A fé como falha moral

É sabido que certo personagem de Dostoiévski argumentou que “sem Deus não existe moralidade” – isto é, um ateu convicto não teria qualquer motivo real para sustentar uma postura de correção moral. Segundo essa linha de pensamento o homem sem fé em Deus, desprovido de cadeias adequadas para refrear as suas inclinações, tenderia irremediavelmente a chafurdar na imoralidade. O ateu sentir-se-ia imediatamente livre para adulterar, roubar, mentir, matar, canibalizar, prostituir-se e prostituir – e faria tudo isso e muito mais sem qualquer freio ou constrangimento.

Da crença em Deus dependeria então (quase como defendeu Plínio Salgado) toda a defesa da virtude, da castidade, do heroísmo, da delicadeza de sentimentos, da integridade individual e do pudor coletivo.
Como confirma a postura de muitos ateus declarados, em tudo tão ou mais íntegros e gente boa quanto muitos religiosos, parece seguro afirmar que o autor russo estava errado. Pessoas sem Deus parecem de fato sustentar vidas íntegras – a não ser que, como não é inconcebível, os ateus estejam na verdade muito menos “sem Deus” do que os crentes gostariam de pensar.
De qualquer forma, nunca simpatizei com esse argumento “sem Deus não haveria moralidade”. Além de me parecer racionalista demais, a defesa deixa a impressão de que a moralidade é por si mesma coisa mais admirável do que Deus – como se a existência de Deus precisasse da moralidade para ser justificada.
Finalmente, no entanto, o inevitável aconteceu: um ateu mobilizou o argumento inverso para atacar a fé. Segundo George M. Felis, professor de filosofia no Georgia Perimeter College, a moralidade não é inconcebível sem Deus; pelo contrário, ela é inconcebível com ele.
Sejamos brutalmente honestos. Descrever a fé como “a falência da razão” é, na melhor das hipóteses, meia-verdade.
Há alguns que afirmam que suas convicções religiosas estão fundamentadas apenas na razão e em evidências palpáveis, mas nunca encontrei eu mesmo criatura tão rara. A mais sagaz argumentação jesuítica que busque justificar a religião racionalmente não deixará o componente “fé” inteiramente de lado [...]. Por “fé”, neste contexto, quero dizer (e crentes honestos também) acreditar em alguma coisa porque se escolhe acreditar nela, sem levar-se em conta a ausência de evidência/razões para se acreditar.
SE AS CRENÇAS DE ALGUÉM NÃO PODEM SER JUSTIFICADAS, E SE AS AÇÕES DE UMA PESSOA SÃO MOLDADAS E JUSTIFICADAS PELAS SUAS CRENÇAS, ENTÃO ALGUMAS AÇÕES NÃO PODEM SER JUSTIFICADAS.
A fé não é apenas a falência da razão: a fé é a deliberada abdicação da razão. A fé não é um erro na mesma linha de um erro de lógica. Não é simplesmente um lapso que não leva em conta uma evidência que deveria ser levada em consideração. A fé é a declaração de que a razão é muito boa em determinadas áreas, mas que sua eficácia termina aqui onde o crente afirma que ela termina. E nenhum argumento pode ser concebivelmente dado para que não se apliquem os critérios da razão em um dado assunto, porque o argumento em si deve aderir aos critérios racionais [...].
Já ouvi gente dizer coisas assim:
– Não é algo racional. Você tem de sentir.
– Crer não é questão de raciocínio ou de argumentação. Você não tem como argumentar sobre Deus porque Deus está além de qualquer argumentação [...].
O motivo pelo qual isso é tão importante não é simplesmente porque gente que abraça a fé acabará tendo crenças mal-formadas. A razão não é apenas normativa no sentido mínimo de que há estruturas dentro das quais ela deve operar ou não será mais razão. Há também um componente ético na razão, porque as crenças de uma pessoa estão intimamente ligadas às suas ações [...].
Se a pessoa abre mão da razão na formação das suas crenças, ela abre mão do único acesso à verdade que temos. Os seres humanos não tem qualquer capacidade perceptual para discernir a verdade – do modo como somos, por exemplo, imediatamente capazes de discernir cor e forma. O mais perto que podemos chegar da verdade é justificando nossas crenças. A fé não é justificação, é a suspensão de todos os critérios de justificação. A fé declara que determinadas crenças – essas fundamentais, bem no centro da minha visão de mundo e que moldam o modo como eu vejo as coisas – não precisam ser de forma alguma justificadas.
Se as crenças de alguém não podem ser justificadas, e se as ações de uma pessoa são moldadas e justificadas pelas suas crenças, então algumas ações não podem ser justificadas.
HÁ UM COMPONENTE ÉTICO NA RAZÃO.
Aqueles que vivem pela fé não são intelectualmente inferiores. Pode-se até dizer que requer-se um certo brilhantismo, ou pelo menos extraordinária flexibilidade mental, para entregar-se à ginástica mental que exige aplicar-se a razão à maior parte das áreas da vida e suspendê-la por completo em outras áreas. Não se trata portanto de questão de intelecto. E dizer que a fé é a falência da razão ou a abdicação da razão é apenas dar um nome a ela, não explicar o que há de errado com ela. Creio que algo mais forte pode ser dito.
A fé é uma falha moral. A abdicação da razão é a abdicação da justificação. Quando as pessoas deixam de tentar justificar as suas ações no mundo de forma racional – quando decidem agir, ao invés disso, pela fé – elas podem muito bem fazer qualquer coisa e chamar isso de correto e bom.






Paulo Brabo

Forrobodó caótico sem significado


Ano passado me procuraram para uma entrevista. O assunto seria a igreja evangélica e esses caras estranhos chamados sem-igreja. Me mandaram as perguntas, eu respondi, mas a matéria nunca apareceu em lugar nenhum. Ainda nessa fase de vacas magras no blog, desenterrei a entrevista pra postar aqui. As perguntas foram formuladas pelo jornalista carioca e flamenguista Marcos André Lessa.

1) O movimento dos sem-igreja cresce a cada dia: blogs e comunidades no orkut já são dedicados ao tema, como lugares para "congregar" e compartilhar de questionamentos parecidos. Na sua opinião, quais os motivos para esse movimento ocorrer?

É um movimento natural. É pra onde tudo migra hoje. Virtual, pessoal, íntimo. Grandes instituições estão em descrédito em todos os ambientes, não só no cristão. E a internet surgiu como uma alternativa que viabiliza contatos e trocas entre gente sem a dependência de uma instituição toda hierarquizada, toda rígida, toda dogmática. Sem falar no custo pra manter as instituições formais funcionando. Pouca gente ainda se dispões a arcar com esses custos. É um preço muito alto que se paga, tanto em dinheiro como em mão de obra. É só olhar pras grandes instituições religiosas e ver o tanto de dinheiro, tempo e gente envolvida só em manter tudo funcionando. As pessoas estão saturadas desse método e tentando encontrar formas alternativas. É natural que seja assim.

2) Nos posts "Um primeiro passo" e "Ter, pertencer, ir" vc parece concluir uma série de reflexões e a partir dali começar uma nova trilha, só que agora sem estar ligado oficialmente a uma igreja evangélica. Como foi esse processo? Houve algum momento/fato/acontecimento especial que foi um marco, um início desses questionamentos?

Não houve marco não. Houve certamente um processo, mas não sei se consigo defini-lo bem. Fui sendo influenciado por um monte de boas pessoas, tanto pessoalmente como através de leituras. E aquilo que fui recebendo, fui passando adiante, especialmente dentro do contexto da instituição da qual fazia parte – e também através do blog. Basicamente em uma busca por simplificação tanto na mensagem como na estrutura de vida comunitária e na vivência da mensagem do evangelho de Jesus na prática, no dia-a-dia, na vida comum. Meu desligamento acabou sendo uma consequência natural, uma vez que o que vinha vivendo e falando ia causando certo desconforto na instituição à qual eu era filiado (ou igreja da qual era membro, tanto faz). Eu não queria ficar causando desconforto à ninguém, portanto me afastei antes que o desconforto virasse briga ou coisa parecida.

3) O que foi mais difícil pra você nesse processo, até a conclusão acima?

Rompimento nunca é fácil. Envolve um monte de amigos, gente boa, gente querida. E um monte de hábitos. Claro que gostaria de poder romper com a instituição, a forma, sem precisar romper com gente, pessoas. Mas na prática isso é muito complicado. Perde-se vínculos. Encontros que antes eram semanais passam a ser esporádicos. Mesmo que os encontros semanais fossem, no geral, bastante frios e superficiais, eles aconteciam e a gente via os rostos e tinha os nomes sempre na memória. Encerrando esses encontros, aos poucos vai-se perdendo vínculos. Essa é a parte chata.

4) No blog você também citou algumas reações à sua decisão. Alguma específica te marcou, positiva ou negativamente?

Não lembro exatamente que reações citei lá, mas ouvi uma pequena porção de bobagens a meu respeito. De gente que nunca falou mais do que um 'oi' e 'tchau' comigo, mas já tinha opiniões fortíssimas sobre mim, e de alguns mais próximos também. A maioria na linha de que eu era um ‘desviado’ e que queria ‘causar divisão’, enfim, passei a ser considerado um sujeito perigoso. Melhor manter distância. Mas foi pouco, comparado a histórias que ouço por aí. Os caras tinham seus motivos. Estavam protegendo suas crenças e tal. Não tenho nada contra ninguém. Até entendo essas reações. Lamento, mas entendo. Mas teve também alguns bons amigos que permaneceram bons amigos e deram uma grande força. Isso foi ótimo.

5) Em outro post vc cita que seu dízimo agora seria encaminhado à caridade, ou algo do tipo. Como você chegou a essa conclusão? E a passagem que diz "trazei todos os dízimos à casa do tesouro"?

A passagem sobre a ‘casa do tesouro’ foi escrita num tempo em que existia uma ‘casa do tesouro’. Essa casa não existe há mais que 2 mil anos! O 'templo', depois de Jesus, passou a ser o coração do homem. É aí a casa do tesouro. No coração de cada um. E no coração não cabe dinheiro; cabe amor, cuidado, misericórdia, paz, perdão, graça, proteção, carinho. Essas coisas todas se manifestam de um para o outro de muitas formas e uma delas é repartindo-se o que cada um tem em amor. É como Paulo falou pra rapaziada de Corinto: “No presente momento, a fartura de vocês suprirá a necessidade deles, para que, por sua vez, a fartura deles supra a necessidade de vocês. Então haverá igualdade, como está escrito: ‘Quem tinha recolhido muito não teve demais, e não faltou a quem tinha recolhido pouco’.” Essa obrigação de dar 10% da renda pra igreja da qual o sujeito é membro é uma tolice. O amor é que nos constrange e nos move a repartir o que temos com quem não tem, ou tem pouco. Simples assim. Sem obrigação, sem barganha, sem valor nem endereço fixo.

6) Lendo seu blog, tenho a impressão que você foi criado na igreja. E você tem dois filhos. Fica preocupado se eles vão abraçar ou não a fé cristã, mesmo sem frequentar uma igreja qdo crianças?

É preciso corrigir a definição do termo ‘igreja’ aqui. Meus filhos estão aprendendo, junto comigo, a ser igreja em todo canto, em todo tempo. O que eu espero de todo coração é que eles abracem a Cristo. Espero que Deus me dê a graça de vê-los vendo um pouquinho de Jesus em mim, ou pelo menos no meu desejo sincero de seguir Jesus. Se isso (ou qualquer outra coisa) os levar a abraçar a pessoa de Jesus, certamente todo resto estará resolvido. Há muita gente caminhando por aí abraçada à ‘fé cristã’ dentro de ‘igrejas’ sem, no entanto, jamais ter abraçado o Cristo.

7) Em "Ter, pertencer e ir" vc fala de uma solidão pós-decisão de ser um "desigrejado". Queria que vc falasse mais sobre esse sentimento, e como ele se expressou na sua rotina.

Acho que falei um pouco disso na pergunta 3. Todo rompimento é traumático. As noites de domingo foram bastante esquisitas no começo. Eventualmente sinto falta de um amontoado maior de gente. Mas quando estava nesse amontoado, achava ele meio vaziozão. No fim, passei e ainda passo alguns dos momentos mais intensos da minha vida familiar quando nos reunimos em torno da mesinha de centro na sala com livros, músicas, violão e copos de nescau à postos. Passamos algumas horas ali de longas e profundas conversas que, por algum motivo, nunca tive antes. Estando sozinho, passei a assumir como minhas muitas responsabilidades que antes estavam delegadas à instituição. E ajudou também o fato de ter mais tempo livre, uma vez que antes estive sempre bastante envolvido em programas da instituição que me tomavam várias noites por semana.

8) Sua esposa teve os mesmos questionamentos que você? Se não, como ela encarou suas reflexões e conclusões? Se teve, foi ao mesmo tempo que você?

Minha esposa veio junto, desde o comecinho. Conversamos bastante desde sempre e ela participou de todas as etapas de mudança na nossa caminhada com Jesus.

9) Na sua opinião, qual a importância e função da igreja evangélica hoje?

Isso é complicadíssimo de responder, porque a expressão ‘igreja evangélica’ já não significa absolutamente nada mais, e faz tempo. É uma bagunça tão grande, um forrobodó tão caótico, que já não tem significado nenhum. É Edir Macedo, Malafaia, Terranova, Rodovalho, apóstolos, bispos, profetas, curandeiros, milagreiros, manipuladores, caras-de-pau, safados... toda essa gente aí é ‘evangélico’. A função desses aí é enganar o povo e ganhar muito dinheiro isento de impostos. É construir seu impériozinho e ter uma porção de subordinados submissos beijando suas mãos. E esses caras crescem que nem capim porque anunciam um projeto de prosperidade e poder. O povo que os segue não faz a menor idéia de quem seja Jesus. Abraçam a esperança hedonista de poder e, para isso, vendem a alma. São enganados, mas enganados pela sua própria ganância. É triste, mas é o que é.


Só que tem também um monte de gente boa, esforçada e bem intencionada em instituições que se esforçam um bocado pra apontar pra Jesus e não pra si mesmas e fazer o bem ao próximo, e não construir um templo novo bonitão, acarpetado e cheiroso. Isso existe. Tá espalhado por aí. Cada vez mais raro, porque até esses aos poucos vão cedendo às tentações de crescimento e sucesso oferecidas pelo primeiro grupo. Mas sempre há uns guerreiros remanescentes por aí. E os caras também se chamam de ‘evangélicos’.Enfim, a igreja evangélica é uma balbúrdia indefinível. Mais vale largar dela e seguir Jesus independente do lugar onde você esteja. E esse lugar pode até ser uma igreja evangélica, tudo bem. O importante é não permitir que a igreja instituição e todas as suas programações e demandas tomem o lugar do Cristo. É só seguir Jesus onde estiver. E se dois ou três forem junto, está ótimo.



Tuco Egg em entrevista ao Jornalista Marcos André Lessa.

Sereia ou baleia?


Uma academia colocou um outdoor em São Paulo que dizia o seguinte:
"Neste verão, qual vc vai ser? Sereia ou Baleia?"
Uma mulher enviou a eles a sua resposta e distribuiu o seguinte email:

"Ontem vi um outdoor com a foto de uma moça escultural de biquini e a frase : Neste verão, qual vc vai ser? Sereia ou Baleia?"
Respondo:
Baleias estão sempre cercadas de amigos. Baleias tem vida sexual ativa, engravidam e tem filhotinhos lindos. Baleias amamentam. Baleias andam por ai cortando os mares e conhecendo lugares legais como a Antártida e os recifes de coral da Polinésia.
Baleias tem amigos golfinhos. Baleias comem camarão à beça. Baleias esguicham água e brincam mto. Baleias cantam mto bem. baleias são enormes e quase não tem predadores naturais.
Baleias são bem resolvidas, lindas e amadas.
Sereias não existem...
Se existissem viveriam em crise existencial: Sou um peixe ou um ser humano?
Não tem filhos, pois matam os homens q se encantam com sua beleza.
São lindas, mas tristes, e sempre solitárias...
Querida academia, prefiro ser baleia!
"

(A referida academia retirou o outdoor na mesma semana!)

Muitas vezes o ser humano se importa tanto com o exterior de uma pessoa (criticando a gordura), a posse de bens materiais, e esqueçe que o mais importante é o interior, os sentimentos daquela pessoa... Vamos valorizar mais o que somos, e não o que os outros visualizam, cada um sabe como quer estar ou fazer de si... E só assim seremos felizes.

Patologia

Queria ter nascido poeta
Mas nasci pensador
Poeta não se dá ao luxo de pensar
Ele usa as palavras para sentir
Pensador, para explicar
Poeta ama
Pensador, pensa
Nasci com a doença de explicar
Mas o que eu queria mesmo
Era ter nascido
Com a doença de amar

Eliab Alves Pereira
08/05/2012

Judicare

Uma vez Oscar Wilde disse que 
"Só as pessoas superficiais 'não julgam' pela aparência". 
Fico pensando: 
por que ter tanto medo 
da sinceridade?
Não é julgar 
pela aparência. 
O que você faz a partir desse julgamento? 
Seja sincero
com você mesmo!
Não é quem você julgou, 
mas onde você vai jogar 
seu julgamento 
depois que escolher 
se aproximar do julgado.
Se escolher não se 
aproximar,
culpado!

Dez por cento!

Em outro post você cita que seu dízimo agora seria encaminhado à caridade, ou algo do tipo. Como você chegou a essa conclusão? E a passagem que diz "trazei todos os dízimos à casa do tesouro"?


A passagem sobre a ‘casa do tesouro’ foi escrita num tempo em que existia uma ‘casa do tesouro’. Essa casa não existe há mais que 2 mil anos! O 'templo', depois de Jesus, passou a ser o coração do homem. É aí a casa do tesouro. No coração de cada um. E no coração não cabe dinheiro; cabe amor, cuidado, misericórdia, paz, perdão, graça, proteção, carinho. Essas coisas todas se manifestam de um para o outro de muitas formas e uma delas é repartindo-se o que cada um tem em amor. É como Paulo falou pra rapaziada de Corinto: “No presente momento, a fartura de vocês suprirá a necessidade deles, para que, por sua vez, a fartura deles supra a necessidade de vocês. Então haverá igualdade, como está escrito: ‘Quem tinha recolhido muito não teve demais, e não faltou a quem tinha recolhido pouco’.” Essa obrigação de dar 10% da renda pra igreja da qual o sujeito é membro é uma tolice. O amor é que nos constrange e nos move a repartir o que temos com quem não tem, ou tem pouco. Simples assim. Sem obrigação, sem barganha, sem valor nem endereço fixo.





Tuco Egg em entrevista ao Jornalista Marcos André Lessa.





Isso tem nome?


‎"Isso" tem nome, sim! O nome dele é Brian Head Welch. Antes de atirar as pedras, vamos olhar (de verdade) para o "culpado". Brian era guitarrista de uma banda de Nu Metal chamada Korn. A aparência dele, tão repudiada pelas pessoas, foi formada na época que ele era da banda. Hoje ele segue uma carreira de músicas evangélicas (no sentido original da palavra), e ele continua com o estilo de rock nas músicas. Além da banda, ele tem um projeto chamado The Whosoevers (A todo aquele). Cristo nunca usou as escrituras para condenar ninguém, não sei quem foi que nos deu esse direito de fazer isso. Aliás, quem era mesmo que usava as escrituras para condenar os outros? Ter a aparência que ele tem é "pecado" é "errado", mas chama-lo de "isso" e condena-lo pela sua aparência é o quê? A vontade de Deus? "Nós" condenamos a forma de ser do Brian, por exemplo, mas como a cultura norte americana ou qualquer outra enxerga a nossa forma de "se dizer cristão"? A forma legalista e mesquinha de tentar negociar com Deus oferecendo uma suposta "santidade" é vista de que forma em outro país? Isso é hipocrisia no mais "puro" sentido. Como outras culturas nos vêem? É somente o nosso modo "certinho" de "cultuar" a Deus que vale? Bem, o engraçado é quando vemos a situação em que João nos coloca em João 3:16. Na epístola diz que não devemos amar o mundo, mas no evangelho ele diz que Deus amou o mundo a ponto de dar sua vida por ele. Tipo: contradição? Eu acho que não! Mas o que isso significa? Você já percebeu que julgar o próximo, desprezar a forma do outro ser e atirar pedras sem antes enxergar que é um ser humano que está sendo atingido é o que se deveria chamar de "coisas do mundo"? E a pergunta continua no ar: "Por que querem parecer tanto com o povo do mundo?" Não na questão física mas no vício de julgar o diferente, no caso de menosprezar o próximo, de preconceitua-lo, etc. Isso não seria um perfil do "mundo"? Se é, então pq a igreja faz da mesma forma? Não nos conformeis com esse mundo... Não se conforme com o mal costume que o mundo ensinou de atirar predras. Usamos as escrituras para dizer que não devemos amar o mundo nem as coisas do mundo mas amar a oportunidade de julgar o outro é o quê? Não foi João que disse que a SOBERBA não procede do pai? O que é a soberba se não a o sentimento negativo caracterizado pela pretensão de superioridade sobre as demais pessoas, levando a manifestações ostensivas de arrogância, por vezes sem fundamento algum em fatos? Concupiscência dos olhos não seria ver o que os olhos querem ver? Concupiscência da carne não seria fazer o que a carne anseia? (Condenar, rotular, excluir, menosprezar chamando alguém de "isso" como se fosse um objeto). Claro, tudo fica mais fácil desviando a ideia de concupiscência para apenas o desejo de encher a cara, se prostituir (principalmente), etc. Quando João diz que não devemos amar o mundo nem as coisas do mundo, ele está nos ensinando que, tanto o amor quanto o desejo pelas coisas do mundo é tudo aquilo que nos faz parecer com o mundo. E o que nos faz parecer com o mundo? Seria esse comportamento mesquinho e ridículo de mal tratar e rotular os outros pelo que eles são? Eu ter certa personalidade não compete na ideia de que eu sou dessa forma por amar o mundo, isso pode ser simplesmente meu estilo de ser, minha forma de se sentir bem. Censurar isso é que é uma atitude totalmente mundana. Mas o que seria eu desejar ou fazer tudo que o mundo não faz? É fácil! Cristo nos ensinou isso resumindo a Lei em Amar a Deus e ao próximo! Ou seja, o mundo ama fazer a coisa errada, eu, como servo de Deus, amo amar o mundo assim como Cristo ensinou: Amar como a mim mesmo. Como? Bem, apesar de seus defeitos você se ama, correto? Então, se você não ama o próximo por causa dos "defeitos" dele, você não o ama como ama a você mesmo. Ou eu estou equivocado? E ai você vai dizer: "Eu o amo. Só não gosto do jeito dele ser". Bem, então você não o ama, você ama as qualidades dele que te agradam. "Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele." Lembrem que o amor do Pai foi tanto PELO MUNDO que Ele deu sua vida para salva-lo. Ele não excluiu a prostituta por ela ser quem ela era. Ele a amou. Isso é atitude de outro mundo. Atirar pedras é que é atitude desse mundo, se você ama isso, o amor do Pai não está em você. Só pra servir de ajuda em conhecer um pouco sobre o Brian, aqui está um link para um vídeo onde ele conta seu testemunho http://www.youtube.com/watch?v=ccAFkssGGzY e aqui é um link que fala sobre o projeto "The Whosoevers"http://www.youtube.com/watch?v=JFvdcycjY2E se não for desprezível demais olhar, dêem uma conferida. OBS: Isso tem nome, sim! Se chama hipocrisia e falta de amor para com o próximo!



Trecho do seu novo livro:
“Em janeiro de 2005 encontrei-me com Deus e desde então nunca mais fui o mesmo . Durante anos, antes dessa decisão que mudou minha vida, fui guitarrista da banda Korn, viajei pelo mundo todo e ganhei milhões de dólares. Ao mesmo tempo, estava irremediavelmente viciado em cristal de matanfetamina. Eu tinha uma filha e era responsável por ela, mas estava falhando nisso. Estava jogando minha vida fora e acordava todo dia desejando que alguma força simplesmente acabasse com o meu sofrimento. Felizmente, isso não aconteceu. Em vez de uma força acabar comigo, Deus me deu uma nova razão para viver.”



Pra quem quiser conhecer as músicas do Brian http://letras.terra.com.br/brian-head-welch/





Eliab Alves Pereira

Lendas dos Judeus #21 (O sábado no céu)

ADÃO: O sábado no céu 

Antes que o mundo fosse criado ninguém havia para louvar a Deus e conhecê-lo. Por essa razão ele criou os anjos e os santos Hayyot, o céu e todo o seu exército e também Adão. 

Todos esses deveriam louvar e glorificar o seu Criador. Durante a semana da criação, no entanto, não era apropriado louvar o Senhor e proclamar o seu esplendor. Apenas no Sábado, quando toda a criação cessou, os seres da terra e do céu, todos juntos, irromperam em cântico e adoração enquanto Deus subia até seu trono e tomava assento nele. Era no Trono da Alegria que ele assentava-se, e fez passar todos os anjos diante de si – o anjo da água, o anjo dos rios, o anjo das montanhas, o anjo das colinas, o anjo dos abismos, o anjo dos desertos, o anjo do sol, o anjo da lua, o anjo das Plêiades, o anjo de Orion, o anjo das ervas, o anjo do Paraíso, o anjo do Gehenna, o anjo das árvores, o anjo dos répteis, o anjo dos animais selvagens, o anjo dos animais domésticos, o anjo dos peixes, o anjo dos gafanhotos, o anjo dos pássaros, o anjo-chefe sobre os anjos, o anjo de cada um dos céus, o anjo-chefe de cada divisão dos exércitos celestiais, o anjo-chefe dos Hayyot, o anjo-chefe dos querubins, o anjo-chefe dos ofanim, e todos os outros esplêndidos, terríveis e poderosos anjos. Esses todos compareceram diante de Deus com grande alegria, banhados numa torrente de alegria, e regozijaram-se e dançaram e cantaram, e exaltaram o Senhor com muitos louvores e muitos instrumentos. 

Os anjos ministrantes começaram: – Dure para sempre a glória do Senhor! E o restante dos anjos retomaram a canção com as seguintes palavras: – Alegre-se o Senhor nas suas obras! Arabot, o sétimo céu, estava cheio de júbilo e glória, esplendor e força, poder e força e orgulho e magnificência e grandiosidade, louvor e celebração, cântico e alegria, lealdade e integridade, honra e adoração. O Senhor chamou então o Anjo do Sábado para assentar-se num trono de glória, e trouxe diante dele os anjos-chefes de todos os céus e de todos os abismos, e convocou-os a dançar e celebrar, dizendo: – É Sábado diante do Senhor! Os príncipes exaltados do céu responderam: – Diante do Senhor é Sábado! Foi permitido até mesmo a Adão subir ao mais alto céu, para participar dos festejos por causa do Sábado. Foi conferindo a alegria do Sábado sobre todos os seres, sem excetuar Adão, que o Senhor dedicou sua criação. Ao ver a majestade do Sábado, sua honra e grandiosidade, e a felicidade que conferia a todos, por ser a fonte de toda alegria, Adão entoou uma canção de louvir ao dia do Sábado. Deus então disse a ele: – Você canta uma canção em louvor ao dia do Sábado, e a mim, o Deus do Sábado, não canta canção alguma? Diante do que o Sábado ergueu-se do seu assento e prostrou-se diante de Deus, dizendo: – Bom é dar graças ao Senhor. E toda criação acrescentou: – E cantar louvores ao seu nome, ó, Altíssimo. Este foi o primeiro sábado, e esta foi sua celebração no céu por parte de Deus e dos anjos. Os anjos foram informados na mesma ocasião que em em dias futuros Israel observaria aquele dia como santo de modo similar. – Separarei para mim mesmo um povo dentre todos os povos – Deus disse a eles. – Esse povo guardará o Sábado, e eu o santificarei para que seja o meu povo, e eu serei o seu Deus. De todos que tenho visto, escolhi toda a semente de Israel, e o designei como meu filho primogênito, e o santifiquei para mim mesmo por toda a eternidade, a ele e ao Sábado, para que guarde o Sábado e abstenha-se nele de qualquer trabalho. Para Adão o Sábado teve um significado peculiar. Quando ele foi forçado a abandonar o Paraíso no crepúsculo da véspera de Sábado, os anjos disseram enquanto ele se afastava: – Adão não passou nem sequer uma noite residindo na sua glória. O Sábado então apareceu diante de Deus para defender Adão, e disse: – Ó Senhor do mundo, nos seis dias de trabalho nenhuma criatura foi morta. Se o senhor começar agora matando Adão, o que será da santidade e da benção do Sábado? Deste modo Adão foi resgatado dos fogos do inferno, que seriam a punição adequada para seus pecados. Ele em gratidão compôs uma salmo em honra ao Sábado, que Davi mais tarde incorporou no seu saltério. Ainda outra oportunidade foi concedida a Adão de aprender e apreciar o valor do Sábado. A luz celestial, através da qual Adão podia contemplar o mundo de ponta a ponta, deveria por justiça ter desaparecido imediatamente após o seu pecado. Porém, por consideração ao Sábado, Deus permitiu que essa luz continuasse a brilhar, e os anjos, ao entardecer do sexto dia, entoaram uma canção de louvor e gratidão a Deus, pela luz radiante que brilhava noite adentro. Apenas quando o Sábado foi embora a luz celestial cessou, para consternação de Adão, que temia que a serpente pudesse atacá-lo no escuro. Deus porém iluminou o seu entendimento, e ele aprendeu a esfregar duas pedras uma contra a outra e desta forma produzir luz para suprir suas necessidades. A luz celestial foi apenas uma das sete dádivas preciosas das quais Adão desfrutou antes da queda e que serão concedidas novamente ao homem apenas na era messiânica. As outras são a resplandescência do seu rosto, a vida eterna, a elevada estatura, os frutos do solo, os frutos da árvore e as luminárias do céu, o sol e a lua – pois no mundo que há de vir a luz da lua será como a luz do sol, e a luz do sol será sete vezes mais intensa.







Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash(particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Tradução: Paulo Brabo

É tudo uma questão de Fé

Antes de qualquer coisa, quero agradecer a Silvia Barreto, uma amiga que "fiz" durante minha viagem a Israel. De lá pra cá ela passou a visitar o JovenSapiens e sempre trocamos ideias em relação a todo tipo de assunto. Foi através de um SMS que ela me mandou que tive a ideia de escrever esse artigo. Obrigado, Silvia.

SMS:
Tudo se faz novo quando nos convertemos de todo o coração, não acha? Lembrei-me disso por causa das nossas conversas. Mesmo que a pessoa não acredite em nada (nada é errado).

OBS: Quando eu disse a ela que esse SMS me deu uma ideia e que eu iria escrever a respeito, ela respondeu: "Tenho até medo dessas suas ideias. Vejo o senso crítico no ar." Comentei essa parte da conversa porque, assim como Silvia, você pode imaginar que esse artigo tem um teor crítico pela resposta que dei ao SMS. Mas não é! Na verdade, é apenas uma observação sobre o significado da palavra "convertermos".

Tudo se faz novo quando nos convertemos de todo o coração, não acha?

Acho sim, Silvia! Mas o que seria converter-se de todo o coração?

A palavra "CONVERTER" significa mudar, transformar, permutar, etc.
Exemplo:
"Ele converteu-se num homem mau"; "Cristo converteu água em vinho"; "Fulano converteu-se ao marxismo"; etc.

O que me chamou a atenção no SMS da Silvia foram as palavras "convertemos" e "de todo coração" empregadas exatamente nessa ordem. Ao ler essa oração, recordei da passagem onde Paulo diz: "Se (...) em teu coração creres que Deus O ressuscitou dentre os mortos, serás salvo."

O significado da ressurreição de Cristo é que, primeiramente, Ele viveu para nos ensinar a sermos livres da dependência da lei. Sua morte, tanto física quanto espiritual, foi ocasionada pelo julgamento da lei assim como todo homem. Primeiro, por ser julgado culpado de acordo com a lei humana por pregar contra o que era/é ensinado. Segundo, por ser julgado culpado pela lei de Deus por morrer pecador ao levar todos os pecados sobre si. Ao morrer dessa forma, Cristo nos ensinou que até Ele, assim como todo homem, esteve sujeito à lei. Pois, assim como os mortais, Ele também foi morto por ela tanto física quanto espiritualmente. Cristo provou que a lei não poupa nem mesmo a Deus e que qualquer um que morrer devendo algo a ela será cobrado. Porém, ao ressuscitar, Cristo prova que por mais que a lei tenha poder para matá-lo, Ele tem mais poder do que ela ao conseguir ressuscitar. Ele está nos dizendo que, inevitavelmente,  a lei vai nos matar. Quer seja fisicamente (pena de morte), quer seja espiritualmente (inferno). Porém, Ele também nos ensina que assim como Ele teve poder para ressuscitar a si mesmo, Ele tem poder para ressuscitar qualquer um que CRER que Ele pode fazer isso. É nisso que consiste toda a salvação pregada no evangelho de Deus. Quando o carcereiro perguntou a Paulo e Silas o que fazer para ser salvo, eles responderam: "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa". Quem vai te ressuscitar da morte pela lei é Cristo, não são as leis que sua igreja te ensinaram. Pensa comigo: Se o que provoca a morte é a lei, então como é que a lei vai te salvar? A salvação pela lei é impossível por dois motivos: primeiro, é impossível cumprir toda a lei. Segundo, é a lei que vai te matar. Consequentemente, ela não pode te dar vida. Quem pode te dar vida é Aquele que se tornou pequeno o suficiente para ser morto pela lei e que mesmo assim ainda teve/tem poder para se soltar do domínio dela. A mensagem de Cristo ao ressuscitar é como um convite de alguém que esteve num labirinto, achou a saída e agora voltou para resgatar qualquer um que confiar na sua promessa de tirá-lo daquele lugar. Você não sai de um labirinto construindo mais paredes, você só vai conseguir sair quando confiar em quem já saiu de lá.

E aqui voltamos à palavra "converter". O que seria converter-se de todo o coração?

"Se (...) em teu coração creres que Deus O ressuscitou dentre os mortos, serás salvo."

Acredito que a palavra converter, no contexto evangélico, significa mudar o eixo da sua fé. Como? Antes de converter-se, a fé do homem em ser salvo é baseada na obediência à lei. Ou seja, ele acredita que será salvo por fazer isso e aquilo outro. A crença de que ele será salvo está baseado na obediência à lei. Ao converter-se, o eixo de sua fé converte-se/muda/permuta da lei para Cristo. Ou seja, ele reconhece que a lei não é capaz de salva-lo e, dessa forma, ele deposita toda a sua salvação na fé de que Cristo vai ressuscita-lo da morte pela lei assim como fez com Ele mesmo. Ele vai parar de tentar sair do labirinto por si só e vai pegar na mão daquele que teve poder para sair de lá.

Tudo se faz novo quando nos convertemos de todo o coração, não acha?


Acho sim, Silvia! Acho sim.

"Pois sustentamos que o homem é justificado pela fé, independente da obediência à Lei"
(Romanos 3:28)




Abraço,
Eliab Alves Pereira
02/05/2012

Lendas dos Judeus #20 (A punição)


ADÃO: A punição
Enquanto Adão permaneceu nu, buscando algum meio de escapar do seu embaraço, Deus não apareceu a ele, pois não devemos “nos esforçar para ver um homem na hora da sua desgraça”. Ele esperou que Adão e Eva se cobrissem com folhas de figueira. Porém mesmo antes que Deus falasse com ele, Adão sabia o que estava para acontecer. Ele ouviu os anjos anunciarerm:
– Deus está dirigindo-se àqueles que habitam o Paraíso.
Ele ouviu mais, aquilo que os anjos estavam dizendo uns aos outros sobre a sua queda, e o que estavam dizendo a Deus. Perplexos, os anjos exclamavam:
– Quê? Ele ainda anda livremente pelo Paraíso? Não morreu ainda?
Pelo que Deus se pronunciou:
– Eu disse a ele “no dia em que comer você certamente morrerá”. Ora, vocês não sabem de que tipo de dia eu estava falando; se de um dos meus dias de mil anos ou de um dos dias de vocês. Darei a ele um dos meus dias: ele terá novecentos e trinta anos para viver, e setenta para deixar aos seus descendentes.
Quando Adão e Eva ouviram Deus se aproximando, esconderam-se entre as árvores – o que não teria sido possível antes da queda. Antes de cometer o seu pecado, a altura de Adão ia da terra ao céu, mas depois foi reduzida a cem côvados. Outra conseqüência do seu pecado foi o medo que Adão sentiu quando ouviu a voz de Deus; antes da queda ela não o inquietava de modo algum. Por isso quando Adão disse “Ouvi a sua voz no jardim e tive medo”, Deus replicou: “Antes você não tinha medo, agora tem?”
Deus conteve as repreensões a princípio. Em pé no portão do Paraíso ele apenas perguntou:
– Adão, onde está você?
DEUS QUERIA DAR A ELE A OPORTUNIDADE DE SE ARREPENDER.
Através disso Deus estava querendo ensinar ao homem uma regra de boas maneiras, a de nunca entrar na casa de outra pessoa sem anunciar-se primeiro. Não há como negar que as palavras “onde está você?” estavam prenhe de signficado; elas destinavam-se a fazer com que Adão percebesse a vasta diferença entre seu estado anterior e o atual: entre seu tamanho sobrenatural anterior e as dimensões reduzidas de agora; entre o senhorio do Senhor de antes e o senhorio da serpente de agora. Ao mesmo tempo, Deus queria dar a ele a oportunidade de se arrepender do seu pecado, para o qual Adão teria recebido o perdão divino. Porém, longe de arrepender-se, Adão difamou a Deus, proferindo blasfêmias contra ele. Quando Deus perguntou: “Você comeu da árvore que eu mandei que não comesse?” Adão não confessou o seu pecado, mas tentou justificar-se com as seguintes palavras:
– Ah, Senhor do mundo! Enquanto eu estava sozinho não caí em pecado, mas logo que me veio essa mulher ela me tentou.
Deus replicou:
– Eu a dei a você para ajudá-lo, e você está se mostrando ingrato ao acusá-la dessa forma, dizendo “foi ela que me deu o fruto da árvore”. Você não a deveria ter obedecido, pois a cabeça é você, não ela.
Deus, que sabe todas as coisas, já havia previsto exatamente isso, e não havia criado Eva até que Adão lhe pedisse uma ajudadora, para que ele tentasse colocar a culpa em Deus por ter criado a mulher.
Adão tentava colocar em outra pessoa a culpa pelo seu delito, e o mesmo fez Eva. A mulher, como seu marido, também não confessou sua transgressão e orou por perdão, o que teria sido concedido a ela. Gracioso como é, Deus não teria proferido condenação sobre Adão e Eva antes deles se mostrarem obstinados. Não foi assim com a serpente. Deus infligiu a maldição sobre a serpente sem ouvir a sua defesa, porque a serpente é perversa, e os iníquos são bons argumentadores. Se Deus a tivesse questionado a serpente teria perguntado:
– O senhor deu-lhes um mandamento e eu o neguei. Por que eles obedeceram a mim e não ao senhor?
Por isso Deus não entrou numa discussão com a serpente, mas decretou diretamente as seguintes dez punições: a boca da serpente foi fechada e ela perdeu a capacidade de falar; suas mãos e pés foram cortados fora; a terra lhe foi dada como alimento; ela é forçada a sofrer dor intensa durante a troca de pele; inimizade passou a existir entre ela e o homem; se ela comer as iguarias mais finas ou beber as bebidas mais doces, essas se transformarão em pó na sua boca; a gravidez da fêmea dura sete anos; as pessoas tentarão matá-la logo que a virem; mesmo no mundo futuro, quando todos os seres serão benditos, ela não escapará a punição decretada para ela; e desaparecerá da Terra Santa se Israel seguir nos caminhos do Senhor.
Além disso, Deus disse à serpente:
– Criei você para reinar sobre todos os animais, tanto os animais domésticos quanto as feras do campo, mas isso não lhe satisfez. Você será por essa razão mais maldita do que qualquer animal doméstico ou fera do campo. Criei você para ter uma postura ereta, mas isso não lhe satisfez. Você deverá por essa razão andar sobre sua barriga. Criei você para comer a mesma comida que o homem, mas isso não lhe satisfez. Você deverá por essa razão comer poeira todos os dias da sua vida. Você procurou causar a morte de Adão a fim tomar dele a sua esposa. Eu por isso estabeleço inimizade entre você e a mulher.
Quão verdadeiro é que aquele que cobiça o que não lhe é devido não apenas não obtém o que deseja, mas perde também aquilo que tem!
Os anjos estavam presentes quando a condenação foi proferida contra a serpente (pois Deus havia convocado o Sinédrio dos setenta e um anjos ao sentar-se para julgá-la), portanto a execução do decreto contra ele foi confiada aos anjos. Eles desceram do céu e cortaram as mãos e os pés da serpente. Seu sofrimento foi tamanho que seus berros de agonia foram ouvidos de uma extremidade a outra do mundo.
O veredito contra Eva consistiu também de dez maldições, sendo que o seu efeito é ainda perceptível até hoje na condição física, espiritual e social da mulher. Não foi o próprio Deus que anunciou a Eva a sua sina. A única mulher com quem Deus jamais falou foi Sara. No caso de Eva ele valeu-se dos serviços de um intérprete.
Finalmente, a punição de Adão também foi dividida em dez partes: ele perdeu seu traje celestial – Deus o despiu; com dificuldade ele teria de ganhar o seu pão; a comida que ele comia se transformaria de boa em ruim; seus filhos vagariam pela terra; seu corpo secretaria suor; ele teria uma inclinação para o mal; na morte seu corpo seria presa de vermes; os animais teriam poder sobre ele, no sentido de que poderiam matá-lo; seus dias seriam poucos e cheios de adversidade; e no fim ele teria de prestar contas de toda a sua conduta sobre a terra.
DEUS TERIA PERMITIDO QUE ELES PERMANECESSEM NO PARAÍSO.
Esses três pecadores não foram os únicos a receberem punição. A terra não teve melhor sorte, sendo culpada de vários delitos. Em primeiro lugar, ela não havia obedecido por completo à ordem que Deus dera no terceiro dia, de produzir “árvores frutíferas”. O que Deus desejara era uma árvore cuja madeira fosse agradável ao paladar da mesma forma que o fruto. A terra produziu árvores que davam frutos, mas a árvore em si não era comestível. A terra, além disso, não cumpriu o seu dever em relação ao pecado de Adão. Deus havia designado o sol e a terra para testemunharem contra Adão caso ele transgredisse. O sol, em conformidade com isso, escurecera no instante em que Adão tornara-se culpado de desobediência; porém a terra, não sabendo como apontar a queda de Adão, desconsiderou-a por completo. A terra sofreria também uma punição dividida em dez partes: sendo antes independente, a terra teria agora de esperar para ser regada pela chuva do alto; os grãos que ela produz seriam suscetíveis a ressecamento e mofo; ela teria de produzir toda espécie de vermes odiáveis; a partir daquele momento ela seria dividida em vales e montanhas; teria de fazer crescer árvores infecundas, que não dão fruto; espinhos e abrolhos brotariam dela; muito seria semeado na terra, mas pouco colhido; no futuro a terra terá de revelar o sangue que abriga, não podendo mais encobrir seus mortos; e, finalmente, ela deveria envelhecer como uma roupa.
Quando Adão ouviu as palavras “você produzirá espinhos e abrolhos” dirigidas [por Deus] à terra, seu rosto começou a suar, e ele disse:
– Quê? Será que eu e meu gado comeremos do mesmo coxo?
O Senhor teve misericórdia dele, e disse:
– Por causa do suor do seu rosto, você comerá pão.
A terra não foi a única coisa criada a sofrer com o pecado de Adão. O mesmo destino sobreveio à lua. Quando a serpente seduziu Adão e Eva, expondo a sua nudez, ambos choraram amargamente, e com eles choraram o céu, o sol e as estrelas, e todos os seres criados e coisas diante do trono de Deus. Os próprios anjos e seres celestiais lamentaram a transgressão de Adão. Apenas a lua riu, pelo que Deus se enfureceu e diminuiu a sua luminosidade. Ao invés de brilhar de forma invariável como o sol, ao longo de todo o dia, a lua envelhece rápido, e é obrigada a nascer e renascer vez após outra.
A conduta insensível da lua ofendeu a Deus, não apenas pelo contraste com a compaixão demonstrada por todas as outras criaturas, mas porque ele mesmo enchera-se de pena de Adão e sua esposa. Ele fez para eles roupas da pele tirada da serpente, e teria feito ainda mais; teria permitido que eles permanecessem no Paraíso, se eles apenas tivessem se mostrado arrependidos. Mas Adão e Eva recusaram-se a se arrepender e tiveram de partir, para que seu entendimento semelhante ao divino não os levasse a pilhar a árvore da vida e aprendessem a viver para sempre. De certo modo, ao expulsá-los do Paraíso, Deus não deixou que o atributo divino da justiça prevalecesse por completo. Ele associou misericórdia à justiça, e enquanto partiam ele disse:
– Ah, que pena que Adão não foi capaz de guardar o mandamento dado a ele nem por um pouco de tempo!
Para guardar a entrada do Paraíso, Deus designou os querubins, também chamados de espadas flamejantes eternamente revolventes, porque os anjos podem alternar-se entre um formato e outro de acordo com a necessidade. Ao invés da árvore da vida, Deus deu a Adão a Torá, que é semelhantemente uma árvore da vida para os que se apegam a ela, permitindo que ele habitasse no oriente, nas proximidades do Paraíso.
Tendo a sentença sido pronunciada sobre Adão, Eva e a serpente, o Senhor ordenou que os anjos conduzissem o homem e a mulher para fora do Paraíso. Esses começaram a chorar e suplicar amargamente, e os anjos tiveram pena deles, deixando de cumprir a ordem divina até que pudessem pedir a Deus que mitigasse o seu severo veredito. Porém o Senhor foi irredutível:
– Fui por acaso eu que cometi uma transgressão ou pronunciei falso julgamento?
Também a oração de Adão, que lhe fosse dado de comer o fruto da árvore da vida, foi negada – porém com a promessa de que, se ele levasse uma vida piedosa, ser-lhe-ia dado o fruto no dia da ressurreição, e viveria para sempre.
ELES HAVIAM DESFRUTADO DOS ESPLENDORES DO PARAÍSO POR POUCAS HORAS.
Vendo que Deus estava irremediavelmente decidido, Adão começou a chorar e implorar aos anjos que lhe dessem pelo menos permissão para levar consigo especiarias de doce aroma para fora do Paraíso, para que lá fora ele também pudesse oferecer ofertas a Deus, e suas orações fossem aceitas diante do Senhor. Pelo que os anjos foram até Deus e disseram:
– Rei da eternidade, ordena-nos que demos a Adão temperos de doce aroma do Paraíso.
E Deus ouviu a oração deles. Adão colheu açafrão, nardo, cálamo e canela, e além disso toda sorte de sementes para o seu sustento. Carregando essas coisas, Adão e Eva deixaram o paraíso e vieram à terra. Eles haviam desfrutado dos esplendores do Paraíso por um brevíssimo período, de umas poucas horas. Foi na primeira hora do sexto dia da criação que Deus teve a idéia de criar o homem; na segunda hora ele pediu o conselho dos anjos; na terceira ele juntou terra para o corpo do homem; na quarta, formou Adão; na quinta revestiu-o de pele; na sexta seu corpo sem alma estava completo, de modo que ele podia postar-se de pé; na sétima a alma foi soprada nele; na oitava o homem foi conduzido ao Paraíso; na nona foi dada a ele a ordem divina que proibia-o de comer o fruto da árvore no meio do jardim; na décima ele transgrediu essa ordem; na décima primeira foi julgado, e na décima segunda hora foi expulso do Paraíso para expiação do seu pecado.
Esse dia fatídico foi o primeiro do mês de Tishri, por isso Deus disse a Adão:
– Você será o protótipo dos seus filhos. Da mesma forma que você foi julgado por mim neste dia e absolvido, os filhos de Israel serão julgados por mim neste dia de Ano Novo, e serão absolvidos.
Cada dia da criação produziu três coisas: o primeiro, o céu, a terra e a luz; o segundo, o firmamento, o gehenna e os anjos; o terceiro, árvores, ervas e o Paraíso; o quarto, o sol, a lua e as estrelas; o quinto, peixes, pássaros e o leviatã. Como Deus planejava descansar no sexto dia, o Sábado, trabalhou em dobro na sexta-feira, produzindo seis criaturas: Adão, Eva, gado, répteis, feras do campo e demônios. Os demônios foram criados logo antes do início do Sábado e são, por essa razão, espíritos sem corpo – o Senhor não teve tempo de criar-lhes corpos.
O SENHOR NÃO TEVE TEMPO DE CRIAR CORPOS PARA OS DEMÔNIOS.
No crepúsculo entre o sexto dia e o Sábado dez criações foram produzidas: o arco-íris, mantido invisível até o tempo de Noé; o maná; as fontes de água, das quais Israel tiraria água para saciar sua sede no deserto; a inscrição sobre as duas placas de pedra dadas no Sina; a pena com a qual a inscrição foi escrita; as duas placasem si; a boca da mula de Balaão; o túmulo de Moisés; a caverna na qual habitariam Moisés e Elias, e a vara de caminhada de Arão, com suas flores e amêndoas maduras.
Photo by Simon Pais



Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash(particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Tradução: Paulo Brabo