Silêncio

Silêncio. Quem o busca intencionalmente? Quem o encontra?

No silêncio discernimos melhor as vozes. Somos tomados de coragem para abandonar a tagarelice e os elogios falsos. Somos animados a buscar palavras verdadeiras, e não discursos eloquentes.

Deveria ser o silêncio o passo seguinte ao som; afinal, são irmãos. Um precisa do outro para que a vida seja compreendida.


No silêncio a alma fala mais alto que a carne.

O silêncio faz parte dos planos de Deus. Após o aguardado e temido sétimo selo (Ap 8), veio um profundo e universal silêncio. O silêncio também é revelação.

Nem perguntas, nem respostas. Há momentos em que o melhor é o silêncio. Ele ilumina as perguntas e as respostas.

Que o silêncio me encontre.



Texto de Fatos e Correlatos

Ele preferia os pecadores!

Um tema um tanto relevante o de hoje. Não estou aqui para ser polêmica, só quero apresentar algo que eu acredito ser o ideal e talvez a solução pra tantos conflitos. Vou contar uma situação que passei um tempo atrás e que fez dessa minha opinião o motivo de muitas causas da minha vida.

Num belo sábado à noite, entrou na igreja eu, uma amiga, e 2 caras pra assistir o culto. Mas estes não eram caras “normais”. Um tinha um moicano enorme e duro, correntes, calça rasgada e uma camiseta de uma banda de metal. O outro usava uma capa preta até os pés, lápis preto, e um crucifixo. Ao colocar os pés dentro da igreja roubamos a atenção de pelo menos metade dela, e quem dera fossem olhares de compaixão. Enquanto caminhávamos em direção ao banco, orava em pensamento pra que eles não percebessem os olhares de reprovação que recebiam, mas foi inevitável. Claro, não são burros. Conclusão: Fiz tudo o que pude naquele dia, e minha amiga também, mas eles nunca mais voltaram na igreja.

Criamos em nós barreiras usando como base o próprio cristianismo, ou melhor, a base doutrinária. A igreja nos impõe seus dogmas e doutrinas e os aceitamos sem ao menos saber o porquê daquilo tudo. E é quando surge o preconceito.

“Por que na casa do Senhor, tem que se vestir com decência, respeito e reverencia.” – Cara, isso é verdade, mas porque é verdade eu tenho que vestir uma burca pra ir ao culto? Ou eu uso saia ou terno, ou não estou respeitando a casa de Deus. Muitas igrejas pararam com isso já, não são tão radicais… mas e nesses casos que contei acima? É algo muito mais sério que só a roupa que visto.

LEGALISMO. É essa a palavra. Crentes tão radicais em tantos assuntos, que na hora de por o amor em prática, parece que se esquecem do 2º maior mandamento. E na moral, to cansada disso tudo. Invés de pontes, a igreja tem construído muros, e isolado cada vez mais os crentes do mundo real. E qual é a real? As esquinas e sua sala estão cheias de prostitutas, os becos e o centro da cidade estão cheios de drogados, nos hospitais e nas grandes empresas tem pessoas sem esperança. E a igreja está lá, lá dentro de quatro paredes.

Punks, hippies, rastas, emos, e todos aqueles gêneros do underground, quando vamos alcançar esse povo Igreja? Jesus preferia a companhia de pecadores a fariseus religiosos.

Paulo foi aquele que se fez um para com todos, a fim de alcançar alguns. Eu quero imitar Paulo porque Ele decidiu imitar Jesus. Eles não queriam ficar dentro dos templos, de terno e com uma bíblia de capa preta debaixo do braço que só servia pra pegar cheiro de desodorante.

Jesus parou tudo pra olhar nos olhos de Bartimeu para que assim ele pudesse olhar os seus. Jesus posou na casa de Zaqueu, o cobrador de impostos. Ele conversou com Nicodemos, o fariseu líder dos judeus, na madrugada. Ele largou a multidão a pedido de Jairo, para ressuscitar uma criança. Jesus percebeu a mulher com hemorragia. Ele deu atenção ao pedido do ladrão na cruz. (sacou os verbos?)

As atitudes de Jesus só tem que trazer VERGONHA a esse povo (no qual, me incluo) que se dizem cristãos (pequenos cristos). Eu acho que temos que ler mais a bíblia e ir mais ao cemitério. Pensar um pouco sabe. As pessoas estão morrendo todos os dias aos poucos perto de nós, e mais, pessoas estão morrendo de verdade perto de nós, e nós dentro de nossas confortáveis igrejas, em nossos confortáveis templos, nos confortáveis bancos. Temos que colocar isso que temos acima do pescoço, dentro da caixa craniana pra funcionar.

Não olhe torto a próxima vez que você ver um punk numa igreja e nem pense em julgar o cara mendigo que entra no seu templo limpinho, são todos seres humanos PODRES, PECADORES e NECESSITADOS DE GRAÇA como você e eu!

Até quando o evangelho do medo vai ser recitado nos palanques gospel? Até quando a igreja vai insistir em questões irrelevantes para a sociedade de hoje? E quando vamos entender que julgar o próximo não vai resolver o problema dele? Quando vai cair a ficha de que ter razão sobre o certo e o errado, não vai resolver a fome de quem não tem o que comer, nem o frio do mendigo sem coberta, nem a falta de escola para a criança do morro, nem a carência do homossexual, muito menos os distúrbios do viciado.


Texto de Camila Zaponi

Onde está Deus - Por Bono Vox




Não preciso dizer mais nada!

Não basta idolatrar, temos de premiar nossos ídolos!

O “Troféu Promessas” se intitula como “a maior premiação da música evangélica”... tendo como principal proposta “reconhecer o trabalho daqueles que exaltam fielmente o nome de Deus por meio da música e o fazem com excelência, influenciando gerações”. Eles querem premiar os “destaques” da música gospel do ano de 2010 e 2011, honrando com a estatueta representantes de nove categorias: Melhor Grupo, Melhor Ministério de Louvor, Melhor Cantor, Melhor Cantora, Artista Revelação, Melhor Música, Melhor DVD/BluRay, Melhor CD e Melhor Evento. (Texto do voltemosaoevangelho)
Pensei muito sobre o que escrever aqui. Mas com o tempo que eu tenho como escritor desse blog aprendi que as pessoas não se interessam por textos extensos. Então, para não me estender muito, vou deixar um pequeno versículo como resposta à esse evento e farei um breve comentário.

"Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?" (João 5:44)

Um evento "evangélico" (bem entre aspas) foi promovido pela rede de televisão que todos os "evangélicos" (entre aspas) vivem dizendo que é satânica, que persegue os cristãos, ou sei lá mais o que.
No início eu achei muito massa a jogada estratégica da Globo. Pegar um grupo gigante que compõe a maior parte da massa de indivíduos do nosso país, aproveitar que a maioria deles está revoltada com um de seus líderes por atacar seus dogmas e eventos mesmo fazendo parte do mesmo grupo social, e que esse líder é dono da rede de televisão concorrente da rede Globo. "Vamos fazer um evento onde os evangélicos em peso vão apoiar e levantar nossa bola sem falar da audiência que vamos receber. Aproveitaremos também que os líderes das instituições estão querendo ver o bispo quebrar a cara. Dessa forma eles se tornarão grandes patrocinadores desse evento. Com certeza eles incitaram os fieis a ligar a TV e ficar dando ibope até o último 'plin plin'." Essa é a fala que eu usaria para falar aos patrocinadores da TV se eu fosse o diretor de marketing,  da Globo.

Troféu promessas! A única promessa que vi nisso foi para os patrocinadores do evento.
"Prometo que será um evento que vai dar mó audiência. Pode patrocinar que sua marca vai ser bem vista nos comerciais."
"Prometo que se fizermos esse evento, iremos faturar milhões e ainda faremos as pazes com o público que não vai muito com nossa cara."
"Prometo que o inimigo interior de vocês (o bispo) vai quebrar a cara quando ver a propagação desse evento."

"o troféu chama-se 'Promessas' por que 'Deus cumpre as Suas promessas e cuida para que a Sua Palavra seja cumprida', baseando-se corretamente em Jeremias 1:12." (Texto do voltemosaoevangelho)
Agora diga-me: Quais promessas de Deus foram cumpridas nesse evento? Quais cuidados Deus teve para que sua palavra fosse cumprida nesse evento? O de que seus filhos um dia seriam recompensados e louvados e receberiam prêmios dos homens por reconhecimento de seu trabalho?
"Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?"
O nome "evangélico" e "promessas" foi só uma maquiagem para enganar muito besta que não sabe o que professa. Ou melhor, que professa e defende tudo que for chamado de evangélico ou gospel (paradoxalmente irônico).

Sabe pra quê serviu esse evento? Pra gerar muita grana para os bolsos da TV Globo, e não há nada de errado com isso! Pois é como eu falei no início do post: "eu achei muito massa a jogada estratégica da Globo".
Mas sabe o que me incomodou de verdade? Foi ver "o povo de Deus" exaltando e glorificando seus ídolos. E você pode muito bem dizer: "Você tá viajando, cara! Não precisa de tanto. A galera tá louvando a Deus. As músicas tinham até o nome de Deus, não é? Você não viu no finalzinho todo mundo gritando o nome de Jesus?"

Cara, me poupe! De que adianta um grupo fazer uma festa pra mim, gritar pelo meu nome e dizer que estão ali por mim mas eu não estou naquele meio? Podem falar meu nome a vontade. Isso não vai fazer com que eu apareça por lá. Se o objetivo deles está em antes de me agradar, agradar a si mesmos, eu prefiro não ir.

"Porque o Senhor disse: 'Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim...'" (Isaías 29:13)
"Como você pode usar esse versículo contra esse evento? Você conhece o coração das pessoas, Eliab?"

Não conheço o coração de ninguém. Mas fica fácil entender as intenções de alguém quando seu comportamento entrega tudo.

Analisemos a ideia principal do evento:
O “Troféu Promessas” ... “a maior premiação da música evangélica”... tendo como principal proposta “reconhecer o trabalho daqueles que exaltam fielmente o nome de Deus por meio da música e o fazem com excelência, influenciando gerações”... premiar os “destaques” da música gospel do ano de 2010 e 2011, honrando com a estatueta representantes de nove categorias: Melhor Grupo, Melhor Ministério de Louvor, Melhor Cantor, Melhor Cantora, Artista Revelação, Melhor Música, Melhor DVD/BluRay, Melhor CD e Melhor Evento. (Texto do voltemosaoevangelho)

 Então quer dizer que eu estou indo a um evento que vai HONRAR e GLORIFICAR o nome de Jesus Cristo mas o objetivo do evento é premiar o melhor grupo, melhor ministério de louvor, melhor cantor, artista revelação, melhor música, melhor DVD/BluRay, melhor CD e melhor evento? E esse evento é pra HONRAR e GLORIFICAR o nome de Cristo? Desculpa mas eu tô rindo muito aqui. Sério!

Analise bem as palavras "Honrar" e "Glorificar".

É impressão minha ou a atenção do evento é volta pra tudo, até para o danado do CD, menos pra Deus?
Diga-me uma coisa: Quais lembranças você tem desse evento que te remetem a Deus? Ou será que dizemos: "Cara, nem teve Fruto Sagrado!" "Nada a ver aquele cara ganhar esse prêmio. Quem merecia era o outro carinha que mora logo ali."

Não adianta correr, cara. Esse evento foi feito para honrar e glorificar o nome dos "ídolos gospeis". Esse evento serviu para que alguns nomes fossem promovidos às custas do único nome que deveria ter sido prioridade!
"Ora, se podemos fazer concursos de louvor, por que não fazermos um concurso de oração? Quem orar mais e melhor leva o troféu joelho roxo. Ou melhor, por que não um concurso de pregação? Quem pregar melhor leva o troféu garganta de ouro. Ou, para os pentecostais, um concurso de profecias? O que trouxer a melhor mensagem de Deus leva o troféu ungido de Jeová. Por que esses concursos seriam condenados por qualquer crente e os concursos de louvor são tratados como algo normal?"  (texto de voltemosaoevangelho)
"Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?" 
(João 5:44)


Ah! receber honra que só vem de Deus? Vem com troféu? Se não vier então eu não quero!

Opa! Ia esquecendo: Alguém ai sabe me dizer quando vai ter algum evento onde vão premiar blogs? Se Deus quiser, e se não quiser também, vamos ganhar! \o/


Abraço,
Eliab Alves Pereira

Escuridão em Caucutá

Já faz algum tempo que a figura franzina e enrugada daquela senhora me fascina. Levanta-se à minha frente como um assombroso exemplo de que é realmente possível lançar o corpo em mar aberto sem ter onde apegar-se. De forma absolutamente inconseqüente, aquela mulher ouviu o grito de “xô” do Mestre e arribou-se gaiola afora para desfrutar a apavorante liberdade que a privaria de toda segurança que a sensatez exige. Exemplo terrível.

Ontem, porém, através das páginas de uma famosa revista (para usuários cadastrados), essa doce senhora deu um salto vertiginoso aos mais altos degraus do meu seleto grupo de discípulos de Cristo que merecem respeito. Para escândalo de alguns e meu deleite pessoal, Madre Tereza, lá num canto escuro de Calcutá, duvidou da presença de Deus. Envolta dela, e de todo o sofrimento humano que a cercava, permaneceu somente densa escuridão. A Providência deu lugar à solene Ausência.


“Eu tenho apenas a alegria de não ter nada –
nem a realidade da presença de Deus”.
Madre Tereza de Calcutá, em carta ao seu confessor, padre Joseph Neumer.

Obviamente, do conforto de suas poltronas de madeira nobre e belos ornamentos, na segurança gélida das catedrais úmidas, padres e bispos aconselharam a moça. Pastores e diáconos não teriam feito diferente. As palavras, no entanto, não dissiparam a escuridão. Como é fácil ter fé dentro da gaiola. Sei bem como é. Solto por aí, vendo fome, miséria, dor, sofrimento, morte, medo, violência e injustiça, não há fé que agüente.

– Onde está Deus? – grita o aflito em sua agonia.

Ao invés de respostas corretas e geladas, deveríamos oferecer o calor e aconchego de nosso peito e dizer, sinceramente:

– Não sei. Mas eu estou aqui.



Minha fé não é aquilo em que acredito

A distinção mais útil que encontrei nesta caminhada foi a que estabeleceu Jacques Ellul entre fé e crença. Crença é aquilo que professamos acreditar; é o contéudo doutrinário peculiar à nossa facção religiosa, expresso com palavras muito bem escolhidas em nossas declarações de fé. Não há, por outro lado, conjunto de palavras suficiente para definir adequadamente a fé. Nossas crenças são passíveis de exposição, mas nossa fé é questão pessoal – seu conteúdo é o mistério tremendo, a tensão superficial entre eu e o universo, entre eu e o desconhecido, entre eu e o futuro, entre eu e a morte, entre eu e o outro, entre eu e Deus.

Os religiosos de todas as estirpes vivem em geral muito mais preocupados com as filigranas da crença do que com a vivência da fé – e posso dizê-lo por experiência própria. As divisões que fazemos questão de estabelecer entre a nossa e as demais facções da cristandade, e entre a cristandade e as outras heranças religiosas, estão fundamentados, naturalmente, em diferenças de crença. Às vezes dizemos que diante de Deus o desafio da fé é o mesmo para todos, mas agimos claramente como se nossa identidade de cristãos e de seres humanos fosse adequadamente definida pelo teor de nossas crenças. Sentimo-nos devidamente legitimados, devidamente representados, pela felicidade de pertencermos ao grupo ou denominação que professa (ao contrário, naturalmente, de todas os outros grupos ou denominações) a crença mais pura, destilada e correta. Fingimos que nos dobramos diante de Deus e de seu Cristo, mas nosso cristianismo é ortodoxolatria.

“A fé”, explica Ellul, “isola o indivíduo; a crença, (qualquer que seja, inclusive a cristã) ajunta pessoas. Na crença nos vemos unidos a outros na mesma corrente institucional, todos orientados em direção ao mesmo objeto de crença, compartilhando das mesmas idéias, seguindo os mesmos rituais, arrolados na mesma organização, falando o mesmo dialeto.”

Diante disso, sinto-me cada vez menos inclinado a responder aos que perguntam em que acredito, ou aos que levantam-se em indignação quando ouvem a temerária confissão de alguma crença minha (“O quê? O Brabo acredita na evolução?” “O quê? O Brabo não condena a fé dos católicos?” “O quê? O Brabo crê que igreja bem-sucedida é a que fecha as portas?” “O quê? O Brabo acredita em [inserir crença arbitrária aqui]“). Sinto-me cada vez menos motivado a responder aos que perguntam sobre minha tradição religiosa, a qual denominação pertenço, se faço parte de alguma igreja, se endosso determinado autor ou se fico devidamente escandalizado diante de determinada barbárie doutrinária.

Não devo iludir a mim mesmo ou a quem quer que seja dando a impressão de que resta algo de importância na vida espiritual (ou na vida) que não seja a fé, e – minha gente – minha fé não é aquilo em que acredito. Minha fé não está naquilo em que acredito, e nem poderia estar. Minha fé não é adequadamente expressa por aquilo em que acredito, e nem poderia ser.

Em primeiro lugar, porque minhas crenças mudam, mesclam-se e transformam-se constantemente. Minhas crenças nascem, reproduzem-se e morrem num plano totalmente independente do desafio que está na fé. Em segundo lugar porque, como lembra Ellul, “toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião”. Quem pergunta aquilo em que acredito está tentando estabelecer comigo a mais rasteira das conexões; está querendo legitimar a sua crença a partir da minha, e isso não tem como ser saudável para ninguém.

Quem se abraça dessa forma à crença está buscando, evidentemente, o conforto do terreno conhecido e palmilhado. “A crença é confortadora”, observa Ellul. “A pessoa que vive no mundo da crença sente-se segura”. A fé, por outro lado, é coisa terrível, a que ninguém em são juízo deveria aspirar. A fé deixa-me sozinho com um Deus que pode não estar lá. A fé convida-me a um grau de liberdade que posso não ter o desejo de experimentar. A fé quer tirar-me da zona de conforto da crença e levar-me para regiões de mim mesmo e dos outros aonde não quero ir. A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida. A crença explica sensatamente aquilo em que acredito, a fé exige loucamente que eu prove.

Nossas crenças são âncoras de legitimação, que nos mantém seguros no lugar mas nos impedem de seguir adiante – o que, convenhamos, é muito conveniente. Quem iria em sã consciência escolher abandonar o abraço confirmatório da crença comum e dar um passo em direção à vertigem da fé, ao desafio de tornar-se um indivíduo separado, distinto e singular (numa palavra, santo) diante de Deus? Queremos voltar para o Egito, onde havia cebolas; não suportamos o desafio constante, sempre iminente, sempre exigente, do deserto.

Não tenho como recomendar a crença; sua única façanha é nos reunir em agremiações, cada uma crendo-se mais notável do que a outra e chamando o seu próprio ambiente corporativo de espiritualidade. Não tenho como endossar a crença; não devo dar a entender que a espiritualidade pode ser adequadamente transmitida através de argumentos e explicações. Não devo buscar o conforto da crença; o Mestre tremeu de pavor e não tinha onde reclinar a cabeça. Não devo ouvir quem pede a tabulação da minha crença; minha fé não é aquilo em que acredito.

Nunca deixa de me surpreender que para o cristianismo Deus não enviou para nos salvar um apanhado de recomendações ou uma lista suficiente de crenças, mas uma pessoa. Minha espiritualidade não deve ser vivida ou expressa de forma menos revolucionária. Não pergunte em que acredito. Mande um email, pegue uma condução, venha até minha casa, tome um café na minha mesa e aceite o meu abraço. Não devo esperar ato maior de fé, e não tenho fé maior para oferecer.


Em louvor dos pecadores

Em grande parte, depois de conviver por décadas com gente santa, só fui conhecer Jesus pessoalmente através dos pecadores.

Não fui encontrá-lo na igreja, onde insistíamos que ele morava e onde falávamos metade do tempo sobre ele. Na igreja encontrei meus amigos mais bem-intencionados, muito deles assustadoramente queridos e carentes, mas oprimidos como eu debaixo de um sistema fundamentado em medo e desejo. Por mais que eu simpatizasse com o calor da instituição e com o mérito das boas intenções, nada eu testemunhava ou vivia da satisfação inerente, a generosidade, a paixão e a terrível liberdade que os evangelhos atribuíam ao Filho do Homem. Cantávamos, chorávamos e nos abraçávamos debaixo do mesmo teto piedoso, mas ali não estava o espírito de Jesus.

Não encontrei-o nem me afastei dele na Federal, onde meus mentores evangélicos tinham alertado que eu encontraria amigos irresistivelmente devassos e correria o risco incessante de idéias sediciosas, construídos os dois para abalar minhas convicções. As idéias eram ralinhas e as companhias inofensivas, a grande maioria tão ou mais careta, casta e ultraconservadora quanto eu. Havia algum coleguismo e bons parceiros de truco, mas também não pouca competividade, intolerância e altivez (talvez tanto quanto na igreja), e o espírito de Jesus não estava ali.

Mas Deus teve misericórdia de mim, este santo, e permitiu que eu convivesse de perto com pecadores. Isso, em inúmeros sentidos importantes da palavra, me salvou.

Como eu suspeitava, os pecadores não se entregam como nós na igreja a pecados mesquinhos como a hipocrisia, a mentira e o orgulho; abrem eles mão desses amadorismos e tratam da coisa em si, da sem-vergonhice mais vital, sensorial e carnal – sexo, drogas e rock’n’roll.

Finalmente estava eu no mesmo recinto que pecadores de verdade, gente indecorosa, sensual e auto-indulgente; drogados, homossexuais, bêbados, libertinos, prostitutas, poetas; safados, depravados, corruptos, lascivos. Habituei-me ao doce perfume da maconha, visitei os mais variados mocós, vi carreiras de cocaína se armarem e desaparecerem; sentei-me ouvindo Janis Joplin numa sala que eu visitava pela primeira vez, olhando para um homem dormindo onde acabara de cair, enquanto um casal transava e curtia drogas no quarto ao lado e outros faziam churrasco lá atrás. Comprei camisinhas que não eram para mim. Ajudei a pagar um tolete quando o dinheiro faltou. Visitei bares gays porque estavam na moda e meus amigos sabiam por isso que lá seria mais fácil descolar uma pedra de fumo ou, paradoxalmente, uma garota.

É natural que fora uma cervejinha ou outra me mantive sóbrio e casto durante todo esse período – não que, naturalmente, fizesse diferença. Mantive-me um santo – um carola, amado ternamente por eles apesar disso – entre pecadores. Eu me sabia mais ou menos resistente às seduções da carne e talvez estivesse ainda sustentando a ilusão de que poderia “fazer diferença” no meio daquela pobre gente. Talvez estivesse procurando mais um motivo extravagante para me orgulhar, de ser capaz de manter minha integridade à prova de balas mesmo convivendo com os mais baixos e corrompidos. A esta altura, não sei dizer o que esperava.

Mas sei dizer o que não esperava: não esperava encontrar entre os pecadores, e pela primeira vez na vida, a terna experiência do espírito de Jesus.

Não em mim. Neles.

Posso garantir que até aquele momento eu só conhecia a postura de Jesus e dos primeiros cristãos de ouvir falar. Os evangelhos atribuem ao Filho do Homem tremendas paixão, vitalidade, generosidade e independência; o livro de Atos e as cartas falam de cristãos que “tinham tudo em comum” e “eram de um só coração”. Em seus momentos mais idealistas Jesus fala em amar os inimigos, dar a outra face, emprestar sem esperar receber de volta, oferecer um banquete a quem não tem como retribuir. Paulo descreve um mundo sem preconceito de sexo, raça ou classe social. João garante que Deus é amor, e que o amor abre mão de qualquer traço de temor.

Paradoxalmente, este mundo definido em termos positivos poucos cristãos chegam em qualquer medida a experimentar. Escolhemos nos definir não por essas qualidades afirmativas – aquilo que o Apóstolo chama de “fruto do Espírito” – mas pelo que é negativo e paralisante e opressor contra os outros e nós mesmos: a culpa, a mesquinhez, a repressão, a neurose, a negação, o niilismo. O mundo em que todos se aceitam e se amam, embora faça parte da nossa pregação nominal, nos é aterrorizante por natureza. Tudo na nossa postura batalha contra ele. A “gloriosa liberdade dos filhos de Deus” não nos interessa. Alguém me dê depressa um líder carismático e um rol muito claro de mandamentos – é só o que pedimos.

Entre os pecadores encontrei um universo livre da superficialidade de igreja e da irrelevância burguesa da faculdade. Aqui estava um mundo que escolhia se definir, na prática e não a partir de qualquer discurso ou demagogia, pela aceitação e pelo amor. Aqui estava gente que tinha tudo em comum, até mesmo – onde está, Mamom, a tua vitória? – o dinheiro. Gente que ignorava rótulos de classe, sexo e conta bancária para se tratar como gente no sentido mais fundamental da coisa. Gente que se recusava a ser manipulada pelo desejo e pelo temor, e fazia isso entregando-se a um e mandando às favas o outro.

A comunhão que experimentam, descobri, não tem limites; sua generosidade, que não espera recompensa que não o instante, não tem paralelo. Os pecadores abrem suas portas uns para os outros a qualquer momento do dia ou da noite; repartem sua droga, seu dinheiro, sua casa e seu pão sem qualquer trâmite ou transação, seja com um irmão importuno ou com o desconhecido em que acabam de tropeçar. Emprestam, terrivelmente, sem esperar receber de volta. Carregam quem precisam ser carregado, descolam um trampo para quem precisa, tiram a camisa para quem vomitou na roupa, emprestam a chave do carro para quem não tem onde fumar, providenciam o apartamento de alguém na praia para o que foi expulso de casa, repartem sem chiar ou cobrem o tanque de gasolina. Trabalham tanto para os outros quanto para si, acolhem com graça incondicional; são compassivos até para com os que não os toleram, longânimos com os que todos já decidiram ser melhor rejeitar. Convivem sem traumas com a consciência, apavorante para nós, de que não são melhores do que ninguém.

Entre os pecadores não transita apenas a legitimidade de quem recusa-se a ter o que esconder: rola, senhoras e senhores, um amor – e tão forte que lança fora todo o medo. São gente boa no sentido afirmativo da coisa. Gente sensualista, mas raras vezes desonesta. Auto-indulgente, mas sempre generosa. Pecadora, mas não proselitista. Matam-se, mas o que fazem pelos outros é só resgatar. Morrem, mas abraçados.

Não é difícil entender porque Jesus curtia tanto a companhia dos pecadores e não escondia seu orgulho em associar-se a eles. A integridade existe e a verdadeira comunhão não é uma impossibilidade: os pecadores legítimos não as desconhecem. Louvados sejam nas alturas os grandes pecadores, porque uma porção fundamental de Jesus sobrevive na Terra apenas através deles.

Arrependo-me, naturalmente, de não ter pecado tanto quanto devia com meus amigos pecadores. Eu, que não consigo viver nem de longe tão perto da inteireza de Jesus quanto eles, deveria ter lhes dado pelo menos essa satisfação.



A hora da morte

Quando Adão estava à beira da morte, totalmente despreparado que estava para abandonar o mundo quando havia ainda tanto a ser experimentado, o anjo da morte teve pena dele e disse:

– Quero consolá-lo com um milagre que você não conhece; sua vida se perpetuará através dos seus descendentes.

Quando Jesus estava à beira da morte, totalmente despreparado que estava para abandonar o mundo quando havia ainda tanto a ser feito, o anjo da morte, sabendo que Jesus não tinha filhos, teve pena dele e disse:

– Quero consolá-lo com um milagre que você não conhece: sua vida se perpetuará através dos seus seguidores.

Quando eu estiver à beira da morte, totalmente despreparado que estarei para abandonar o mundo quando haverá ainda tanto a ser dito, o anjo da morte dirá:

– Você não teve filhos e não terá seguidores, mas quero consolá-lo com um milagre que você conhece.

E dir-me-á ao ouvido o que eu sempre soube.


Entre a bíblia e uma playboy, prefiro a playboy!

O mais curioso não é o título mas sim a indignação de quem leu e veio conferir a blasfêmia que não deu pra conter aos olhos, na maioria, pessoas que nunca leram ou sequer estudaram as escrituras mas que estão sempre à disposição para lutar e defender O Livro Sagrado (que mal conhecem).
Usamos a bíblia como acessório dominical e só. Mas estamos sempre levantando a espada sobre a cabeça de quem ousar tirar uma onda.
Tratamos todos os outros livro e revistas com mais prioridades do que a bíblia. Inclusive a playboy e a revista do horóscopo ou sei lá o que. Mas para não passar uma imagem feia, vamos mostrar que amamos a bíblia acima de todas as coisas.

Vamos analisar as escrituras mas antes deixa eu ver o twitter, facebook, ler o JovenSapiens, fazer um lanche, jogar uma bolinha, bater perna, ver a novela, filme, seriado, ouvir a nova música que baixei... Agora sim, vou ler! Ops... Tem alguém ligando. Espera ai que eu volto já. Agora tenho de ajudar minha mãe a arrumar a casa, vou cuidar do meu irmão, passear com o cachorro, sair com a galera (de novo). Uffa! Agora vou dormir. O dia foi cheio. Amanhã eu leio um ou dois capítulos.

No outro dia olhando o Jovensapiens:
"Entre a bíblia e uma playboy, prefiro a playboy!"
-Opaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Agora eu vou quebrar o barraco!

Ops!


Abraço,
Eliab Alves Pereira

O homenzinho e o deus

A cidade foi atacada por um deus enorme e descalço
que ninguém podia vencer.
Tombaram exércitos e quebraram-se espadas,
morreram centenas,
e nada o fazia parar.

Foi quando um homenzinho inofensivo baixou sua lança e disse à multidão
que venceria o deus sem matá-lo; iria derrubá-lo sem ferir.
O deus riu um riso despreocupado de deus e com um golpe tremendo do braço fez o homem voar;
esmagou o homem com os pés e triturou-o entre as coxas,
despedaçou-o com os dentes e banhou-o em sangue e urina;
cuspiu, xingou e provocou.

Quando o homenzinho mal se podia pôr em pé
o gigante deu-lhe para segurar sua própria espada divina
e ofereceu de peito aberto seu divino coração,
mas o homem abaixou a espada e aquietou.

“Covarde”, disse o deus, e atravessou o homem despedaçado
com a lança que o próprio homem tinha deixado para trás.
Ferido de morte, o homenzinho entoou baixinho uma canção blasfema,
“venha o que vier, amar-te-ei pela eternidade”.
O deus inclinou-se para ouvir e o homem sussurrou-lhe ao ouvido, “sou seu filho”, e morreu.