenados. Afinal, como Ele vai nos ajudar se não precisarmos de ajuda? 


Abraço,
Eliab Alves Pereira

Deus nos livre de um Brasil evangélico

Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar "crente", com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista. 

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.


Ricardo Gondim