Profecias











Os profetas viram a vida a caminho do calvário.
"Um dia" - disseram - "abriremos os olhos e veremos o nosso mundo sendo ceifado pela morte."
Alguns profetizaram que um novo mundo seria criado. 
Um novo mundo nos aguarda.
Seria isso verdade?

Ontem, conversando com as estrelas, elas me mostraram o que aconteceria:

Os rios faltarão aos encontros com o mar. 
O sol castigará a terra. 
Os pássaros cantarão canções tristes. 
As flores murcharão e perderão as cores. 
A lua soluçará ao ver o sol se pôr pela última vez.

Vi-me em um mundo tomado pela dor. 
Pelo fim. 
Fechei meus olhos. 
Não quis observar esse quadro. 
Essa obra da morte.

De repente uma brisa suave passou por meu ouvido esquerdo. Uma brisa que eu não acreditava mais existir naquele mundo. A última brisa. O último vento fresco ao fim da tarde. Ele lembrou-me do antigo mundo. Lembrou-me da praia beijando o mar. Lembrou-me das belas canções das aves. Lembrou-me dos casais abraçados declamando poemas.

O vento fresco disse-me baixinho: "abra os olhos!..."

Ao abrir, tu estavas à minha frente, olhando meu rosto, contemplando meu medo. 
Tua face tomou conta de todo meu campo de visão.

Já não enxergava mais a morte do mundo. Ao ver-te, lembrei-me do antigo mundo, dos belos jardins. Lembrei-me das sinfonias dos grandes autores. Lembrei-me das noites de lua cheia, do banho do sol ao fim da tarde. Ao ver-te lembrei da dança das árvores com o vento, lembrei-me das crianças dormindo no colo quente da mãe.

Esqueci que o mundo estava descendo a sepultura. Não vi mais a dor, mas te vi.

Amor!

O último vento que passara pelo mundo deixou-me. 
Seguiu viagem, declamou seu último poema: "abra os olhos!..."

Mas antes de ir, ele confessou-me uma última coisa. 
O último segredo da humanidade. 
O quinto evangelho. 
A estrofe que faltava. 
A última página do livro. 
Suas palavras foram: "Abra os olhos!..." - deixou que as palavras ecoassem... e continuou: - "...os profetas tinham razão! Há um novo mundo à sua espera."

E então abri meus olhos. E vi você! Meu novo mundo. Minha salvação para além da morte. 
E então abri meus olhos e te vi contemplando minha face. Olhei no fundo dos teus olhos e enxerguei tua alma. 
E ela dizia: "Vem comigo! Sou teu novo mundo."

E então acordei! Meus olhos tremiam, minha boca estava seca. A noite estava calada, triste. Alguns pingos anunciavam a chuva que viria.

Fiquei parado. Deitado olhando para o teto. Olhos fixos, distantes... 

Compreendi:

Tu és a última confissão do vento. 
És o último segredo da humanidade. 
Meu quinto evangelho, 
a estrofe que faltava em minha sinfonia. 
És a última página do meu livro!

És o novo mundo que os profetas anunciaram. 
És o meu paraíso após a morte. 
És a minha segunda chance.

Minha vida eterna!


Eliab Alves Pereira


O quarto dos horrores!

Barba Azul era rico. Morava num castelo que tinha cem quartos. O que não estava bem explicado eram seus múltiplos casamentos e suas esposas desaparecidas, caso semelhante ao sultão das Mil e uma noites.

Uma jovem se apaixonou por Barba Azul e se casou com ele. A festa foi linda. A vida, uma felicidade. Chegou, entretanto, um dia quando Barba Azul precisou viajar. Ao se despedir, ele tirou da cintura um molho de cem chaves.

"Eis as chaves do meu castelo", ele disse para a sua adorada esposa. "Você pode entrar em todos os quartos - menos um, o centésimo, o mais distante. Nesse quarto, não entre, pois será terrível se você fizer isso." E partiu.

A esposa se pôs alegremente a visitar todos os quartos, todos maravilhosos, mais que suficientes para a sua felicidade. Mas, visitado o quarto de número 99, ficou ela com a chave proibida na mão.

É natural que se pense: "Se era proibida a entrada, Barba Azul não deveria ter deixado a chave...". Note que essa estória é uma variação sobre o mito da queda: Deus enche o jardim de árvores maravilhosas e diz: "Daquela árvore não comereis, porque no dia em que dela comerdes certamente morrereis". Se a árvore não era pra ser comida, por que a plantou? Quem faz essas perguntas ainda não entrou no mundo de faz de conta, pensa que se trata de "história". Mas as "estórias" acontecem na alma, e na alma não há formas de se guardarem as chaves.

Ela abriu o quarto. E o que ela viu a horrorizou. Corpos mortos. Sangue. O susto foi tão grande que ela deixou a chave cair no chão. A chave ficou suja de sangue. Tentou limpar a mancha. Inutilmente. A mancha resistiu a todos os sabões e lixas.

Volta o marido. Pede as chaves. Vê a chave manchada. Ela deveria se juntar às outras antigas esposas, mortas.

A estória, em sua versão original, deve ter terminado aqui. Mas algum redator posterior escreveu um fim idiota no qual os irmãos da curiosa a salvam. Com o final feliz perde-se a sabedoria da estória. É sempre assim. Os finais felizes sempre fazem parar o pensamento.

O castelo de cem quartos é metáfora do corpo humano. Noventa e nove quartos abertos à visitação do público. Ali, com os visitantes estranhos, tudo são sorrisos e conversa cordial. Mas o ultimo quarto é o quarto que odiamos; ali mora nossa parte monstruosa. Gostaríamos de nunca mais visitá-lo. Gostaríamos de perder a sua chave. Na verdade - isso a estória não teve jeito de contar -, o dono da casa não possui sua chave. Nós não podemos, mesmo querendo, abrir o nosso quarto de horrores. Não queremos ver o que está lá dentro: nós mesmos - o retrato de Dorian Gray -, nossa face deformada, horrenda, monstruosa. Você já teve um ataque de ódio e fúria? Já se viu no espelho assim?

O trágico é que, se nós mesmos não podemos abrir o nosso quarto dos horrores, é a pessoa amada, a mais íntima, que possui a chave. E nem é preciso que ela lhe seja dada. E nem é preciso que seja roubada. A chave aparece, miraculosamente, na sua mão.

Os inimigos podem atacar a casa. A batalha com eles me torna mais bonito. Quanto mais luto, mais feliz fico com minha imagem. O que me torna horrendo é a visão daquela imagem que mora naquele quarto, e que somente a pessoa mais íntima tem o poder de soltar.

A chave não pode ser limpa: a imagem, depois de vista, não pode ser esquecida. No momento em que ela entrou no quarto, ela assassinou o seu amado Barba Azul. Aos seus olhos, ele se transformou em outro - aquele que ele mesmo odiava. 

No momento em que Barba Azul viu a chave manchada, ele compreendeu que ela já vira o seu lado horrendo. Olhando nos olhos dela, espelho, ele se viu da forma como se detestava ver. Dali para frente sempre que olhasse nos olhos dela ele se veria horrendo.

E a odiaria por aquilo. A estória termina com a morte. Não a morte física, seja da esposa, seja do marido. O trágico da estória é a morte do amor: o amor não sobrevive depois que a pessoa amada abre o quarto dos horrores.

Rubem Alves

De olhos fechados

No princípio, as trevas cobriam o mundo. Ninguém conseguia enxergar absolutamente nada. No escuro não dá pra saber a cor do outro, o sexo ou a religião. No escuro não dá pra ver as tatuagens, as imperfeições estéticas ou a marca da roupa. Lá fora era tudo escuro, mas dentro de cada um de nós havia sol. Andávamos todos de mãos dadas pelo mesmo caminho. Mas um dia uma luz foi acesa, e passamos a perceber a cor do outro, o sexo e a religião; suas roupas, estilos e imperfeições. Soltamos as mãos. Tomamos caminhos diferentes. Alguém acendeu as luzes para que víssemos a beleza de estarmos juntos, mas não entendemos o recado. Internamos as trevas. Apagamos nosso sol. Não somos mais iguais. Achávamos melhor quando tudo era igual. Preferimos a escuridão. Odiamos o diferente! Mas quem acendeu as luzes nos deu o poder de fechar os olhos. Na luz vemos que somos diferentes, através das trevas, aprendemos que apesar da diferença, somos todos iguais. E mesmo que não quiséssemos fechar os olhos para lembrar disso, nasceu o dia e a noite para contar essa história.

Eliab Alves Pereira

O barco e o cais

Ó, pobre barco velejante, há dor pior do que ser preso ao cais depois de provar da liberdade do mar? Onde estão teus remos? Pra onde foram seus navegadores? Miseráveis, preferem a segurança do porto! Abandonaram-te. Prenderam-te às margens do teu lar. Monstros! Quem merece tal castigo? Teu corpo ainda pode ser acariciado pela águas mornas. Consegues enxergá-las como um adolescente que olha para sua amada sendo arrancada de seus braços, e quando tenta segurá-la, alguém puxa-lhe pela mão. Prendem-no ao cais. Ela está tão perto, mas alguém não permite que ele a toque. Antes de ser puxado, a última coisa que sentiu foi o delicado toque de seu amor. Assim com tu sentes as carícias suaves do teu amante beijando tua proa. 

Sou navegante. Navego para dentro de mim, onde não há espaço para terra seca. Lembro-me de acenar para todos que ficaram me olhando enquanto me afastava. Eles não quiseram viajar comigo. Temiam o mar. Temiam amar. Preferem o cais. Desejam o que consegue prender os navios. O carrasco dos velejantes! Escolhem a terra pois conseguem dominá-la. No mar, só conseguimos dominar nosso barco. 

Sou navegante sem cais. Sou levado pelo meu barco para onde os ventos decidirem. Não sou dono de onde estou, e a cada onda vencida, encontro mais caminhos para seguir. 

Meu barco está livre. Dentro de mim há muitos mares ansiosos para tocá-lo. Estou numa viagem sem volta. Escolhi velejar, remar, mergulhar. Velejo para longe da terra, não quero segurança. Remo para vencer as ondas, não quero que elas me levem de volta ao porto. Mergulho em busca de ar, aqui dentro respiro melhor. 

Ó, pobre cais, há dor pior do que estar preso à sua segurança enquanto vês o barco velejante beber da liberdade do mar? És como a criança que não pode brincar porque teme a liberdade de estar longe do colo da mãe. Lembro-me de como é tua visão. Já estive onde estais. Já vi os mares convidarem os barcos para dançar. Sei que tua dor é como a dor da gaiola que vê seus pássaros fugirem de si, e não pode fazer nada porque não foi feita para ser livre, mas para aprisionar os que preferem a segurança das grades mesmo com as portas abertas.


Eliab Alves Pereira

Quem somos nós?

Você sabia que existem estrelas um bilhão de vezes maior do que o nosso sol? Sabia que nossa galáxia, a via láctea, é apenas um borrão de luzes entre outros milhões de borrões espalhados pelo universo? Sabia que o nosso universo pode ser apenas um dentre vários outros universos espalhados dentro de um super-universo? 

Há fenômenos tão grandes que deixariam a explosão do nosso sol como um pequeno grão de areia tentando ser percebido dentro do mar. Há ocorrências tão espetaculares a ponto de deixarem qualquer chuva de meteoros parecida com o espirro de um cachorro. Há constelações tão ricas que deixariam a existência de toda a nossa galáxia semelhante a menor faísca produzida pelo atrito entre duas pedras. Já ouvi falar de fatos tão únicos que superam até mesmo a complexidade da existência da vida. 

Tudo isso me faz perguntar: Quem somos nós? 

Partículas de grãos de poeira cósmica juntas num determinado ponto de um vasto espaço de tamanho incalculável. Se nosso planeta explodisse nesse momento, o universo nem sequer perceberia. Toda a sua existência independe de nós. Sua grandeza nem sequer nota que existe algum ser vivo ou pensante. E nem precisa notar. Cada espaço impenetrável do cosmo existe sem a necessidade de conhecer o homem. 

Nossa existência, para o universo, é como a neblina que cai num fim de noite que molha a grama de leve comparada ao vasto oceano. É como uma lanterna de bolso colocada ao lado do sol. Nossa existência, ao lado de toda a existência, é como uma gaiola num mundo onde não há pássaros: desnecessária. 

Somos menores do que o tamanho que demos a nós mesmos. 

Quem somos nós? 

Quem somos nós diante da existência para dizer o que é certo e errado? Quem somo nós para dizer quem deve viver ou morrer? Quem somos nós para definir o Deus correto? Quem somos nós para julgar, mentir, humilhar, escravizar e apedrejar nossos semelhantes? Quem somos nós para guerrear? Quem somos nós para possuir mais do que os outros? Quem somos nós para chamar o universo, o sol, a galáxia, o planeta de nosso? Quem somos nós? 

Somos o nada que pensa ser tudo! 


Eliab Alves Pereira

Eu poderia...

Eu poderia conhecer o mundo inteiro. Eu poderia apreciar as montanhas do Congo, poderia brincar no Cubo D’água em Pequim, tomaria banho na piscina infinita num resort de Cingapura. Eu poderia conhecer as luzes de Nova York, poderia sentir o frio da Antártida e o calor do Saara. Eu poderia conhecer as belezas da Abadia de Westminster, abraçar as árvores da Amazônia, banhar-me no mar morto. Eu poderia apreciar as nuvens de fim de verão sobre o lago Garnet. Eu viajaria até o Cânion Claustral para vislumbrar suas gigantescas samambaias, iria até o Xingu conhecer o cacique Aritana. Eu iria até o vale Rift conhecer os leões e o vulcão Nyiragongo, mergulharia para conhecer os tubarões das Maldivas. Eu poderia ir a Africa conhecer os elefantes e girafas. Poderia desbravar o Yosemite nos EUA. Eu poderia ir ao Egito conhecer as pirâmides e apostar corrida de camelo. Poderia aprender Krav Maga com os israelenses e a meditar com os monges Tibetanos. Eu iria a França conhecer a Torre Eiffel. Treinaria Kung Fu na China, mergulharia nas cavernas das Bahamas, iria ao paraíso dos rinocerontes na Índia. Eu poderia dançar flamingo com as espanholas, tango com as argentinas e samba com as cariocas. Poderia surfar no Hawaii, esquiar no Canadá e comer pizza na Itália. Eu poderia rezar no vaticano, tirar foto em Petra. Eu poderia apostar todas as fichas em Las Vegas, tentaria fazer algum soldado real perder a postura, poderia escalar o Everest. Eu poderia tomar tequila no México. Poderia ajudar uma aldeia africana. Eu poderia dançar na chuva em qualquer lugar do mundo. Eu esperaria pelo trem, ouviria a música que gosto um milhão de vezes seguidas. Eu sentaria na mesa pra jantar com minha família, leria todos os livros da estante, assistiria a todos os filmes do armário. Eu diria menos “faça” e mais “vamos”. Eu escreveria mais poemas e comporia algumas músicas. Eu não ficaria calado quando deveria dizer “Eu te amo.” Eu poderia fazer tudo isso, e mais. Mas estou aqui! 

Abaixo dessa citação encontrei: Aqui jaz Homem arrependido, 01/01/1990 - 01/01/2013. 

Pena que todos os seus “poderia”, “iria” e “faria” não se tornaram “consegui”, “fui”, “fiz”! A vida só acontece uma vez. Não viva como se você fosse ter outra chance. Até as grandes histórias terminam com um mero ponto final. O que as torna grandes é o que acontece antes dele. O mesmo vale para a vida!


Eliab Alves Pereira

A morte de Deus

Ele foi morto. Seu corpo foi destruído. O profeta avisou que ele seria ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades. O calvário foi testemunha do que os homens podem fazer se conseguirem tocar no amor. Ele era puro de coração, manso e humilde. Sua pregação olhava para dentro do homem. Ele se importava com a sujeira de dentro, não com as belas pinturas de fora. Ele negou o poder, abriu mão de sua glória, perdoou na hora da morte.

O Cristo crucificado ensina muita coisa se pararmos para pensar em cada palavra sua e comportamento desde o sinédrio até o calvário. Desde o beijo da traição até o "Está consumado!". Mas os relatos de sua ressurreição também podem nos ensinar algo de extremo valor; Algo que foge das mãos da morte, algo que superar as más interpretações, os mitos, as heresias.

Imaginemos que sua morte e ressurreição sejam metáforas.

Imaginemos que a cruz seja nosso coração, lugar onde desprezamos e assassinamos o amor. Lugar onde guardamos para um Deus morto. Lugar de dor e angústia onde o próprio Deus chorou. Imaginemos nosso coração, corrupto, orgulhoso, narcisista, prepotente, cruel. E se ele fosse a cruz que matou Deus dentro de nós?

A forma de Deus interagir com nosso mundo é através de sua criação. E isso nos inclui. Como um avatar. Como uma cápsula. Deus, para interagir em nosso mundo, precisa de nós assim como um astronauta precisa de sua roupa especial para visitar outros planetas.

Deus veio ao mundo através da pessoa de Cristo para ensinar que cada um de nós pode ser como Cristo foi: expressão de Deus na terra. Cristo foi prova de que a roupa especial do astronauta funciona.

Nosso eu interior foi transformado num calvário por causa de nossa corrupção. O que tínhamos de Deus dentro de nós, foi crucificado por nossa humanidade doentia.

É aí que aprendo com a ressurreição do Cristo.

Nossa missão é ressuscitar o Cristo dentro de nós!

Mesmo depois de matar qualquer vestígio de Deus aqui dentro, aprendi que a vida de Cristo foi para ensinar como ressuscitá-lo em mim.

Tudo que me faz ser uma pessoa má, tudo que me faz olhar apenas pra mim e esquecer o próximo, tudo que eu faço para destruir o mundo em que vivo, tudo isso são chicotadas no corpo de um Deus amarrado dentro do meu ser. O momento em que decido abandoná-lo, esquecer o que ele pode me ensinar, a partir do momento em que escolho a mim em vez do próximo, é nesse momento que Cristo grita: "Pai, perdoa-o, pois ele não sabe o que faz!" E, depois de todo sofrimento, toda dor e angústia, Ele morre. Mas antes de sua morte, Ele brada: "Está consumado!" Foi feito. Sua missão acabou. Combateu o bom combate e guardou a fé. Entregou-se aos necessitados e feridos de almas surradas. Não viveu conforme a sua vontade, mas conforme a necessidade dos seus semelhantes. Consumou-se! 

O que está consumado dentro de nós? Seus ensinos ou sua morte?

Seus ensinos que dizem: "Perdoa, ama, atira se não tiver pecado"; ou sua morte que diz: "Persigam, condenem, discriminem, matem"?


Eliab Alves

Se Deus existe...

Adoro conversar com crianças. Depois que tive a oportunidade de trabalhar numa ONG que desenvolve trabalho com os pequenos, esse prazer foi multiplicado. A conversa inocente, as perguntas difíceis, o jeito peculiar de lidar com os fatos me encanta. Uma vez uma criança estava observando sua mãe reclamar das contas que precisava pagar. A mãe, falando consigo mesma, diz: “Essas contas só me trazem estresse. O que eu vou fazer com tudo isso?” Sua filha, num ato de extrema inteligência e lógica, responde: “Queime tudo!” Em outro caso, a vovó estava se maquiando quando seu neto pergunta: “Vovó, por que você está fazendo isso?” “Pra ficar bonita, querido.” E o netinho responde: “E por que não fica?”
Isso não é lindo? Como disse o Rubem Alves: “as criança ainda não aprenderam a encenar.” Elas não aprenderam o que dizer na hora que têm de dizer. Elas falam o que não devem (não devem?) no momento que ninguém quer ouvir.

Crianças são puras. Delas é o Reino dos Céus, afirmou o Nazareno.

Talvez um mundo governado por elas seja isso mesmo. O Reino dos Céus.

Observe comigo: Hoje, 20% da população do planeta sofre com a fome enquanto alguns países produzem comida para 4 vezes sua própria população. Alguns líderes políticos montam estratégias para utilizar vírus em armas biológicas em caso de uma guerra. Gasta-se trilhões de dólares por ano em material bélico. Estima-se que há gastos mensais em coisas fúteis que ultrapassam a quantia mínima para alimentar uma criança de rua. Recentemente o cachorro da minha prima foi atropelado e o custo para deixá-lo internado no hospital veterinário foi de R$ 400,00. Enquanto há milhares de pessoas deitadas em corredores de hospitais públicos esperando atendimento. Fui comprar uma calça semana passada e tive de sair da loja indignado quando a atendente me passou o preço: R$ 480,00 (em uma calça). Cara, R$ 480,00 é muito mais do que muita gente ganha em um mês com bicos e trabalhos simples. R$ 480,00 é o salário de um trabalhador (explorado). E há quem ganhe muito menos! Há governantes que gastam bilhões de dólares na construção de bankers para se refugiarem caso haja uma guerra biológica ou nuclear. Vejamos: eles desencadeiam uma guerra por causa de motivos políticos que não nos interessam, nós somos atingidos com isso, mas são eles que vão ser abrigados? Ou seja, os caras que tentam acabar com o mundo todo dia, pensam que precisam sobreviver. Pra que? Pra voltar  e acabar com tudo novamente?

Agora pense comigo: Voltemos as crianças. Um mundo governado por elas ofereceria isso? Uma vez uma aluna perguntou o porque de o ex-marido de sua tia ter tentado matá-la com um facão. O que eu podia responder? “Ah, os adultos são assim. Um dia você vai ser adulta e vai entender.” Uma vez minha prima de cinco anos de idade me perguntou porque o cara do filme estava matando o outro. O que eu poderia responder? “Ah, é só um filme. É assim que nós, adultos, nos entretemos, com a violência oferecida nos cinemas!”

O mundo dos adultos criou armas, criou a desigualdade, o mundo dos adultos criou o preconceito, a inveja, o mundo dos adultos ridicularizou as crianças, zomba dos sonhos, mata as perguntas inocentes. O mundo dos adultos não quer responder o porque não devemos queimar as contas. Estamos mais preocupados em descobrir vida em outro planeta, em saber qual a melhor combinação de elementos para criar a bomba “perfeita”, como podemos usar a natureza a nosso favor para destruir uma cidade. O mundo dos adultos diz que não existe Papai Noel, diz que não há pote no fim do arco-íris, o mundo dos adultos diz pra não brincarmos com fulano porque ele é pobre, negro ou tem pais desestruturados. O mundo dos adultos diz pra não falar a verdade, diz que devemos alisar o ego dos outros, diz que devemos ser territorialistas, defensores de nossos ideias sem se importar com o que o outro diz, o mundo dos adultos ensina que a vida não passa de trabalho, ganância, corrupção e traições. O mundo dos adultos fez do sexo, vulgar, do álcool, droga, da verdade, escândalo, dos amigos, oportunistas, do amor, mentira!

Se Deus existe, Ele é uma criança! Não é um velho de barba grande, sentado num trono, segurando um cajado. Deus não é assim! Se Deus é amor, ele é criança, e se Ele é crianças, ele não mandou guerrear por seu nome, ele não mandou dominar as massas, não exigiu impérios construídos com o dinheiro de fiéis, ele não projetou um apocalipse, nem desenhou um inferno. Crianças desenham paraísos. Anjos, não demônios. Amor, não vingança. São os homens quem criam essas coisas. São os homens quem criam um deus que é a sua imagem e semelhança. Deus nos criou a sua imagem e semelhança, é por isso que nascemos crianças! Mas nós achamos que aumentar de tamanho por fora significa diminuir de tamanho por dentro. Quem disse isso? Ouvi falar de um cara que, com 33 anos de idade, se ofereceu no lugar do seu povo pra salvá-los. Ouvi falar de outro, cheio de rugas, que até hoje é sinônimo de paz, me contaram sobre uma mulher, bem velhinha, que fez da sua vida um canal de amor ao povo de Calcutá. Não importa a idade dessas pessoas, elas morreram crianças.

Conheço muita crianças com oitenta anos de idade.

Criança não é uma definição etária. Criança é o que somos quando nossa alma ainda está viva! Depois que matamos nossa alma, viramos adultos. Quando deixamos de pensar no simples com seriedade, deixamos de ser criança.

Eliab Alves Pereira


Oração [por Rubem Alves]

Hoje vou escrever sobre a arte de rezar. Dirão que esse não é tópico que devesse ser tratado por um terapeuta. Rezas e orações são coisas de padres, pastores e gurus religiosos, a serem ensinadas em igrejas, mosteiros e terreiros. Acontece que eu sei que o que as pessoas desejam, ao procurar a terapia, é reaprender a esquecida arte de rezar. Claro que elas não sabem disso. Falam sobre outras coisas, 10 mil coisas. Não sabem que a alma deseja uma só coisa, cujo nome esquecemos. Como disse T.S. Eliot, temos 

Conhecimento do movimento, mas não da tranquilidade; conhecimento das palavras e ignorância da Palavra. Todo o nosso conhecimento nos leva para mais perto da nossa ignorância, e toda a nossa ignorância nos leva para mais perto da morte. 

A terapia é a busca desse nome esquecido. E quando ele é lembrado e é pronunciado com toda a paixão do corpo e da alma, a esse ato se dá o nome de poesia. A esse ato se pode dar também o nome de oração. 

Por detrás da nossa tagarelice (falamos muito e escutamos pouco), está escondido o desejo de orar. Muitas palavras são ditas porque ainda não encontramos a única palavra que importa. Eu gostaria de demonstrar isso – e a demonstração começa com um passeio. Para começar, abra bem os olhos! Veja como este mundo é luminoso e belo! Tão bonito que Nietzsche até mesmo lhe compôs um poema: 

Olhei para este mundo – e era como se uma maçã redonda se oferecesse à minha mão, madura dourada maçã de pele de veludo fresco... Como se mãos delicadas me trouxessem um santuário, santuário aberto para o deleite de olhos tímidos e adorantes: assim este mundo hoje a mim se ofereceu...

Tudo está bem. Tudo está em ordem. Nada impede o deleite dessa dádiva. Ninguém doente. Nenhuma privação econômica terrível. E há mesmo o gostar das pessoas com quem se vive, sem o que a vida teria um gosto amargo. 

Mas isso não é tudo. Além das necessidades vitais básicas, a alma precisa de beleza. E a beleza – o mundo a serve de mancheias. Está em todos os lugares, na lua, na rua, nas constelações, nas estações, no mar, no ar, nos rios, nas cachoeiras, na chuva, no cheiro das ervas, na luz que cintila na água crespa das lagoas, nos jardins, nos rostos, nas vozes, nos gestos. 

Além da beleza, estão os prazeres que moram nos olhos, nos ouvidos, no nariz, na boca, na pele. Como no último dia da criação, temos de concordar com o Criador: olhando para o que tinha sido feito, viu que tudo era muito bom. 

E, no entanto, sem que haja qualquer explicação para esse fato, tendo todas as coisas, a alma continua vazia. Álvaro de Campos colocou esse sentimento num poema: 

Dá-me lírio, lírios, e rosas também. Crisântemos, dálias, violetas e girassóis acima de todas as flores. Mas por mais rosas e lírios que me dês, eu nunca acharei que a vida é bastante. Faltar-me-á sempre qualquer coisa. Minha dor é inútil como uma gaiola numa terra onde não há aves. E minha dor é silenciosa e triste como a parte da praia onde o mar não chega.

Como se uma nuvem cinzenta de tristeza-tédio cobrisse todas as coisas. A vida pesa. Caminha-se com dificuldade. O corpo se arrasta. As pessoas procuram terapia alegando faltar um lírio aqui, uma rosa ali, um crisântemo acolá. Buscam, nessas coisas, a única coisa que importa: a alegria. Acontece que as fontes de alegria não são encontradas no mundo de fora. É inútil que me sejam dadas todas as flores do mundo: as fontes da alegria se encontram no mundo de dentro. 

O mundo de dentro: as pessoas religiosas lhe dão o nome de alma. O que é a alma? Alma são as paisagens que existem dentro do nosso corpo. Nosso corpo é uma fronteira entre as paisagens de fora e as paisagens de dentro. E elas são diferentes. “Temos dois olhos”, disse o místico medieval Ângelus Silésius. “Com um, vemos as coisas que no tempo existem e desaparecem. Com o outro, as coisas divinas, eternas, que para sempre permanecem.” Em algum lugar escondido das paisagens da alma se encontram as fontes da alegria – perdidas. Perdidas as fontes de alegria, as paisagens da alma se apagam, o corpo fica como uma casa vazia. E quando a casa está vazia, vai-se a alegria. E as paisagens de fora ficam feias (a despeito de serem belas). 

O mundo de fora é um mercado onde pássaros engaiolados são vendidos e comprados. As pessoas pensam que, se comprarem o pássaro certo, terão alegria. Mas pássaros engaiolados, por mais belos que sejam, não podem dar alegria. Na alma não há gaiolas. 

A alegria é um pássaro que só vem quando quer. Ela é livre. O máximo que podemos fazer é quebrar todas as gaiolas e cantar uma canção de amor, na esperança de que ela nos ouça. Oração é o nome que se dá a esta canção para invocar a alegria. 

Muitas orações são produtos da insensatez das pessoas. Acham que o universo estaria melhor se Deus ouvisse os seus conselhos. Pedem que Deus lhes dê pássaros engaiolados, muitos pássaros. Nisso protestantes e católicos são iguais. Tagarelam. E nem se dão ao trabalho de ouvir. Não sabem que a oração é só um gemido. “Suspiro da criatura oprimida”: haverá definição mais bonita? São palavras de Marx. Suspiro: gemido sem palavras que espera ouvir a música divina, a música que, se ouvida, nos traria a alegria. 

Gosto de ler orações. Orações e poemas são a mesma coisa: palavras que se pronunciam a partir do silêncio, pedindo que o silêncio nos fale. A se acreditar em Ricardo Reis é no silêncio que existe no intervalo das palavras que se ouve a voz de “um Ser qualquer, alheio a nós”, que nos fala. O nome do Ser? Não importa. Todos os nomes são metáforas para o Grande Mistério inominável que nos envolve. Gosto de ler orações porque elas dizem as palavras que eu gostaria de ter dito, mas não consegui. As orações põem música no meu siliencio. 


Rubem Alves

Coragem

A palavra coragem é muito interessante. Ela vem da raiz latina "cor", que significa "coração". Portanto, ser corajoso significa viver com o coração. E os fracos, somente os fracos, vivem com a cabeça; receosos, eles criam em torno deles uma segurança baseada na lógica. Com medo, fecham todas as janelas e portas – com teologia, conceitos, palavras, teorias – e do lado de dentro dessas portas e janelas, eles se escondem.

O caminho do coração é o caminho da coragem. É viver na insegurança, é viver no amor e confiar, é enfrentar o desconhecido. É deixar o passado para trás e deixar o futuro ser. Coragem é seguir trilhas perigosas. A vida é perigosa. E só os covardes podem evitar o perigo – mas aí já estão mortos. A pessoa que está viva, realmente viva, sempre enfrentará o desconhecido. O perigo está presente, mas ela assumirá o risco. O coração está sempre pronto para enfrentar riscos; o coração é um jogador. A cabeça é um homem de negócios. Ela sempre calcula – ela é astuta. O coração nunca calcula nada.

Osho