Porque a beleza começa por dentro!

À maior das ofensas, respondo com um sorriso simples. À toda humilhação, com um olhar de perdão. Às críticas, pedradas e chicotadas, respondo com um braço estendido e uma mão que quer ajudar. Lembre-se: não há argumento maior que o amor! Não há golpe mais forte que um abraço! E não há nada que possa ser dito contra um olhar de compaixão! Por isso, sejamos suaves como uma brisa de fim de tarde; Belos como um pôr do sol; Sensíveis como as asas de uma borboleta. E o mundo se mostrará mais belo para nós. Porque a beleza começa por dentro!

Sobre sementes...

Dentro de cada um de nós mora aquilo de melhor que podemos encontrar no ser humano. Sejamos então gentis uns com os outros. Não pelo homem que te feriu hoje, mas pelo homem bondoso que há dentro dele e ainda não veio à superfície. Façamos o bem àquilo que há de melhor de em cada um de nós! Cuidemos do poeta que há dentro do nosso inimigo. Do amante que há dentro de nosso oponente. Não nos deixemos enganar por um comportamento à parte. Afinal, por mais escura que seja a noite, ela não pode comprovar a inexistência de um belo dia logo em seguida. Amemos então aquilo que há de melhor em cada um de nós (e no outro). Olhemos para a semente enxergando a árvore que há nela!

Navegante

Deixa-me olhar teus olhos,
que parecem o imenso mar,
que convida os navegantes para velejá-lo.
Deixa-me olhar teus olhos!

Por eles eu abdico da segurança do cais para desbravar esse teu oceano de mistérios! Deixa-me decifrar você!

Nesta viagem que me conduz para...
Não me importa onde!!!
Só me importa te olhar!

Deixa-me hipnotizar-me pelos teus segredos! Não me reveles nada agora! Deixa-me buscá-los! Deixa-me buscar-te!

Deixa-me navegar em ti
Deixa-me navegar em teus olhos
Grandes pérolas negras que atiçam minha cobiça e tornam-me despido de minhas armaduras

E, despido de tudo que me protege, navego em ti
Sem medo do desconhecido
Porque pelo desconhecido fui atraído

Deixa-me olhar teus olhos!
Deixa-me navegar em ti!

Sobre amar...

Um coração cheio de amor não tem espaço para permitir que a decepção de histórias mal acabadas consumam seu espírito! E, se possível for, aumente o tamanho do seu coração, só pra caber mais um pouco de amor nele! Porque o amor é a única coisa que, quanto mais você dá, mais você tem!

Sobre bondade...

Às vezes a gente faz o bem! E às vezes quem recebe esse bem não o enxerga como tal. É aí que entra a desvalorização do que foi feito com o coração! É aí onde entra o espinho da ingratidão, furando nosso coração até o fim! A gente só precisa lembrar que não devemos ser cruel com todo o mundo só porque uma parte dele foi cruel conosco! Conseguimos ser benevolentes com todos! Com os que nos amam e com os que nos odeiam!

Que lição nos dá a flor! Mesmo quando tem suas pétalas arrancadas, colore o chão que a sustentou e perfuma as mãos que a despiu!

O melhor de nós

Geralmente o melhor de nós é feito nos bastidores, quando as luzes já foram apagadas, quando todos já foram dormir, quando ninguém está vendo! O melhor de nós é feito dentro de um pequeno quarto escuro, acompanhado apenas de nossa solidão. O melhor de nós se manifesta anonimamente! Sendo assim, o melhor que podemos dar de nós mesmos está condenado a sofrer a dor de nunca ser visto! De ser desconhecido, encubado. Está condenado a caminhar sozinho pela escuridão, em ruas solitárias e frias. O melhor que temos de nós mesmos é anônimo, é misterioso para os outros! A maior parte das pessoas nunca saberá das grandes coisas que você fez porque esse privilégio foi selado e guardado para aqueles que realmente conhecem você!

Simplicidade

Enquanto os beija-flores beijarem, enquanto as borboletas borboletearem, enquanto o vento soprar e o rio correr; haverá a fé de que a simplicidade e a leveza são os melhores caminhos para seguir! Que o nosso dia seja suave como o sono de uma criança. Que nossa mente esteja o tempo todo calma como um lago escondido entre montanhas. Que o nosso olhar seja confortável como um vento frio de fim de tarde! Que os nossos olhos estejam prontos para contemplar o belo em cada momento do dia.

O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas
prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.


[Manoel de Barros]

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!


[Manoel de Barros]

Explicação

Mosaicos são obras de arte. São feitos com cacos. Os cacos, em si, não têm beleza alguma. Mas se um artista os ajuntar segundo uma visão de beleza, eles se transformam numa obra de arte.

Músicas são mosaicos de sons. Notas são cacos. Não são nem bonitas e nem feias. Mas se um compositor as organizar numa “frase” elas passam a dizer algo. Transformam-se em temas. Sonatas e sinfonias são feitas com temas entrelaçados.

Também nós somos feitos de cacos. Milan Kundera comparou a vida a uma partitura musical. “O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito ('o caco') para fazer dele um tema que, em seguida, fará parte da partitura de sua vida. Voltará ao tema repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o, transpondo-o, como faz um compositor com os temas da sua sonata”. ('A Insustentável Leveza do Ser', p. 58). Somos um mosaico espiral, à semelhança do bolero de Ravel.

As "Escrituras Sagradas" são um livro cheio de cacos. Nelas se encontram poemas, estórias, mitos, pitadas de sabedoria, relatos de acontecimentos, poemas eróticos, eventos sangrentos. Ao ler as "Escrituras" comportamo-nos como um artista que seleciona cacos para construir um mosaico ou como um compositor a compor sua sonata.

Os cacos das "Escrituras Sagradas" existiram por muito tempo como estórias que eram contadas oralmente, antes de serem transformados em textos para serem lidos. O registro escrito dessa tradição oral trouxe uma vantagem: as estórias continuaram a existir mesmo depois da morte do contador de estórias. E trouxe uma desvantagem: transformados em textos escritos perdeu-se a figura do contador de estórias. Com isso os leitores começaram a ler as “estórias” como se fossem “história”.

“História” refere-se a coisas que aconteceram realmente no passado e nunca mais acontecerão, como um jogo de futebol que acontece só uma vez e nunca mais se repete. Mas a parábola do Bom Samaritano nunca aconteceu. Foi uma “estória” contada por um mestre contador de estórias chamado Jesus.

As estórias são contadas no passado mas elas não têm passado. Só têm presente. Estão sempre vivas. Quando as ouvimos ficamos “possuídos”, rimos, choramos, amamos, odiamos — embora elas nunca tivessem acontecido.

O místico Ângelus Silésius escreveu: “Temos dois olhos. Com um vemos as coisas eternas, que permanecem. Com o outro as coisas efêmeras, que desaparecem.” A “história” é criatura do tempo. As “estórias” são emissárias da eternidade.

Muitos são os mosaicos que podem ser feitos com um monte de cacos. Muitas são as músicas que podem ser feitas com as doze notas da escala cromática. Horror, humor, amor, vida, morte, vingança... Tudo depende do coração do artista. Como disse Jesus, o homem bom tira coisas boas do seu bom tesouro; o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro. Coração feio faz mosaicos e músicas feias. Coração bonito faz mosaicos e músicas bonitas. Os mosaicos e as sonatas são o retrato de quem os fez.

Cada religião é um mosaico, um jeito de ajuntar os cacos. Cada religião é uma sonata: uma rede de temas. Escolhi os cacos de que mais gosto para fazer o meu mosaico, o meu livro de estórias, a minha sonata, o meu altar à beira do abismo.


[Rubem Alves, em "Perguntaram-me se acredito em Deus"]