Em busca!

Tornei-me incapaz de dar início a um simples texto que compartilhe meus novos pensamentos. Limitei-me a mim! Não consigo superar-me. Ou, talvez, não queira. Sentar na calçada e ouvir bocas reclamando de tudo, falando da mesma coisa com palavras diferentes, cansou minha paciência! Não quero ser só mais uma voz que reclama de tudo. Não quero falar do que todo mundo, um dia, já falou. Não quero me limitar à reproduzir; antes, produzir. Todo dia banho meus olhos com uma imensurável quantidade de lixo informativo. E minha mente seca ao sol da inutilidade desse conteúdo.

Por que as pessoas se prendem tanto a discutir assuntos tão pequenos? Por que elas perdem tempo impondo seus pontos de vistas sobre assuntos que não lhe cabem? Por que sempre falamos sobre as mesmas coisas? Já reclamamos da política, da religião, da sociedade. O que nos falta? Não seria esse o momento de buscarmos novas aventuras? Por que continuar circulando pelo pedacinho de terra que construímos? Por que não sair em busca das índias torcendo para perder-se no mar? 

Temo ficar acomodado à crítica pela crítica. Temo ser como a criança que chora pelo leite hoje, amanhã e depois. Essa vida minúscula e sufocante aperta minha garganta! Quero voar, mas não para outra gaiola! Quero voar fora da asa, como disse o Manoel de Barros. E lá vem eu com a mania de reproduzir! É disso que estou falando...

O que sobrou depois dos filósofos? O que sobrou depois dos compositores? O que sobrou depois de ontem?

O que sobrou foi eco. Busco as paredes que fazem o som repetir-se em várias vozes. Busco destruí-las. Ou escalá-las!



Eliab Alves Pereira

Aos religiosos e homoafetivos

Gostaria da ajuda de vocês para tirar algumas dúvidas que tenho sobre o posicionamento da vertente evangélica em relação a homoafetividade!


Me parece que os ativista religiosos têm bastante interesse pela causa homoafetiva. O que me intriga é que esse interesse revela-se em uma incansável luta pela "cura" das pessoas que compõem a classe homossexual. De certa forma, o esforço empreendido pelos religiosos têm sido caracterizados pela tentativa de mudar, de alguma forma, o jeito de ser dos gays.

Até aí eu entendo o que eles querem. Discordo, mas entendo!

O que me dá nó na cabeça é uma simples pergunta: "Por que?"

Vou ilustrar uma simples situação para que possamos compreender melhor o que se passa na minha cabeça quando me deparo com esse comportamento:

"Um homem está andando pela rua com a mais nova invenção da ciência: comprimidos que curam a homoafetividade. Basta 1 comprimido e o homossexual tranforma-se em heterossexual. Um pouco mais a frente esse homem encontra um homossexual. O que ele faz? Tenta, de todas as formas, 'curar' o gay."

Pergunta: "Por que?"

O que leva um ser humano a impor um mudança a outro ser humano simplesmente pelo fato de acreditar que o outro precisa de sua "solução"?

Sendo assim, o que nos impediria de impor uma suposta cura aos ativista religiosos para o seu comportamento?

Como no conto do sábio chinês, que não sabia se era um sábio chinês que sonhou que era uma borboleta, ou se era uma borboleta sonhando que era um sábio chinês; será que o homossexual precisa da "cura gay" apresentada pelos religiosos ou será que é o religioso que precisa de uma cura para se tornar tolerante? 

O sábio chinês talvez tenha vivido toda a sua vida sem uma resposta para seu enigma, mas acredito que ele nunca tentou transformar a borboleta em sábio chinês. Afinal, ao que parece, ele era sábio!

A questão aqui não é impor um posicionamento ou contar histórias, o ponto máximo aqui é a pergunta: "Quem precisa de cura?"



Eliab Alves Pereira

Poupem-me!

Somos um bando de desenformados falando com a boca cheia de razões que não temos. Razões que caem e sujam nossas roupas "limpas" enquanto regurgitamos nosso moralismo mesquinho aos quatro cantos do mundo! 

Sim, é exatamente isso que estou fazendo agora!

Eliab Alves Pereira

Afinal...



Todo belo jardim já passou uma noite na chuva!


Eliab Alves Pereira

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?


Paulo Leminski


Diga-me:




Não seria muita prepotência da minha parte falar em nome de um Deus? Como seria, por exemplo, se alguém falasse por você sobre sua pessoa para outros indivíduos?

Profecias











Os profetas viram a vida a caminho do calvário.
"Um dia" - disseram - "abriremos os olhos e veremos o nosso mundo sendo ceifado pela morte."
Alguns profetizaram que um novo mundo seria criado. 
Um novo mundo nos aguarda.
Seria isso verdade?

Ontem, conversando com as estrelas, elas me mostraram o que aconteceria:

Os rios faltarão aos encontros com o mar. 
O sol castigará a terra. 
Os pássaros cantarão canções tristes. 
As flores murcharão e perderão as cores. 
A lua soluçará ao ver o sol se pôr pela última vez.

Vi-me em um mundo tomado pela dor. 
Pelo fim. 
Fechei meus olhos. 
Não quis observar esse quadro. 
Essa obra da morte.

De repente uma brisa suave passou por meu ouvido esquerdo. Uma brisa que eu não acreditava mais existir naquele mundo. A última brisa. O último vento fresco ao fim da tarde. Ele lembrou-me do antigo mundo. Lembrou-me da praia beijando o mar. Lembrou-me das belas canções das aves. Lembrou-me dos casais abraçados declamando poemas.

O vento fresco disse-me baixinho: "abra os olhos!..."

Ao abrir, tu estavas à minha frente, olhando meu rosto, contemplando meu medo. 
Tua face tomou conta de todo meu campo de visão.

Já não enxergava mais a morte do mundo. Ao ver-te, lembrei-me do antigo mundo, dos belos jardins. Lembrei-me das sinfonias dos grandes autores. Lembrei-me das noites de lua cheia, do banho do sol ao fim da tarde. Ao ver-te lembrei da dança das árvores com o vento, lembrei-me das crianças dormindo no colo quente da mãe.

Esqueci que o mundo estava descendo a sepultura. Não vi mais a dor, mas te vi.

Amor!

O último vento que passara pelo mundo deixou-me. 
Seguiu viagem, declamou seu último poema: "abra os olhos!..."

Mas antes de ir, ele confessou-me uma última coisa. 
O último segredo da humanidade. 
O quinto evangelho. 
A estrofe que faltava. 
A última página do livro. 
Suas palavras foram: "Abra os olhos!..." - deixou que as palavras ecoassem... e continuou: - "...os profetas tinham razão! Há um novo mundo à sua espera."

E então abri meus olhos. E vi você! Meu novo mundo. Minha salvação para além da morte. 
E então abri meus olhos e te vi contemplando minha face. Olhei no fundo dos teus olhos e enxerguei tua alma. 
E ela dizia: "Vem comigo! Sou teu novo mundo."

E então acordei! Meus olhos tremiam, minha boca estava seca. A noite estava calada, triste. Alguns pingos anunciavam a chuva que viria.

Fiquei parado. Deitado olhando para o teto. Olhos fixos, distantes... 

Compreendi:

Tu és a última confissão do vento. 
És o último segredo da humanidade. 
Meu quinto evangelho, 
a estrofe que faltava em minha sinfonia. 
És a última página do meu livro!

És o novo mundo que os profetas anunciaram. 
És o meu paraíso após a morte. 
És a minha segunda chance.

Minha vida eterna!


Eliab Alves Pereira


O quarto dos horrores!

Barba Azul era rico. Morava num castelo que tinha cem quartos. O que não estava bem explicado eram seus múltiplos casamentos e suas esposas desaparecidas, caso semelhante ao sultão das Mil e uma noites.

Uma jovem se apaixonou por Barba Azul e se casou com ele. A festa foi linda. A vida, uma felicidade. Chegou, entretanto, um dia quando Barba Azul precisou viajar. Ao se despedir, ele tirou da cintura um molho de cem chaves.

"Eis as chaves do meu castelo", ele disse para a sua adorada esposa. "Você pode entrar em todos os quartos - menos um, o centésimo, o mais distante. Nesse quarto, não entre, pois será terrível se você fizer isso." E partiu.

A esposa se pôs alegremente a visitar todos os quartos, todos maravilhosos, mais que suficientes para a sua felicidade. Mas, visitado o quarto de número 99, ficou ela com a chave proibida na mão.

É natural que se pense: "Se era proibida a entrada, Barba Azul não deveria ter deixado a chave...". Note que essa estória é uma variação sobre o mito da queda: Deus enche o jardim de árvores maravilhosas e diz: "Daquela árvore não comereis, porque no dia em que dela comerdes certamente morrereis". Se a árvore não era pra ser comida, por que a plantou? Quem faz essas perguntas ainda não entrou no mundo de faz de conta, pensa que se trata de "história". Mas as "estórias" acontecem na alma, e na alma não há formas de se guardarem as chaves.

Ela abriu o quarto. E o que ela viu a horrorizou. Corpos mortos. Sangue. O susto foi tão grande que ela deixou a chave cair no chão. A chave ficou suja de sangue. Tentou limpar a mancha. Inutilmente. A mancha resistiu a todos os sabões e lixas.

Volta o marido. Pede as chaves. Vê a chave manchada. Ela deveria se juntar às outras antigas esposas, mortas.

A estória, em sua versão original, deve ter terminado aqui. Mas algum redator posterior escreveu um fim idiota no qual os irmãos da curiosa a salvam. Com o final feliz perde-se a sabedoria da estória. É sempre assim. Os finais felizes sempre fazem parar o pensamento.

O castelo de cem quartos é metáfora do corpo humano. Noventa e nove quartos abertos à visitação do público. Ali, com os visitantes estranhos, tudo são sorrisos e conversa cordial. Mas o ultimo quarto é o quarto que odiamos; ali mora nossa parte monstruosa. Gostaríamos de nunca mais visitá-lo. Gostaríamos de perder a sua chave. Na verdade - isso a estória não teve jeito de contar -, o dono da casa não possui sua chave. Nós não podemos, mesmo querendo, abrir o nosso quarto de horrores. Não queremos ver o que está lá dentro: nós mesmos - o retrato de Dorian Gray -, nossa face deformada, horrenda, monstruosa. Você já teve um ataque de ódio e fúria? Já se viu no espelho assim?

O trágico é que, se nós mesmos não podemos abrir o nosso quarto dos horrores, é a pessoa amada, a mais íntima, que possui a chave. E nem é preciso que ela lhe seja dada. E nem é preciso que seja roubada. A chave aparece, miraculosamente, na sua mão.

Os inimigos podem atacar a casa. A batalha com eles me torna mais bonito. Quanto mais luto, mais feliz fico com minha imagem. O que me torna horrendo é a visão daquela imagem que mora naquele quarto, e que somente a pessoa mais íntima tem o poder de soltar.

A chave não pode ser limpa: a imagem, depois de vista, não pode ser esquecida. No momento em que ela entrou no quarto, ela assassinou o seu amado Barba Azul. Aos seus olhos, ele se transformou em outro - aquele que ele mesmo odiava. 

No momento em que Barba Azul viu a chave manchada, ele compreendeu que ela já vira o seu lado horrendo. Olhando nos olhos dela, espelho, ele se viu da forma como se detestava ver. Dali para frente sempre que olhasse nos olhos dela ele se veria horrendo.

E a odiaria por aquilo. A estória termina com a morte. Não a morte física, seja da esposa, seja do marido. O trágico da estória é a morte do amor: o amor não sobrevive depois que a pessoa amada abre o quarto dos horrores.

Rubem Alves

De olhos fechados

No princípio, as trevas cobriam o mundo. Ninguém conseguia enxergar absolutamente nada. No escuro não dá pra saber a cor do outro, o sexo ou a religião. No escuro não dá pra ver as tatuagens, as imperfeições estéticas ou a marca da roupa. Lá fora era tudo escuro, mas dentro de cada um de nós havia sol. Andávamos todos de mãos dadas pelo mesmo caminho. Mas um dia uma luz foi acesa, e passamos a perceber a cor do outro, o sexo e a religião; suas roupas, estilos e imperfeições. Soltamos as mãos. Tomamos caminhos diferentes. Alguém acendeu as luzes para que víssemos a beleza de estarmos juntos, mas não entendemos o recado. Internamos as trevas. Apagamos nosso sol. Não somos mais iguais. Achávamos melhor quando tudo era igual. Preferimos a escuridão. Odiamos o diferente! Mas quem acendeu as luzes nos deu o poder de fechar os olhos. Na luz vemos que somos diferentes, através das trevas, aprendemos que apesar da diferença, somos todos iguais. E mesmo que não quiséssemos fechar os olhos para lembrar disso, nasceu o dia e a noite para contar essa história.

Eliab Alves Pereira

O barco e o cais

Ó, pobre barco velejante, há dor pior do que ser preso ao cais depois de provar da liberdade do mar? Onde estão teus remos? Pra onde foram seus navegadores? Miseráveis, preferem a segurança do porto! Abandonaram-te. Prenderam-te às margens do teu lar. Monstros! Quem merece tal castigo? Teu corpo ainda pode ser acariciado pela águas mornas. Consegues enxergá-las como um adolescente que olha para sua amada sendo arrancada de seus braços, e quando tenta segurá-la, alguém puxa-lhe pela mão. Prendem-no ao cais. Ela está tão perto, mas alguém não permite que ele a toque. Antes de ser puxado, a última coisa que sentiu foi o delicado toque de seu amor. Assim com tu sentes as carícias suaves do teu amante beijando tua proa. 

Sou navegante. Navego para dentro de mim, onde não há espaço para terra seca. Lembro-me de acenar para todos que ficaram me olhando enquanto me afastava. Eles não quiseram viajar comigo. Temiam o mar. Temiam amar. Preferem o cais. Desejam o que consegue prender os navios. O carrasco dos velejantes! Escolhem a terra pois conseguem dominá-la. No mar, só conseguimos dominar nosso barco. 

Sou navegante sem cais. Sou levado pelo meu barco para onde os ventos decidirem. Não sou dono de onde estou, e a cada onda vencida, encontro mais caminhos para seguir. 

Meu barco está livre. Dentro de mim há muitos mares ansiosos para tocá-lo. Estou numa viagem sem volta. Escolhi velejar, remar, mergulhar. Velejo para longe da terra, não quero segurança. Remo para vencer as ondas, não quero que elas me levem de volta ao porto. Mergulho em busca de ar, aqui dentro respiro melhor. 

Ó, pobre cais, há dor pior do que estar preso à sua segurança enquanto vês o barco velejante beber da liberdade do mar? És como a criança que não pode brincar porque teme a liberdade de estar longe do colo da mãe. Lembro-me de como é tua visão. Já estive onde estais. Já vi os mares convidarem os barcos para dançar. Sei que tua dor é como a dor da gaiola que vê seus pássaros fugirem de si, e não pode fazer nada porque não foi feita para ser livre, mas para aprisionar os que preferem a segurança das grades mesmo com as portas abertas.


Eliab Alves Pereira