Os truques de mágica de Deus

Imaginemos a seguinte situação: Estou escrevendo um romance. Há um personagem que está num trem que chegará às 14h na estação, mas ele precisa que o trem chegue às 15h. Para resolver esse problema, posso escrever nas linhas que dão continuidade ao romance alguma situação que atrase a viagem de forma que ajude no tempo do meu personagem. Eu faço com que a maquinaria do trem dê problema e os operários demorem uma hora para consertar - de forma que o trem precisa ficar estacionado numa pequena cidade próxima a estação de saída. Pronto! Problema resolvido, correto? Bastou que eu soubesse como intervir na causa para ajudar o meu amigo que precisa evitar algo às 14h. 

Mas se olharmos por outro lado, o trem não está transportando apenas o meu personagem. Há outras pessoas viajando, há mercadorias a serem entregues, há um horário a ser cumprido pelo maquinista. Minha intervenção fez com que o empresário que estava na cabine 220 perdesse um negócio importante que foi marcado às 14h15. Minha intervenção atrasou o namorado que estava indo fazer as pazes com sua namorada. Mas ela (ainda magoada) pegou um trem às 14h30 para "ninguém sabe onde". A minha atitude fez com que a entrega de laranjas atrasasse, como consequência, o caminhoneiro que a levaria para o mercado atrasou, posteriormente, a dona de casa que foi fazer compras no supermercado não encontrou laranjas para fazer suco para seus visitantes. Por eu intervir na viagem, a fim de ajudar meu personagem, o maquinista foi cobrado quando chegou na estação; primeiro, pelo atraso; segundo, pelo trem ter dado defeito (uma vez que ele é responsável em monitorar toda essa parte antes de viajar). Na verdade, estava tudo bem quando ele conferiu, mas eu, o escritor, dei um jeito de quebrar alguma peça senão meu personagem não chegaria na hora em que estava planejando.

Não precisamos nos esforçar muito para perceber que, uma vez que um ser superior, com poderes de intervir e mudar os acontecimentos da maneira que bem entender (afim de ajudar alguém) intervém na história que se passa, acaba quebrando uma série de ligações que estão conectadas ao momento que foi adulterado. É como derrubar a última peça de dominó da fila.

Por isso não creio em intervenção divina. Aquele lance de que "não cai uma folha sequer sem que seja permissão de Deus", ou aquela coisa de "Deus sabe o que faz", ou, como diria outras pessoas: "O Senhor permite que coisas aparentemente ruins aconteçam em nossas vidas porque por trás delas existe um propósito, uma lição. Em momentos de aflição nos resta orar e esperar"; cara, conta outra!

Um ser superior, que tem poder de intervir em sua criação, precisa abrir mão dessa sua característica no momento em que ele cria um ser dotado de livre arbítrio. Se Deus quer se relacionar com nós, a primeira coisa que ele fez ao nos criar foi abrir mão de seus super poderes. Assim como um engenheiro abre mão de sua calculadora, papeis e programas de computador para ajudar seu filho a construir um castelo de areia. Ou você acha que ele vai projetar tudo, recusar as ideias que o filho deu e vai fazer tudo como ele faria em outra situação? Nós somos prisioneiros de nossas escolhas, nem Deus pode mudar isso. Se eu decidi matar alguém, Deus não vai intervir na vida daquela pessoa só porque ela é membro da maior igreja da cidade.

Já vi pessoas pedindo pra Deus fazer coisas absurdas só pra que determinado desejo mesquinho fosse realizado. E o pior: pra elas, aquilo não era errado! Era por uma "boa" causa. "Eu queria que Deus mandasse uma doença pra ver se fulano parava de beber cerveja"; "Deus, faz com que ele acabe o namoro pra eu ficar com fulana".

Eu fico imaginando: Que tipo de merda de deus faz isso?

Você pode até estar concordando comigo pelo fato de eu estar usando fatos idiotas para justificar o que estou escrevendo. Mas vamos passar para outro estágio pra ver o que acontece com nossos paradigmas. Uma vez que eu digo que Deus não intervém de forma alguma, estou dizendo que aquela cirurgia que você vai fazer está nas mãos dos médicos, não de Deus. Sua oração pode ser voltada a pedir que Deus te ajude na sua recuperação dando apoio, consolando, te ajudando a ter paciência com seus esforços limitados, etc. Deus não é um deus que intervém; Ele é um Deus que sofre junto, que senta ao lado, abraça, consola, participa. Sua dor é a dor dEle! Como Ele faz isso? Através do próximo. Através daquele amigo que se dedica a você, que comunga do seu sofrimento. Fui a um velório recentemente e, ao falar com um dos parentes do falecido, uma das coisas que eu disse foi: "Deus te console". Pena que talvez a pessoa não me compreenda. Talvez ela pense que Deus, num passe de mágica, vai enviar conforto para ela. Não, não vai! Na verdade, Deus já estava ali dando todo o apoio necessário à família. Todos os amigos, todos os parentes, todos que se dispuseram a tomar parte da dor da família são manifestações de Deus. Uma das formas de Deus se manifestar em nosso mundo é através de nós mesmos. Não por meio de truques de mágica. Essa desculpa de "Deus sabe o que faz" é simplesmente um escape de alguém que não quer ajudar o outro a carregar essa cruz. Até Deus precisou que alguém o ajudasse a carregar sua cruz quando seu sofrimento sugou suas forças. Não queiram mudar isso, por favor! Abrace um amigo que foi preso ao invés de orar pra "deus mudar a mente dele". Ensine princípios e valores a ele ao invés de pedir pra "deus tomar conta do caso". Seja o meio pelo qual Deus anseia se manifestar. De que adianta orar para que Deus console um amigo que sofre se eu mesmo não o consolo? Eu imagino Deus louco pra correr e abraçar alguém que precisa mas o meio pelo qual ele faria isso está trancado num quarto, de joelhos.

Oração é importante, mas não é esse o propósito dela. Mas isso é assunto pra outro artigo. 

O que eu quero dizer é que essa desculpa que usam para dizer que Deus intervém nos acontecimentos do mundo reflete, na verdade, um perfil de pessoas que não querem se dar ao luxo de doar-se aos necessitados. Já que "Deus vai fazer", eu só preciso orar. 

Oremos para que tenhamos forças para ajudar quem precisa, oremos para que consigamos partilhar da dor do outro, oremos para que nosso coração esteja voltado aos que sofrem, oremos para que sejamos manifestação de Deus na terra. 


No momento em que eu afirmo que Deus altera as coisas por aqui em benefício em alguém, eu tenho de afirmar que Ele deve muitas explicações. Se Ele curou fulano, Ele tem de  explicar porque não curou todos os outros que precisavam. Se Ele te deu um carro, Ele precisa explicar porque não deu um pão ao garoto que morreu de fome. Se Ele mudou sua vida só porque você começou a frequentar uma igreja, Ele precisa explicar o motivo de Ele não der jogado esse pó mágico no cara que morreu de overdose. Se Ele te fez passar na prova, Ele precisa se explicar a outros milhares que estudaram mais do que você e não passaram. Se Ele furou o pneu do seu carro, de forma que te atrasou e seu atraso te livrou de um acidente, Ele tem de explicar o porque de Ele não ter livrado o pessoal que se acidentou. Ou será que Ele prefere você? Ou será que os outros mereceram? Será mesmo que Ele faz essa acepção de pessoas?

Vejamos Cristo como exemplo. Ele poderia, com um truque de mágica, curar todas as pessoas da terra em sua época, expulsar todos os demônios, alimentar todos os famintos, ressuscitar todos os entes queridos. Mas Deus não é mágico. Ele queria saber qual era o problema da pessoa, queria saber o nome, de onde vinha, Ele pedia para que deixassem que os necessitados se aproximassem, Ele sentia quando era tocado por eles, Ele tocava seus olhos e suas feridas, Ele chorava quando perdia alguém, Ele alimentava, salvava de tempestades, perdoava suas falhas, defendia de opressores, Ele acolhia na hora da morte, enfim, Ele era a salvação PRESENTE!

Você consegue ver? Cristo é um grito de Deus dizendo: "Olhem para Ele! É isso que eu espero de vocês. Permitam que eu faça algo pelo mundo através de vocês!"

Se todo o mundo permitir isso, todo o mundo receberá os cuidados de Deus. Mas se apenas um em um bilhão deixar-se usar por Ele, apenas quem tem acesso a esse avatar de Deus experimentará Sua Dedicação de Mãe.


Abraço,
Eliab Alves Pereira


O futuro começa com uma brincadeira!


O futuro começa com uma brincadeira! 
O assunto é sério!

É brincando que as crianças aprendem coisas, trabalham habilidades motoras e psíquicas, fazem descobertas e aprendem muitos valores. Por isso, contribua para o desenvolvimento de adultos mais equilibrados, doando brinquedos para quem não tem condições. 

O GruSoc JovenSapiens, uma ONG atuante aqui na cidade de Goianinha (RN), vai promover um dia das crianças especial para crianças carentes. 
Você pode contribuir para o desenvolvimento desse trabalho doando brinquedos a quem precisa. Basta levar um brinquedo a um dos nossos pontos de arrecadação: 


  1. Recanto da Vila Helena
  2. Bom Brigadeiro
  3. Canaã Utilidades
  4. Casa do Sacolão
  5. Sport Aziram
  6. Livraria Nossa Senhora dos Prazeres
  7. Escola Estadual João Tibúrcio
  8. Colégio Nossa Senhora dos Prazeres
  9. Carioca Variedades
  10. A lojinha Tatyane
  11. Helderlane Móveis
  12. Supermercado Canaã
  13. Farmácia Nossa Senhora dos Prazeres
  14. Bomboniere Planeta Doce

Não era o amigo vento!

Para entender o que se passará aqui, você precisa saber que horas são. Clique aqui para ver as horas...

São oito e trinta e dois da manhã. O calor do sol me acordou assim que entrou pela janela, mas as massagens do vento me deixaram na cama até agora. Um barulho me desperta, corta a atenção que eu dava às carícias do amigo invisível. O ruído toma conta do quarto e sai correndo pela casa, ficando menor no fim do corredor. E ele se repete. Ele vem de baixo de minha cama. Ainda deitado, lanço o braço esquerdo à procura do meu companheiro barulhento. Ainda não estou totalmente acordado. Não sei que barulho é esse. Quero pegá-lo antes que ele saia correndo pela casa novamente. Mas ele já foi e voltou umas três vezes. “Agora eu o pego!” Pensei. 

Meu braço está esticado mas não consigo dobrá-lo para que toque o chão. As articulações do meu cotovelo estão contra a beira do colchão. Isso me impede de dobrar o braço. Recolho minha ferramenta de busca. Ainda com preguiça, reviro-me na cama. Agora dou as costas ao teto e fico deitado sobre meu peito. Vou dar a vez para meu outro braço procurar pelo ruído. O lado esquerdo do meu rosto descansa na cama aquecida pelo sol enquanto o vento agora acaricia minhas costas. Minha respiração me levanta de leve a cada vez que meus pulmões enchem. 

O companheiro barulhento parou de gritar. A casa está silenciosa agora. Não há nada correndo pelo corredor. Apenas os cantos do vento em diferentes tons pelas brechas das portas. Agora as articulações do meu braço direito estão se dobrando às beiras do colchão. Meu braço desce o abismo. Minha mão toca o chão frio e sai à procura do meu amigo, agora, silencioso. Acabo batendo em algo. O que é isso? Pontas arredondadas, uma superfície lisa mas em certos lugares há pequenas saliências e divisões. O objeto treme na minha mão e o barulho volta a correr pela casa. Nesse instante lembrei de que havia mudado, na noite anterior, o alerta do celular. Ele deve ter caído ali em baixo quando cai no sono. 

Ele gritou apenas mais uma vez. Seu barulho ecoou pela casa e foi respondido com um silêncio mórbido. Então ele calou-se. Tornou-se pequeno. Recolheu-se como um calouro depois de levar um grito de um sargento durão e experiente. O silêncio do silêncio gritou alto o suficiente para que o barulho se calasse. Trouxe o celular para próximo do meu rosto. O que será que aconteceu? É uma mensagem. Número desconhecido. Quem será? 

Desbloqueei o teclado, cliquei na opção de visualizar mensagem e quatro palavras saltaram na tela: “Você não me ligou!”. Fiquei parado, lendo e relendo aquelas palavras, tentando entender aquela frase. Deve ser engano, pensei. E mais uma vez o celular me avisa que chegou mais um recado. Ao abrir a correspondência, leio: “Não, não é engano.” Quem será? Deve ser Higor ou Jean fazendo alguma brincadeira. Penso. E mais uma vez meu companheiro grita pra mim: “Esqueceu da garota bonita na parada de ônibus?” Meus olhos se arregalam e muitas lembranças correm pela minha cabeça como o vento que corre pela casa. “A garota da parada de ônibus!” Exclamo. Mas, como? “Já que você resolveu apenas escrever, decidi ligar. Mas como, pelo jeito, você prefere as palavras, aqui estamos nós.” Ela respondeu. Ainda não mandei nenhuma mensagem! Como ela pode responder tudo isso? Como ela pode responder meus pensamento? Mais uma mensagem cai na caixa de entrada: “Quando for escrever sobre isso, não escreva a próxima mensagem que te enviarei.” Logo em seguida a próxima carta digital chega. 

Franzo a testa. Olho em volta procurando algum observador. Levanto ainda mais a sobrancelha direita enquanto contraio a boca para o lado esquerdo. Minha expressão agora é de “o que está havendo?”. Não consigo segurar e caio na risada. Coço a testa com a mão esquerda. Sento na cama. Espreguiço o corpo todo. Coloco as mão nos joelhos. Olho para a porta fechada do quarto. Viro-me um pouco e olho os prédios vizinhos por cima do meu ombro direito. Atento para o barulho dos carros passando na rua e o latido de algum cachorro que passeia com seu dono. Há barulho de ferragens sendo cortadas em algum lugar. Dá pra ouvir a canção das panelas que caíram no chão de algum apartamento lá em baixo. Toda a minha atenção na sinfonia do bairro acaba quando volto a dar atenção apenas para a canção do amigo vento que voltou a sussurrar nas fissuras das portas. Dá pra senti-lo correr pela casa. 

Coloco o celular num canto da cama. Assanho o cabelo. Esfrego o rosto com as duas mãos. Deslizo-as para a nuca, entrecruzo os dedos como alguém que senta numa cadeira de balanço olhando para a estrada como se não tivesse nenhuma preocupação com problema algum. Levo meus pés até o chão. Olho para baixo. Recolho as mão para segurar a quina do colchão. Aperto-o até sentir que a ponta dos dedos está tocando a palma da mão com a espuma. Levanto-me e vou até a porta. Com a mão esquerda, toco na fechadura ainda fria. Rodo a chave com a mão direita para destrancar a porta. 

Abro-a a fim de dar bom dia ao amigo vento que corre pela casa desde cedo. Quando aquele pedaço de madeira sai da minha frente e encosta-se na parede, olho sem jeito para o corredor. Fico nervoso. Olho para o chão. Continuo segurando a porta. Volto a ouvir a orquestra desritimada do bairro. Agora consigo ouvir o som do alarme de um carro no outro lado da rua. E um vendedor de picolé caseiro anuncia seu produto em algum lugar aqui perto. Tudo se torna plano de fundo. Como aquela música que toca nos filmes enquanto os personagens se calam, entreolham-se e a câmera começa a focar em detalhes como os olhos, mãos nervosas, mordidas no canto da boca. Depois corta a cena e mostra os dois de longe. Encarando um ao outro. A música canta o momento. 

Meu momento agora era de confusão. Ao olhar para o corredor em frente a porta do meu quarto, em busca do meu amigo vento, dei de cara com outra coisa. Mas não era... Opa! Espera! Me pediram pra não escrever essa parte.

Porvir

O sangue do herói oculto escorria na lâmina do machado. Antes de beijar o pó da terra, próximo aos pés de seu carrasco, ele semeou suas últimas palavras:

"Heróis choram sozinhos!"

E olhei para os sete abismos que se abriram na alma da morte. E com uma voz angustiante ela profetizou:

Sempre haverá um corrupto
Sempre haverá alguém que engessará a coisa
Sempre haverá alguém que não quer ouvir
Sempre haverá alguém que não quer fazer
Sempre haverá alguém que lavará as mãos
Sempre haverá alguém que mandará crucificar

Sempre haverá um acomodado
Sempre haverá alguém que não se importa
Sempre haverá alguém que mentirá
Sempre haverá alguém que agredirá
Sempre haverá alguém que se perderá no labirinto
Sempre haverá alguém que cairá no mar

Sempre haverá um egoísta
Sempre haverá alguém que olhará de cima pra baixo
Sempre haverá alguém que golpeará a face (dos dois lados)
Sempre haverá alguém que ocultará a verdade
Sempre haverá alguém que escolherá o caminho mais fácil
Sempre haverá alguém que cobiçará

Sempre haverá um fanático
Sempre haverá alguém que não olhará nos olhos
Sempre haverá alguém para julgar
Sempre haverá alguém que humilhará
Sempre haverá alguém pronto para atirar pedras
Sempre haverá alguém que destruirá sonhos

Sempre haverá um carrasco
Sempre haverá uma sentença
Sempre haverá um chicote
Sempre haverá uma ferida

Sempre haverá alguém que declarará guerra
Sempre haverá alguém que destruirá jardins
Sempre haverá alguém que aprisionará almas
Sempre haverá alguém que se oporá
Sempre haverá alguém que acenderá as fogueiras
Sempre haverá uma inquisição

Sempre haverá noite
Sempre haverá solidão
Sempre haverá arrependimento
Sempre haverá dúvida
Sempre haverá ilusão

Sempre haverá o perfeito
Sempre haverá a imprudência
Sempre haverá o falso
Sempre haverá a desordem

Sempre haverá obstáculos!

A vereda da vida está repleta de morte. Há grilhões para o corpo. Há pedras vindo o tempo todo. Há rancor dos que desistiram dela. Semeando amor, castigado pelo sol. Suor e lágrimas unem-se em um só caminho na mesma face e logo não se saberá o que é suor, lágrimas ou gotas de chuva. 

Sempre haverá ditadores
Sempre haverá leitos
Sempre haverá fome
Sempre haverá desigualdade
Sempre haverá preconceito
Sempre haverá medo...

A profecia consuma-se quando os lábios do profeta cochicha aos ouvidos do mundo, quando sua voz é carregada pelo vento, quando o que está por vir é transportado nos bicos das aves, quando suas últimas palavras percorrem todo o planeta seguindo a rota do sol. A consumação diz:

"Em meio a vereda da vida, sempre haverá os vales da morte,  e antes do amém, ouvir-se-a os anjos cantarem: 'Mas sempre haverá alguém que suportará, que enxugará as lágrimas e seguirá pelo caminho das pedras'. E, no fim, O Maior dos espíritos dirá: 'Para viver, aprendam primeiro com o profeta! Amém!'"




Abraço,
Eliab Alves Pereira


Próximo Encontro Sapiens

Nosso próximo encontro será um pouco fora do comum. Usaremos novos métodos desde a escolha do tema até a hora de sentar e trocar ideias. A nossa proposta para esse novo encontro é de que haja uma maior interação entre nós de forma que possamos dar mais liberdade para você se sentir mais confortável.

Para nosso próximo tema gostaríamos que você escolhesse, desse sua opinião. Sobre o que você gostaria de falar? Que tipo de assunto te chama a atenção? Que tema você tem uma boa opinião para compartilhar? Quem assunto te traz dúvidas? Essas são propostas para ajudar você na escolha do tema. Não hesite em deixar sua proposta. Se quiser fazer isso de forma anônima, não há problemas, você tem essa opção. Mas não deixe de propor algo do seu interesse. Quer seja de "Como se joga bolinha de gude?" a "Filosofia de Nietzsche". Enfim, você tem total liberdade para deixar a proposta que quiser, ok?

Não deixe de comentar sua proposta. Estaremos aguardando sua opinião.

As lágrimas de Deus

"Jesus chorou"
(João 11:35)

O menor versículo da bíblia, o "Lobo da Estepe" de Herman Hesse e algumas palavras de Vinícius de Morais consumaram uma saga de pensamentos que vinham tomando espaço na minha mente. Nesse artigo quero fazer uma análise de apenas um desses três meios que me fizeram enxergar a liberdade de si mesmo como uma ponte para a salvação do eu. O que quero compartilhar com você é o grande significado que o menor versículo da bíblia me trouxe.

Jesus chorou! Não vamos aqui discutir o motivo de Jesus ter chorado, a ideia é compreender o porque de ele ter chorado PUBLICAMENTE. Por que ele não fez isso de forma isolada? Por que ele deixou que os que estavam próximos vissem esse momento de fraqueza? Foi um momento de fraqueza?

Nós fomos e somos criados num meio onde a atitude de chorar é vista como uma demonstração de vulnerabilidade, onde um garoto é ensinado que chorar não é coisa de homem, é coisa de mulher ou de "caba frouxo". E, ainda nesse mesmo meio, fomos apresentados a uma figura de deus em que ele não sofre, ele não demonstra fraqueza, ele não chora. "Porque ele é o todo poderoso", ou "porque ele não é vulnerável ao sofrimento". Mas bem ali, num cantinho da bíblia, duas palavras nos mostram que Deus sofre, que Deus chora, que Deus cede à tristeza. "Jesus chorou". E não só em um cantinho da bíblia, em outro lugar nós vemos essa afirmação; quando Paulo diz que "Deus é Amor". A partir do momento em que Paulo diz que Deus é amor, as características que são atribuídas ao amor, também são atribuídas a Deus, de forma que, quando Paulo diz que "O amor tudo sofre", Deus sofre. Como bem observou o Ricardo Gondim ao falar sobre esse trecho da bíblia. Enfim, nos foi ensinado que a lágrima é sinônimo de fraco, pequeno, vulnerável.

E aí eu me pergunto: Se isso é verdade, por que Deus não hesitou ao chorar em público? E mais: por que Ele chama de bem aventurados os que choram? Se o choro é sinônimo de fraqueza, Ele deveria controlar-se na frente da multidão. Se a lágrima reflete vulnerabilidade, seus produtores não devem ser chamados de bem aventurados.

Acredito que essa "força" ao engolir um choro, essa resistência em evitar a tristeza e a luta contra as lágrimas que se acumulam no canto do olho apontam para alguém que escolheu esse comportamento para mascarar uma face que foi esquentada pela torrente de lágrimas que banharam seu rosto. A atitude de se mostrar forte diante de determinadas situações revela um comportamento de alguém que foi ferido e abusado, quer seja sexualmente, moralmente ou psicologicamente. Prometer a si mesmo que não mais se importará, que não demonstrará compaixão, sensibilidade, dor; são promessas de alguém que experimentou uma tristeza profunda e toda sua confiança no outro pingou e foi sugado pelo tecido onde as lágrimas caíram. Abrir mão da dor pelo outro é o caminho mais fácil para tornar alguém áspero, seco, impenetrável.

Quando você se isola emocionalmente, você não permite que as pessoas te machuquem, mas também não permite que elas te curem!

Foi o que aconteceu com o Sr. Harley, O Lobo da Estepe, ele simplesmente decidiu se isolar, trancar-se num mundo sombrio, frio, distante, longe da dor; no inferno. O lugar onde a bíblia faz referência como sendo a total solidão, ausência, é o inferno. Ele, ironicamente, nos afasta da dor, mas da dor que o amor pode trazer, mas a falta disso é que nos leva a uma situação mais drástica de sofrimento. Isolar-se da dor traz mais sofrimento porque a dor é uma ferida que só cicatriza com a liberdade, não com a prisão dentro de si. A liberdade de abrir mão do mundo que foi criado para não se magoar, mas que magoa. A liberdade traz consigo o incômodo do amor. Como a sensação ardente de um bom remédio derramado numa ferida. 

Nos isolamos por medo de sermos magoados mais uma vez, nos trancamos no porão de nossa alma para nos asseguramos que não seremos traídos novamente; caluniados, perseguidos, nos cobrimos com o lenço da frieza emocional a fim de nos protegermos dos fantasmas que espremem nosso coração, que gelam nossa alma e arrancam soluços enquanto nossa cura escorre pelos olhos. 

Chorar não é para os fracos. O choro é o grito de um coração valente que decidiu ser sincero consigo mesmo, com o outro. A lágrima é a carta de alforria de um ser que trancou-se dentro de si mesmo para não ser magoado pelos outros, mas, ao fazer isso, magoou a si mesmo. Como diz a música de Los Hermanos: "Quem sempre quer vitória perde a glória de chorar!" Mostrar-se sensível e vulnerável publicamente é mais louvável do que voltar de uma guerra com a cabeça do inimigo nas mãos. Ao fazer isso, nos libertamos de nós mesmos, nos livramos da vergonha, quebramos os grilhões da mágoa, da falta de confiança. Ao permitirmos que a dor, a sensibilidade, a angústia rasguem nosso peito, temos a oportunidade de limpar o que a ferida abriu. Chorar não é vergonhoso. Vergonhoso é secar os olhos enquanto o coração se despedaça. Vergonhoso é enganar a si mesmo a fim de mascarar-se com o objetivo de me defender do outro. 

Ao chorar publicamente Cristo nos dá uma valiosa lição. Ele nos ensina que até o maior dos Seres deve ceder à dor quando ela bater a porta. Ele nos ensina que um homem livre é livre de si mesmo, é livre para permitir que suas emoções fluam, escorram, dancem. Ele diz: "Bem aventurados os que choram, porque serão consolados". Quando você se isola emocionalmente, você não permite que as pessoas te machuquem, mas também não permite que elas te curem! Ao me isolar eu não dou ao outro a oportunidade de me colocar no colo, enxugar minhas lágrimas, abraçar e dizer que aquilo vai passar. Ao me isolar eu passo a imagem de que não sofro, de que sou intocável, frio, "forte", e quem tem esse rótulo não precisa de ajuda. Ninguém tem pena do leão que atacou a zebra, mas todos se entristecem com a derrota dela. Ninguém tenta ajudar o leão a pegá-la, mas, se tivermos a oportunidade, vamos salvá-la dele. 

Encerro esse artigo citando Vinicius de Morais falando sobre a maior solidão:



A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.

Por fim, ao trancar-se em si mesmo, tendo a tristeza como companhia, a mágoa como sombra e o remorso como alimento, não produzimos amor pelo próximo. Porque tudo que aprendemos foi criar pedras para atirar nos outros, para mantê-los distantes, distantes o suficientes para não verem nossas falhas, nossa fraqueza ante a dor. O que nos falta aprender, e aprendemos aqui, é que a dor não é fraqueza quando a vencemos com a sinceridade de nossa entrega aos sentimentos que surgem, quando a subjugamos ao confessar ao outro o que nos aflige, o que nos põe medo. O que vence a dor é a liberdade de sorrir, abraçar, dizer "eu te amo", correr na chuva, brincar feito criança quando nossa alma foi violentada por um mundo perverso, mas ao pagar o mal com o bem convertemos o que eram ruim em coisa boa, pois não há escuridão densa o suficiente para vencer a menor faísca de luz que se acende.



Abraço,
Eliab Alves Pereira



Da solidão

Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à idéia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu "O corvo": o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a pungente litania do "nunca mais". 

Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o ser amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade - que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? - cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão. 

Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n'alma na solidão dos últimos dias do pintor Toulouse-Lautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n'alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono? 

Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza... Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão? 

Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.


Vinícius de Morais


A empregada, o assassino e o deus esquizofrênico

Já se vão alguns anos em que, por força das circunstâncias, precisei de abrigo no Rio de Janeiro. Dois amigos, filhos de pastor, me ofereceram sua casa e lá fiquei por quase um mês, desfrutando da amizade e companheirismo que até hoje me trazem boas recordações, algumas delas bem engraçadas. Uma dessas histórias diz respeito à empregada da família, que já nem me recordo o nome, mas nunca esqueci do fato:

Certa época, na residência da família, alguns objetos começaram a sumir, e eram sempre objetos de valor para todos na casa. Buscas daqui e de lá… e nada! Quando, repentinamente, a empregada encontrava o objeto estimado e todos ficavam felizes, além, é claro de enaltecer as virtudes da moça tão atenciosa. Mas lá pela quinta vez em que isso acontecera em menos de um mês, começaram a desconfiar da “sorte” da dita empregada e ao “encostarem-na na parede”, logo surgiu a confissão: era ela mesma quem escondia os objetos e depois que todos cansavam de procurar, os “encontrava”. Fazia isso para ser elogiada e querida pelos seus patrões (o que era totalmente desnecessário, já que trabalhava, com todas as regalias, há mais de 5 anos com aquela família).

Muda a cena.

Quem já não leu, ou ouviu falar, de casos em que o assassino comparece ao enterro da vítima, e ainda oferece consolo aos familiares enlutados? Um dos casos mais famosos foi o do ator(?) Guilherme de Pádua, assassino confesso da atriz(?) Daniela Perez, caso que chocou a opinião pública brasileira e ocupou horas da programação televisiva e páginas e mais páginas das publicações midiáticas à época. Realmente é algo chocante para a maioria das pessoas tal atitude, o que mostra, além de frieza, um grau de maldade e desfaçatez latentes na pessoa que age desta maneira.

Pois ao meu ver, as atitudes acima, da empregada e do assassino, em nada diferem da figura do “deus” que determina todas as coisas, que faz com que seus filhos sofram para depois aparecer com o “objeto querido”, que é capaz de assassinar pessoas, segundo o seu “decreto” e depois, “cara-de-paumente” oferecer o Consolador para aliviar corações enlutados.

Um deus que age desta forma, na mais tranquila das hipóteses, é um esquizofrênico, para não o chamarmos de psicopata (não é assim que vociferamos todos contra os assassinos que agem assim?). Um deus que é capaz de realizar o mal para demonstrar logo em seguida sua bondade carece de acompanhamento psiquiátrico. Um deus que é capaz de fazer alguém cair em desgraça só para ensinar lições aos seus filhos queridos não merece o respeito. Um deus que é capaz de matar o marido de uma mulher e a mulher de um outro marido, só para os que “sobraram” se encontrarem e serem “felizes”, é um demônio!

Um deus que faz com que um casal tenha um filho com alguma doença séria só para “trazer de volta” o casal que estava “afastado da comunhão” não merece nem sequer uma nota musical, quanto mais um cântico de louvor. Um deus que mata uma criança num acidente trágico, só para ensinar aos pais as consequências de uma vida longe da igreja, pode ser chamado de diabo.

Um deus que precisa de atos de crueldade para demonstrar o seu “grande amor” e a sua “imensa graça” nunca, jamais, terá dos meus lábios a confissão de que “Vive e Reina para Sempre”.

Ando de braços dados com um Deus que se revela todo em amor e graça. Descubro-O nos lugares e nas pessoas mais inesperadas (até mesmo ateus e “não-cristãos). Contemplo sua beleza nos versos dos poetas e menestréis que habitam o meu silenciar. Devoro sua carta de amor, que muitos querem como manual, como criança que consegue juntar palavras pela primeira vez.

Estou num Caminho sem volta…



José Barbosa Junior

Por que deixei de crer em Deus (Liesel Hoffmann)

Não sou brasileira, mas sou quase. Meus pais Alfons e Helga saíram de Hamburgo em abril de 1990, quando meu irmão Wolfgang e eu éramos crianças de 10 e 3 anos, respectivamente, e se instalaram em Salvador, Bahia. Desde Hamburgo meus pais eram luteranos, e mantiveram a religião na Bahia, apesar da forte presença católica e das religiões afro-brasilienses. Cresci ouvindo falar em Deus como um controlador do universo, a quem os seres humanos devem obediência e medo. Sempre ouvia falar na igreja que Deus é quem permite ou proíbe que as coisas aconteçam em nossa vida. Me lembro de uma vez num sermão o reverendo comparar Deus a um controlador de voo, responsável por manter os aviões no ar. Nesse dia me lembro de ter falado ao meu pai: mas os aviões caem…

Crescemos e fomos para o bairro da Moóca, em São Paulo, sempre com a visão de Deus como o controlador do Universo. Eu, por ter ido para o Brasil bem nova não tive muitos problemas com o idioma, ao contrário de meu irmão que, assim como meus pais, não entendiam o uso dos artigos e pronomes com substantivos masculinos e femininos, o que os levava a falar coisas com “meu casa”, “meu mãe”, “minha pai”, “a namorado de meu irmã”, “meu cunhada” e coisas assim, o que sempre era motivo de piada entre os amigos brasileiros.

Em 2004, meu irmão resolveu fazer faculdade. Aos 24 anos achou que poderia seguir carreira em São Paulo mesmo, já que meus pais não pensavam em voltar para a Alemanha e ele também não tinha o menor interesse em voltar. Se sentia muito bem no Brasil. Nós no sentíamos bem. Iniciou, em fevereiro, o curso de Publicidade e Propaganda no Presbiteriano Mackenzie, uma das melhores faculdades de São Paulo. Havia acabado de adquirir um carro. Tinha uma belíssima namorada brasileira, que era modelo na época. Ele estava muito feliz com a vida. Falava que era um “quase brasileira”, e fazia os amigos rirem com isso. Meu irmão e eu nos dávamos muito bem. Ele era meu melhor amigo e eu era a melhor amiga dele, a ponto de confidenciarmos um com o outro coisas que nem nossos pais sabiam. Ele me ensinou a dirigir e eu o ensinava a falar português. Nós nos amávamos muito. Eu o tinha como um herói, e ele me via como uma boneca de porcelana, com ele mesmo dizia.

No dia 27 de maio de 2004, ao sair da faculdade, meu irmão foi abordado por três homens que o mandaram entregar o carro. Sem esboçar qualquer reação meu irmão lhes entregou a chave e se afastou. Ao entrar no carro, um dos homens acertou meu irmão com um tiro que foi fatal: na mesma hora ele caiu morto em frente a faculdade. Naquele dia eu perdia uma das pessoas mais importantes da minha vida: Wolfgang Rudolph Jung Hoffmann, o Wolf, meu irmão a quem eu tanto amava, que morreu aos 24 anos. A família entrou em crise: meus pais se desesperaram, meus tios pensaram em fazer justiça com as próprias mãos. Mais ainda: minha crença em Deus se esvaziou por completo. Eu, uma adolescente de 17 anos totalmente descrente de Deus. Me lembro de ter dito: que Deus controlador é esse que permite um rapaz tão cheio de vida como meu irmão morrer de uma forma tão injusta? Ninguém me respondia. Na catedral luterana o reverendo dizia apenas: “deus quis assim”. Quis assim como? Ele fica feliz com a desgraça da família dos outros? Onde fica o tal amor que a Bíblia tanto fala?

Para encurtar a história, nos mudamos para o interior de SP em 2004 mesmo e em 2005 voltei para São Paulo, para morar sozinha e iniciar minha vida com meus próprios braços. Em dezembro de 2009 minha família resolveu voltar para Hamburgo, Alemanha. O Brasil, essa terra abençoada de gente alegre, era doloroso demais para minha mãe, que lamenta por ter passado uma tragédia tão grande num país tão bonito. E eu que não tinha nada a perder voltei também, mas agora para Berlin, onde vivo hoje.

Desde que meu irmão se foi perdi totalmente a fé em Deus. Fiquei depressiva. Precise de acompanhamento psiquiátrico. Tive crises emocionais. Tinha momentos terríveis em que precisava ser socorrida por estar em uma crise nervosa. Me lembro de um dia, já em Berlin, durante uma crise emocional onde eu gritava de desespero eu dizer: dá pra sair da minha vida, Deus? Você já me trouxe prejuízos demais. E assim vivi. Não queria correr o risco de crer num Deus que eu pensava proteger os que amo e ter de conviver com novas tragédias.

Agora, depois de viver e estar totalmente estabilizada aqui, começo a ver Deus de uma outra forma. Li o livro de um teólogo chamado Jurgen Moltmann e venho lendo algumas coisas sobre Deus escritas por alguns líderes religiosos brasileiros. Um deles é o reverendo Ricardo Gondim, da Igreja Betesda em São Paulo. Estou descobrindo uma outra forma de ver Deus: ele não tem nada a ver com os acontecimentos humanos. Deus não controla nada, mas ama os seres humanos e lhes apoia nos momentos difíceis. Há alguns dias atrás, depois de ouvir um dos sermões do rev. Gondim pela internet cheguei à conclusão: Deus não teve nada a ver com a morte do Wolf, pois ele não permitiu nada, mas foi ele quem me ajudou a aguentar viva quando eu tentei tirar minha vida 15 dias após a morte dele. Comecei a chorar na hora. Pedi perdão a Deus por te-lo culpado pelas desgraças da minha vida. Espero que ele me perdoe por isso!

Ainda tenho várias dúvidas sobre Deus. E até hoje não me recuperei do trauma da morte do Wolf, mas aos poucos as coisas estão se encaixando. Mas independente de uma coisa e outra agora estou me sentindo melhor comigo mesma. Hoje faz exatamente 8 anos que meu irmão se foi, e é o primeiro ano que passo o dia inteiro sem qualquer crise depressiva. Ainda relembro a cena que vi quando cheguei em frente à faculdade, mas lido melhor com isso. Entendo que todos estamos sujeitos à tragédia.

Espero que esse texto seja mais um passo rumo à cicatrização dessa ferida tão dolorosa.



Liesel Hoffmann publica seus textos no seu blog:

Elogio à preguiça

A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. Não poderia viajar pelo mundo inteiro.

Conta-se que em fins do século passado, num remoto país do Oriente, a viagem da capital à fronteira levava nada menos que trinta dias, e ainda por cima a lombo de camelo. E sucedeu que um engenheiro britânico ali residente, em nome do progresso, resolveu remediar a coisa.

– Enfim – concluiu ele, após uma audiência com o respectivo xá, ou coisa que o valha – , construindo-se a estrada de ferro de que o país tanto necessita, a viagem até a fronteira poderá ser feita em um só dia!

– Mas – objetou o velho monarca que o ouvira com uma paciência verdadeiramente oriental – o que é que a gente vai fazer dos vinte e nove dias que sobram?!

… E mais confortador das longas viagens de trem são esses burricos pensativos que vemos à beira da estrada e nos poupam assim o trabalho de pensar…

Certa vez abalancei-me a um trabalho intitulado “Preguiça”. Constava do título e de duas belas colunas em branco, com a minha assinatura no fim. Infelizmente não foi aceito pelo supercilioso coordenador da página literária.

Já viram desconfiança igual?

Censurar uma página em branco é o cúmulo da censura.

Em suma: o que prejudica a minha preguiça prejudica o meu trabalho.

Compensação:

Suave preguiça que, do mal querer
E de tolices mil, ao abrigo nos pões…
Por tua causa, quantas más ações
Deixei de cometer!


Mario Quintana