Putz! Bono é F*#@


No livro “Bono: In Conversation With Michka Assayas”, Bono (vocalista do U2) fala sobre sua interessante espiritualidade e princípios do cristianismo. Há vários livros que falam sobre o U2 e o irônico vocalista Bono Vox (a maior estrela do rock), porém até agora Bono não havia contado sua história. neste livro, o roqueiro compartilha seus pensamentos com um jornalista francês e seu amigo, que está junto da banda desde o começo dela. Em uma série de perguntas e respostas, Bono discute vários assuntos, como a morte de sua mãe, quando era criança, e de seu pai, que morreu há alguns anos, o começo da banda, seus companheiros de banda, seu casamento, sua paixão por ações sociais, o efeito que sua vida tem por ser uma celebridade, sua fé e como isso permeia tudo.
A conversa entre Bono e Assayas aconteceu devido ao ataque terrorista em Madri, onde foram colocadas bombas em um trem no ano de 2004, deixando 1800 pessoas feridas e 191 mortas. Os dois estavam discutindo como o terrorismo é carregado pela religião quando Bono começou a falar do cristianismo, expressando sua preferência pela graça de Deus sobre o “carma”, mostrando sua visão apologética da morte de Cristo e sua clara mensagem sobre a palavra de Deus.
Bono: A minha compreensão das escrituras foi feita simplesmente pela pessoa de Cristo. Cristo ensina que Deus é amor. O que isso significa? Significa para mim um estudo sobre a vida de Cristo. Amor aqui é descrito como uma criança nascida num lar pobre, vulnerável e sem honra. Eu não deixo minha religião muito complicada. Bem, eu penso que eu conheço quem é Deus. Deus é amor e quanto mais eu falo deste amor, mais eu permito ser transformado pelo amor e agir por esse amor, que é minha religião. As coisas se tornam complicadas quando eu tento viver esse amor. Não é fácil.
Assayas: E o Deus do Antigo Testamento? Ele não era tão “paz e amor”?
Bono: Nada afeta a minha visão de Cristo. O evangelho mostra uma figura de exigência, às vezes até dividindo o amor, mas mesmo assim, continua sendo amor. Eu acredito no Antigo Testamento como um filme de ação: sangue, carros se batendo, efeitos especiais, o mar se abrindo, assassinatos, adultérios, a criatura de Deus com desejo de matar, rebelde. Mas a maneira que eu vejo uma relação de Deus é como um amigo. Quando você é criança você precisa de instruções e regras. Mas com Cristo, nós temos acesso a um relacionamento mais íntimo, enquanto no Antigo Testamento, a relação de adoração era mais vertical. No Novo Testamento, por outro lado, nós olhamos para um Jesus familiar, horizontal. A combinação é o que faz Ele na cruz (o credo da cruz).
Assayas: Falando sobre filmes de ação, nós falávamos sobre a América Central e do Sul, em nossa última conversa. Os jesuítas falavam sobre a palavra de Deus com uma mão trazendo a Palavra e a outra uma arma.
Bono: Eu sei, eu sei. A religião pode ser inimiga de Deus. Isso acontece quando Deus, assim como Elvis, sai da jogada (risos). As instruções foram ditas e dogmas são seguidos em uma congregação liderada por um homem, em que ele e os outros são guiados pelo Espírito Santo. O problema é quando a disciplina substitui o discipulado. Por que você está me atirando isso?
Assayas: Eu estava imaginando se você disse tudo isso ao Papa no dia em que você o encontrou.
Bono: Não sejamos tão duros com a igreja romana aqui. A igreja católica tem seus problemas, mas quanto mais velho eu fico mais estímulo eu encontro aqui (para lutar pelo que é certo). A experiência de estar em uma multidão de pessoas humildes, oprimidas, de pessoas que oram murmurando…
Assayas: … Então aí você não seria tão crítico.
Bono: Eu posso criticar (a igreja católica). Mas quando eu vejo irmãos e irmãs ajudando no trabalho de AIDS na África, padres e freiras ficando doentes e pobres por estarem dando de si pelas vidas na África, eu sou menos agressivo.
Assayas: Eu acho que estou começando a entender religião porque eu estou agindo e pensando como um pai. O que você acha disso?
Bono: Eu acho que é normal. É a mente se transformando com conceitos de que Deus, que criou o universo, pode estar querendo companhia, um relacionamento de verdade. Mas o que me deixa ajoelhado é a diferença de graça e carma.
Assayas: Eu nunca ouvi você falar disso
Bono: Eu acredito que nós somos movidos pelo carma, mas um nos move pela Graça.
Assayas: Eu não entendi
Bono: A idéia de todas religiões é o carma. Sabe, o que você fala volta pra você, olho por olho, dente por dente, ou na física, toda ação causa uma reação. É muito claro para mim que o carma é o coração do universo. Eu tenho certeza absoluta disso. Mas aí surge uma idéia chamada Graça, em que mesmo com o “tudo o que você planta, colherá” desafia a razão e a lógica. O amor “interrompe” as conseqüências de suas ações (com o perdão), que no meu caso é algo muito bom, pois eu faço muitas besteiras.
Assayas: Eu ficaria interessado em ouvir isso
Bono: Isso é entre eu e Deus. Mas eu teria grandes problemas com carma se ele definisse meu julgamento (seria condenado). Estou me mantendo pela Graça. Creio estar livre, pois Jesus levou todos os meus pecados na cruz, porque eu sei quem eu sou e espero não depender da minha religiosidade.
Assayas: “O filho de Deus que tira o pecado do mundo”. Eu queria acreditar nisso.
Bono: Mas eu amo a idéia do sacrifício de Cristo. Eu amo a idéia de Deus dizer: “Olhem seus cretinos, terão conseqüências o que vocês estão fazendo, vocês são muito egoístas e são pecadores por natureza e, vamos encarar, você não está vivendo uma vida muito boa, está?” E existem conseqüências para os atos. A idéia da morte de Cristo é que Cristo levou os pecados desse mundo, então ele (o pecado) não pode mais habitar em nós, e a nossa natureza pecaminosa não nos levará para a morte. Esta é a idéia. Isso deveria nos fazer mais humildes… não é por sermos bons que vamos para o paraíso.
Assayas: É uma grande idéia, e não estou negando. Esperança é algo maravilhoso, até mesmo quando parece ser alucinação, em minha percepção. Cristo tem seu status ao redor do mundo nos maiores críticos e pensadores. Mas o “Filho de Deus”, isso não é um pouco forçado?
Bono: Não, isso não é forçado para mim. Olhe bem, a história de Cristo como não sendo ligada a religião sempre é vista assim: Ele era um grande profeta, um rapaz muito interessante, tinha muito o que dizer de importante até para outros profetas. Mas na verdade Cristo não permite dizer isso. Cristo diz: “Não, eu não estou dizendo que eu sou um professor, não me chamem de professor. Eu não estou dizendo que sou um profeta. Eu digo: “Eu sou o Messias”. Eu digo: “Eu sou Deus encarnado”. E as pessoas dizem: “Não, não, por favor, seja somente um profeta. Um profeta nós conseguiremos aceitar”.
E Bono diz mais tarde, como considerar Jesus:
Bono:… Se nós pudéssemos ser um pouco mais como Ele, o mundo seria transformado. Quando eu olho para a Cruz de Cristo, o que vejo é que lá estão todos os meus pecados e os pecados de todas as pessoas do mundo. Então eu pergunto a mim mesmo uma pergunta que muitos fazem: Quem é esse homem?
Via DotGospel

Lendas dos Judeus #06 (O quarto dia)


A CRIAÇÃO: O quarto dia
O quarto dia da criação produziu o sol, a lua e as estrelas. Essas esferas celestes não foram na verdade formadas neste dia; foram criadas no primeiro dia, e meramente colocadas nos seus lugares no céu no quarto dia.
No princípio o sol e a lua desfrutavam de poderes e privilégios iguais. A lua falou com Deus e disse:
– Ó, Senhor, por que criaste o mundo com a letra Bet*?
Deus respondeu:
– Para que ficasse conhecido das minhas criaturas que existem dois1 mundos.
A lua:
– Ó, Senhor, qual dos mundos é maior, este mundo ou mundo que está por vir?
Deus:
– O mundo que está por vir é maior.
A lua:
– Ó, Senhor, tu criaste dois mundos, um maior e um menor; criaste o céu e a terra, sendo que o céu supera a terra; criaste o fogo e a água, sendo a água mais forte do que o fogo, porque pode apagá-lo. Agora criaste o sol é a lua, e é apropriado que um seja maior do que o outro.
Então disse Deus à lua:
- Sei bem que sua intenção é que eu lhe faça maior do que o sol. Como punição decreto que você fique com apenas um sexto da sua luz.
A lua suplicou:
– Devo ser punida tão severamente por ter dito uma única palavra?
Deus cedeu:
– No mundo futuro a sua luz lhe será restaurada, de modo que sua luz será novamente como a luz do sol.
A lua não estava ainda satisfeita.
– Ó, Senhor – ela disse, – e a luz do sol, quão grande será naquele dia?
A ira do Senhor acendeu-se então mais uma vez.
– Quê? Você está conspirando contra o sol? Tão certo quanto você vive, no mundo que está por vir a luz dele será sete vezes mais forte do que a luz que ele hoje irradia.
O sol percorre o seu curso como um noivo, sentado sobre um trono com uma guirlanda ao redor da cabeça. Noventa e seis anjos acompanham-no em sua jornada diária, em turnos de oito a cada hora: dois à sua esquerda, dois à sua direita, dois à frente e dois atrás. Forte como é, o sol poderia completar o seu curso do sul ao norte num único instante, mas trezentos e sessenta e cinco anjos restringem-no através de inúmeros ganchos de ferro. Cada dia um dos anjos solta o seu gancho, de modo que o sol é obrigado a gastar trezentos e sessenta e cinco dias no seu curso. O progresso do sol em seu circuito é uma canção ininterrupta de louvor a Deus. E é apenas essa canção que torna o seu movimento possível. Por essa razão, quando quis ordenar que o sol se detivesse no seu curso Josué ordenou que ele se calasse. Tendo calado sua canção de louvor, o sol ficou imóvel.
O sol tem duas faces: uma, de fogo, voltada para a terra, e outra de granizo, voltada para o céu, cuja função é aplacar o prodigioso calor que irradia da oura face – de outro modo a terra pegaria fogo. No inverno o sol volta sua face de fogo para cima, e dessa forma o frio é produzido. Quando se põe no oeste ao entardecer o sol mergulha no oceano e toma um banho, sendo seu fogo extinguido, e por essa razão ele não dispensa fogo nem calor durante a noite. Porém logo que alcança o leste na manhã seguinte ele mergulha numa corrente de fogo, que acende-o e concede-lhe calor, os quais o sol derrama sobre a terra. Da mesma forma a lua e as estelas tomam banho numa corrente de granizo antes de assumirem os seus postos à noite.

Quando o sol e a lua estão prontos para dar início ao seu ciclo de tarefas eles aparecem diante de Deus e imploram que ele os dispense de cumprir a sua obrigação, a fim de serem poupados de contemplar a humanidade pecaminosa. É somente mediante constrangimento que eles procedem com seu curso diário. Retornando da presença de Deus sol e lua encontram-se cegados pela radiância do céu, e não conseguem encontrar o caminho. Deus, por essa razão, lança flechas, por cuja luz cintilante eles são guiados. É devido à pecaminosidade do homem, a qual o sol é forçado a contemplar em seus cursos diários, que ele enfraquece à medida que se aproxima a hora do seu declínio, pois os pecados têm um efeito corruptor e delibitante, e ele se põe no horizonte como uma esfera de sangue, porque o sangue é o sinal de corrupção.
De manhã, ao lançar-se no seu curso, as asas do sol tocam as folhas das árvores do paraíso, e sua vibração é transmitida aos anjos e aos santos Hayyot, às outras plantas e também às árvores e plantas da terra, bem como a todos os seres da terra e do céu. É sinal para que eles voltem seus olhos para o céu. Logo que contemplam o Nome Inefável, que está gravado no sol, eles erguem suas vozes em canções de louvor a Deus. No mesmo momento é ouvida uma voz celestial que diz: “Ai dos filhos dos homens, que não atentam em honrar a Deus como essas criaturas que erguem agora suas vozes em adoração”. Essas palavras, naturalmente, não são ouvidas pelos homens, da mesma forma que eles não escutam o rangido do sol contra a roda na qual estão presos todos os corpos celestes, embora o som seja extraordinariamente alto. Essa fricção entre o sol e a roda produz as partículas cintilantes que dançam nos raios de sol. Essas são portadoras de cura aos doentes, as únicas criações doadores de saúde do quarto dia, no todo um dia desafortunado, especialmente para as crianças, sendo nele afligidas por doenças.
Quando Deus puniu a ciumenta lua, diminuindo sua luz e esplendor de modo que ela deixasse de se equiparar ao sol como havia sido originalmente, a lua caiu, e minúsculos fragmentos soltaram-se do seu corpo. Esses são as estrelas.

* A letra Bet, segunda letra do alfabeto hebraico, corresponde ao algarismo dois.

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash(particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Tradução: Paulo Brabo

Lendas dos Judeus #05 (O terceiro dia)


A CRIAÇÃO: O terceiro dia
Até esta altura a terra era plana e totalmente coberta de água. Mal haviam se ouvido as palavras de Deus: “Ajuntem-se as águas”, e surgiram as montanhas e colinas, e a água acumulou-se em bacias profundas. Mas a água era rebelde e recusava-se a ocupar os lugares mais baixos, e ameaçou inundar a terra, até que Deus forçou-a de volta ao mar e circundou o mar de areia. Agora, sempre que a água sente-se tentada a transgredir ela contempla a areia e recolhe-se. As águas estavam apenas imitando seu chefe Rahabe, o Anjo do Mar, que rebelou-se contra a criação do mundo. Deus havia ordenado a Rahabe que assumisse também a água. Ele recusou-se, dizendo: “Já tenho o que basta”. A punição pela sua desobediência foi a morte. Seu cadáver jaz nas profundezas do oceano, e a água dispersa o mau cheiro que emana dele.
AGORA, SEMPRE QUE A ÁGUA SENTE-SE TENTADA A TRANSGREDIR ELA CONTEMPLA A AREIA E RECOLHE-SE.
A principal criação do terceiro dia foi o reino das plantas, tanto as plantas terrestres quanto as do Paraíso. Primeiro foram feitos os cedros do Líbano e as outras grandes árvores. Em seu orgulho por terem sido colocadas em primeiro lugar, elas projetaram-se alto ar acima, considerando-se as mais privilegiadas das plantas. Então Deus disse:
– Eu abomino a arrogância e o orgulho, porque apenas eu sou exaltado, e ninguém mais.
Ele então criou no mesmo dia o ferro, substância pela qual as árvores caíam. As árvores começaram a chorar, e quando Deus perguntou a razão das suas lágrimas elas disseram:
– Choramos porque criaste o ferro a fim de nos derrubar com ele. O tempo todo nos havíamos crido as mais elevadas da terra, e agora o ferro, nosso destruidor, foi chamado à existência.
Deus respondeu:
– Vocês mesmas proverão um cabo ao machado. Sem a sua assistência o ferro não será capaz de fazer coisa alguma contra vocês.
A ordem de gerar semente segundo a sua espécie foi dada apenas às árvores. Mas as diversas espécies de erva rasteira pensaram consigo mesmas que se Deus não tivesse desejado divisões segundo as espécies não teria instruído as árvores a darem fruto segundo a sua espécie, cuja semente estivesse nele – especialmente já que as árvores estavam inclinadas por sua própria iniciativa a se dividirem em espécies. Por essa razão as ervas rasteiras também se reproduziram segundo as suas espécies. Isso ocasionou uma exclamação do Príncipe do Mundo: “Dure para sempre a glória do Senhor; regozije-se o Senhor nas suas obras”.
A obra mais importante realizada no terceiro dia foi a criação do Paraíso. Dois portões de carbúnculo formam a entrada do Paraíso, e seis miríades de anjos ministrantes o guardam. Cada um desses anjos brilha com o esplendor do céu. Quando o justo aparece diante dos portões, as roupas com que foi enterrado são tiradas dele, e os anjos o vestem com sete vestimentas de nuvens de glória, colocam sobre sua cabeça duas coroas, uma de pedras preciosas e pérolas, a outra de ouro de Parvaim, depositam oito murtas na sua mão, e proferem louvores diante dele e dizem: “Siga seu caminho, e coma o seu pão com alegria”. Em seguida eles o conduzem a um lugar repleto de rios, cercado por oitocentas espécies de rosas e murtas. Cada [justo] tem um dossel segundo seus méritos, e sob ele fluem quatro rios, um de leite, o outro de bálsamo, o terceiro de vinho e o quarto de mel. Cada dossel é coberto de uma vinha de ouro, e dela pendem trinta pérolas, cada uma brilhante como Vênus. Sob cada dossel há uma mesa de pedras preciosas e pérolas, e sessenta anjos postam-se junto de cada homem justo, dizendo a ele: “Vá e coma com alegria o mel, porque você ocupou-se com a Torá, que é mais doce do que o mel, e beba o vinho reservado na uva desde os seis dias da criação, pois você se ocupou da Torá, que é comparável ao vinho”.
DEUS ASSENTA-SE NO MEIO DELES E EXPÕE-LHES A TORÁ.
O menos belo dos justos é bonito como José e o Rabi Johanan, como os grãos de uma romã de prata sobre a qual descem os raios do sol. Não há luz, pois “a luz dos justos brilha intensamente”. Eles experimentam quatro transformações por dia, passando por quatro estágios. No primeiro o justo é transformado em criança. Ele entra na divisão das crianças, e desfruta das alegrias da infância. Ele é então transformado num jovem, e entra na divisão dos jovens, com os quais ele desfruta dos deleites da juventude. Ele em seguida transforma-se em adulto, no auge do vigor, e adentra a divisão dos homens, e experimenta os prazeres da idade adulta. Finalmente ele é transformado em velho. Ele entra na divisão dos velhos, e desfruta dos prazeres da velhice.
Há oitenta miríades de árvores em cada canto do Paraíso, sendo a mais inferior delas mais excelente do que todas as árvores de especiaria. Em cada canto há sessenta miríades de anjos cantando com vozes melodiosas, e a árvore da vida ergue-se no meio e dá sombra a todo o Paraíso. Ela tem quinze mil sabores, cada um distinto do outro, e os perfumes variam da mesma forma. Sobre ela pendem sete nuvens de glória, e ventos sopram sobre ela dos quatro lados, de modo que seu aroma é bafejado de uma ponta do mundo à outra. Sob ela assentam-se os eruditos e explicam a Torá. Sobre cada um deles estendem-se dois dosséis, um de estrelas, o outro de sol e lua, e uma cortina de nuvens de glória separa um dossel do outro.
Além do Paraíso começa o Éden, contendo trezentos e dez mundos e sete compartimentos para sete diferentes classes de piedosos. No primeiro estão os “mártires vítimas do governo” como Rabi Akiba e seus companheiros; no segundo estão os que foram afogados; no terceiro Rabi Johanan ben Zakkai e seus discípulos; no quarto aqueles que foram arrebatados na nuvem de glória; no quinto os penitentes, que ocupam um lugar que mesmo um homem perfeitamente piedoso não pode obter; no sexto estão os jovens que não experimentaram o pecado em suas vidas; no sétimo estão os pobres que estudaram a Bíblia e a Mishnah, e conduziram uma vida de decência auto-respeitosa. E Deus assenta-se no meio deles e expõe-lhes a Torá.
Quanto às sete divisões do Paraíso, cada uma tem doze miríades de milhas de largura e doze miríades de milhas de extensão. Na primeira divisão habitam os prosélitos que abraçaram o judaísmo por sua próprio arbítrio, não por pressão. As paredes são de vidro e os lambris de cedro. O profeta Obadias, ele mesmo um prosélito, é o supervisor dessa primeira divisão. A segunda divisão é construída de prata, e seus lambris são de cedro. Aqui vivem os que se arrependeram, e Manassés, o filho penitente de Ezequias, preside sobre eles. A terceira divisão é construída de ouro e prata. Aqui habitam Abraão, Isaque e Jacó, todos os israelitas que saíram do Egito e toda a geração que viveu no deserto. Também Davi está ali, junto com todos os seus filhos exceto Absalão, sendo que um deles, Quileabe, ainda vivo. E todos os reis de Judá estão ali, com exceção de Manassés, filho de Ezequias, que preside sobre a segunda divisão, a dos penitentes. Moisés e Arão presidem sobre a terceira divisão. Aqui há preciosos vasos de ouro e prata e jóias e dosséis e camas e tronos e lâmpadas, de ouro, de pedras preciosas e de pérolas, o melhor de tudo que há no céu. A quarta divisão é construída de belíssimos rubis, e seus lambris são de madeira de oliva. Aqui habitam os perfeitos e constantes na fé, e os lambris são de oliveira porque suas vidas foram para eles amargas como azeitonas.
ELIAS TOMA A CABEÇA DO MESSIAS, COLOCA-A NO COLO E DIZ: “AQUIETE-SE, PORQUE O FIM ESTÁ PRÓXIMO”.
A quinta divisão é construída de prata, ouro e ouro refinado, e do ouro mais puro e bdélio, e no meio dela passa o rio Gion. Seus lambris são de prata e ouro, e exala dele um perfume mais requintado do que o perfume do Líbano. As colchas das camas de prata e de ouro são feitas de púrpura e azul, tecidas por Eva, e de escarlata e pelo de bode, tecido por anjos. Aqui habita o Messias num palanquim feito de cedro do Líbano, “senso seus pilares de prata, o fundo de ouro, o assento de púrpura”. Com ele está Elias. Ele toma a cabeça do Messias, coloca-a no colo e diz: “Aquiete-se, porque o fim está próximo”. Em todas as segundas-feiras e quintas e sábados e dias santos os patriarcas vem até ele, bem como os doze filhos de Jacó, e Moisés, Arão, Davi e Salomão, e todos os reis de Israel e de Judá, e choram com ele e confortam-no, e dizem a ele: “Aquiete-se e coloque sua confiança no Criador, pois o fim está próximo”. Também Corá e seu grupo, e Datã e Abiram e Absalão vêm até ele toda quarta-feira e perguntam: “Quanto falta até que o fim venha cheio de maravilhas? Quando nos trarás novamente à vida, e dos abismos da terra nos alçarás?” O Messias lhes responde: “Vão até seus pais e perguntem a eles”. Quando ouvem isso eles ficam com vergonha e não vão perguntar aos seus pais.
Na sexta divisão habitam os que morreram realizando algum ato piedoso, e na sétima divisão os que morreram de uma enfermidade infligida como expiação pelos pecados de Israel.


Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash(particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Tradução: Paulo Brabo

Lendas dos Judeus #04 (O segundo dia)


A CRIAÇÃO: O segundo dia
No segundo dia Deus criou quatro coisas: o firmamento, o inferno, o fogo e os anjos. O firmamento não é o mesmo que o céu do primeiro dia. Trata-se do cristal que se estende sobre as cabeças dos Hayyot, do qual o céu deriva a sua luz, da mesma forma que a terra deriva do sol a sua luz. Esse firmamento protege a terra de ser inundada pelas águas do céu; ele forma a divisão entre as águas de cima e as águas de baixo. Foi cristalizado na forma sólida pelo fogo celeste, que ultrapassou os seus limites e condensou a superfície do firmamento. Desta forma o fogo fez a divisão entre o celestial e o terrestre por ocasião da criação, da mesma forma que fez por ocasião da revelação no Sinai. O firmamento não tem mais de três dedos de espessura, e apesar disso faz separação entre dois corpos tão pesados quanto as águas inferiores, que são as fundações do mundo inferior, e as águas superiores, que são as fundações dos sete céus, do Trono Divino e da residência dos anjos.
A separação das águas entre águas superiores e inferiores foi o único ato dessa natureza realizado por Deus em conexão com a obra da criação. Todos os outros foram atos unificadores. Este causou, portanto, algumas dificuldades. Quando Deus ordenou: “Que as águas se ajuntem num só lugar, de modo que apareça a terra seca”, certas porções recusaram-se a obedecer, e abraçaram-se umas às outras ainda mais firmemente. Em sua indignação contra as águas, Deus determinou que toda a criação se dissolvesse novamente no caos. Ele chamou o Anjo da Face e ordenou que destruisse o mundo. O anjo arregalou os olhos e fogos abrasadores e espessas nuvens projetaram-se deles, enquanto ele gritava:
– Aquele que divide em duas metades o Mar Vermelho! – e as águas revoltosas não se moveram.
Todas as coisas estavam ainda sob perigo de destruição. Então aquele que canta os louvores de Deus começou:
TENDE PIEDADE DO TEU MUNDO, NÃO O DESTRUAS; POIS SE O DESTRUIRDES, QUEM CUMPRIRÁ A TUA VONTADE?
– Ó Senhor do mundo, nos dias que virão tuas criaturas cantarão sem interrupção louvores a ti; bendizer-te-ão irrestritamente, e glorificar-te-ão sem medida. Tu tomarás Abraão à parte de toda a humanidade para ser teu; um de seus filhos tu chamarás de “meu primogênito; e seus descendentes tomarão sobre si o jugo do teu reino. Em santidade e pureza tu lhes conferirás a Torá, com as seguinte palavras: “Eu sou o Senhor seu Deus”; a que eles responderão: “Tudo que Deus tem falado faremos”. E agora suplico-te, tende piedade do teu mundo, não o destruas; pois se o destruirdes, quem cumprirá a tua vontade?
Deus assim apazigou-se. Retirou a ordem que determinava a destruição do mundo, mas as águas ele colocou sob as montanhas, para permanecerem ali para sempre.
A objeção das águas inferiores contra a divisão e a separação não foi o único motivo para a sua rebelião. As águas haviam sido as primeiras a dar louvor ao Senhor, e quando foi decretada a sua separação em superiores e inferiores, as águas superiores regozijaram-se, dizendo:
– Bem-aventuradas somos nós, que temos o privilégio de habitar junto ao nosso Criador e junto ao seu Trono Santo.
Assim celebrando elas lançaram-se para o alto, e proferiram canção de louvor ao Criador do mundo. Tristeza recaiu sobre as águas inferiores. Elas lamentaram:
– Ai de nós, que não fomos achadas dignas de habitar na presença de Deus, e de louvá-lo juntamente com nossas companheiras.
Elas tentaram portanto alçar-se para o céu, até que Deus as repeliu, pressionando-as contra a terra. Apesar disso elas não deixaram de receber recompensa pela sua lealdade: quando desejam dar louvores a Deus, as águas superiores precisam pedir antes permissão às águas inferiores.
O segundo dia foi um dia desfavorável não apenas no sentido de que introduziu uma separação no que antes havia sido apenas unidade: foi também o dia que contemplou a criação do inferno. Deus não pôde portanto dizer desse dia como disse dos outros, “e viu que era bom”. Uma divisão pode ser necessária, mas não pode ser chamada de boa, e o inferno certamente não merece o atributo de bom.
O inferno tem sete divisões, uma abaixo da outra. Essas são chamadas Sheol, Abaddon, Beer Shahat, Tit ha-Yawne, Sha’are Mawet, Sha’are Zalmawet e Gehenna. São necessários trezentos anos para se percorrer a altura, a largura ou a profundidade de cada divisão, e seriam necessários seis mil e trezentos anos para se atravessar uma extensão de terra correspondente à extensão das sete divisões.
HÁ EM CADA CAVERNA SETE MIL FENDAS, E EM CADA FENDA SETE MIL ESCORPIÕES.
Cada uma das sete divisões tem por sua vez sete subdivisões, e em cada compartimento há sete rios de fogo e sete de granizo. A largura de cada um é de mil varas, sua profundidade mil, seu comprimento trezentos, e eles fluem um para dentro do outro, sendo supervisionados por noventa mil anjos de destruição. Há, além disso, em cada compartimento sete mil cavernas, em cada caverna sete mil fendas, e em cada fenda sete mil escorpiões. Cada escorpião tem trezentos anéis, e em cada anel sete mil bolsas de veneno, dos quais fluem sete rios de veneno mortal. O homem que o toca explode imediatamente: cada membro é separado do corpo, suas entranhas se esfacelam e ele cai de rosto no chão.
Há também cinco tipos diferentes de fogo no inferno. Um deles devora e absorve, outro devora e não absorve, enquanto o terceiro absorve e não devora; há ainda outro fogo que nem devora nem absorve, e finalmente um fogo que devora o fogo. Há brasas do tamanho de montanhas, brasas do tamanho de colinas e brasas do tamanho do Mar Morto, e brasas que se assemelham a enormes pedras, e há rios de asfalto e enxofre que fluem e borbulham como brasas vivas.
A terceira criação do segundo dia foram as hostes de anjos – tanto os anjos ministradores quanto os anjos de louvor. A razão pela qual eles não foram trazidos à existência no primeiro dia foi para que os homens não cressem que os anjos auxiliaram Deus na criação do céu e da terra. Os anjos que são moldados de fogo têm formas de fogo, mas apenas enquanto permanecem no céu. Quando descem à terra, a fim de fazerem a vontade de Deus aqui embaixo, são ou transformados em vento ou assumem a aparência de homens. Há dez escalões hierárquicos, ou graus, entre os anjos.
Os de nível hierárquico mais exaltado são os que cercam o Trono Divino por todos os lados: à direita, à esquerda, na frente e atrás, sob a liderança dos arcanjos Miguel, Gabriel, Uriel e Rafael.
DEUS OS SILENCIA: “QUIETOS, ATÉ QUE EU TENHA OUVIDO AS CANÇÕES E DOCES MELODIAS DE ISRAEL”.
Todos os seres celestiais louvam a Deus com as palavras: “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos”, mas nisso os homens têm precedência sobre eles. Os anjos não podem começar sua canção de louvor até que os seres terrenos tenham trazido sua exaltação a Deus. Israel em particular tem a preferência dos anjos. Quando circundam o Trono Divino na forma de montanhas de fogo e colinas flamejantes, e ensaiam levantar as vozes em adoração ao Criador, Deus os silencia com as palavras:
– Quietos, até que eu tenha ouvido as canções, louvores, orações e doces melodias de Israel.
Assim sendo, os anjos ministrantes e todas as outras hostes celestiais aguardam até que os últimos ecos das doxologias de Israel, erguendo-se da terra, tenham se extinguido, e só então proclamam em alta voz: “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos”.
Quando se aproxima a hora da glorificação de Deus por parte dos anjos, o augusto arauto divino, o anjo Shamiel, desce até as janelas do céu mais inferior para escutar as canções, orações e louvores que ascendem das sinagogas e casas de saber, e quanto terminam, ele anuncia o seu fim aos anjos de todo o céu. Os anjos ministrantes, aqueles que têm contato com o mundo sublunar, dirigem-se agora a suas câmaras para seu banho de purificação. Eles mergulham num riacho de fogo e chama por sete vezes, e por trezentas e sessenta e cinco vezes examinam-se cuidadosamente, para certificar-se que nenhuma mancha permanece aderida a seus corpos. Só então sentem-se dispensados para galgar sua escada de fogo e juntar-se aos anjos do sétimo céu, e cercar o trono de Deus juntamente com Hashmal e todos os santos Hayyot. Adornados de milhões de coroas chamejantes, trajando vestes de fogo, todos os anjos em uníssono, com as mesmas palavras e a mesma melodia, entoam canções de louvor a Deus.



Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash(particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Tradução: Paulo Brabo

Lendas dos Judeus #03 (O primeiro dia)


A CRIAÇÃO: O primeiro dia
No primeiro dia da criação Deus produziu dez coisas: os céus e a terra, Tohu e Bohu, a luz e as trevas, o vento e a água, a duração do dia e a duração da noite.
Embora o céu e a terra consistam de elementos inteiramente diferentes, eles foram criados como uma unidade, “como um panela e sua tampa”. Os céus foram formados da luz dos trajes de Deus, e a terra da neve de debaixo do trono divino. Tohu é uma faixa verde que engloba o mundo inteiro, e produz a escuridão, e Bohu consiste nas pedras do abismo, que produzem a água. A luz criada no princípio não é a mesma luz do sol, da lua e das estrelas, que apareceram somente no quarto dia. A luz do primeiro dia era de tal natureza que teria permitido que o homem enxergasse num só relance o mundo inteiro de uma ponta a outra. Antecipando a perversidade das gerações pecaminosas do dilúvio e da Torre de Babel, que eram indignas de desfrutar da bençao dessa luz, Deus a ocultou, mas no mundo que está por vir ela aparecerá aos piedosos em sua glória original.
LEVA-SE QUINHENTOS ANOS PARA SE CAMINHAR DA TERRA AO CÉU, E DE UMA EXTREMIDADE DO CÉU À OUTRA, E É NECESSÁRIO O MESMO TEMPO PARA SE VIAJAR DO OESTE AO LESTE, OU DO SUL AO NORTE.
Diversos céus foram criados, na verdade sete, cada um com um propósito particular. O primeiro, visível para o homem, não tem função exceto a de encobrir a luz durante a noite, e por isso desaparece a cada manhã. Os planetas estão presos ao segundo céu; no terceiro o maná é fabricado para os piedosos no porvir; o quarto contem a Jerusalém celestial juntamente com o Templo, no qual Miguel ministra como sumo sacerdote e oferece as almas dos piedosos como sacrifício. No quinto céu residem as hostes de anjos, e cantam louvor a Deus, embora apenas durante a noite, pois durante o dia a tarefa de dar glória a Deus nas alturas é de Israel, na terra. O sexto céu é um lugar sinistro; ali originam-se a maior parte das provações e visitações ordenadas para a terra e seus habitantes. Empilhados naquele lugar estão neve e granizo; há sótãos cheios de orvalho nocivo, armazéns abarrotados de tempestades e porões que comportam reservas de fumaça. Portas de fogo separam essas câmaras celestiais, que estão sob a supervisão do arcanjo Metraton. Seu conteúdo pernicioso maculou os céus até o tempo de Davi. O piedoso rei orou que Deus expurgasse de sua exaltada morada qualquer coisa que estivesse prenhe de maldade; não era próprio que tais coisas existissem tão próximas ao Misericordioso. Apenas então elas foram transferidas para a terra.
O sétimo céu, por outro lado, nada contém que não seja bom e belo: o direito, a justiça e a misericórdia, os armazéns da vida, da paz e da benção, as almas dos piedosos, as almas e espíritos das gerações não-nascidas, o orvalho com o qual Deus reviverá os mortos no dia da ressurreição e, acima de tudo, o Trono Divino, cercado por serafins, pelos ofanins, pelos santos Hayyot e pelos anjos ministrantes.
Correspondendo aos sete céus, Deus criou sete terras, cada uma separada da seguinte por cinco camadas. Acima da terra mais inferior, Erez, jazem em sucessão o abismo, Tohu, Bohu, o mar e as águas. Chega-se então à sexta terra, Adamah, cena da magnificência de Deus. Do mesmo modo, Adamah é separada da quinta terra, Arka, que contém o Gehenna e Shaa’re Mawet e Sha’are Zalmawet e Beer Shahat e Tit ha-Yawen e o Abadon e o Seol e onde as almas dos perversos são guardadas pelos Anjos da Destruição. Semelhantemente, a Arka segue-se Harabah, “a seca”, lugar de riachos e ribeirões, apesar de seu nome; a terra seguinte, Yabbashah, “o continente”, contém os rios e nascentes.
Tebel, a segunda terra, é a primeira habitada por criaturas vivas, trezentas e sessenta e cinco espécies, todas essencialmente diferentes das da nossa terra. Algumas têm cabeças humanas presas a um corpo de leão, serpente ou boi; outras têm corpos humanos encimados pela cabeça de algum desses animais. Além disso, Tebel é habitada por seres humanos com duas cabeças e quatro mãos e pés – na verdade, têm todos os orgãos duplicados exceto o tronco. Acontece de vez em quando que as partes dessas pessoas duplas disputam umas com as outras, especialmente quando comem e bebem, ocasião em que cada uma exige para si a porção maior. Essa espécie de humanidade é notável por sua grande piedade, outra diferença entre ela e os habitantes da terra.
A nossa própria terra chama-se Heled e, como as outras, está separada de Tebel por um abismo, por Tohu, por Bohu, pelo mar e pelas águas.
HOSTES DE ANJOS CANTAM LOUVOR A DEUS, EMBORA APENAS DURANTE A NOITE, POIS DURANTE O DIA A TAREFA DE DAR GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS É DE ISRAEL, NA TERRA.
Dessa forma uma terra ergue-se acima da outra, da primeira à sétima, e acima da sétima estão dipostos os céus, do primeiro ao sétimo, sendo que o último deles está preso ao braço de Deus. Os sete céus formam uma unidade, os sete tipos de terra formam uma unidade, e os céus e a terra juntos formam também uma unidade.
Quando Deus fez o presente céu e a presente terra, “o novo céu e a nova terra” também foram gerados, bem como as cento e noventa e seis mil palavras que Deus criou para sua própria Glória.
Leva-se quinhentos anos para se caminhar da terra ao céu, e de uma extremidade do céu à outra, e também de um céu ao seguinte, e é necessário o mesmo tempo para se viajar do oeste ao leste, ou do sul ao norte. Apenas um terço deste vasto mundo é habitado, sendo que os outros dois terços são divididos igualmente entre água e terras desertas.
Além das porções habitadas a leste está o Paraíso com suas sete divisões, cada uma designada aos piedosos de determinada categoria. O oceano está situado a oeste, e é salpicado de ilhas que são habitadas por muitos povos diferentes. Além dele, por sua vez, está a estepe sem fim cheia de serpentes e escorpiões e destituída de qualquer espécie de vegetação, quer sejam gramíneas ou árvores. Ao norte estão os suprimentos de fogo-do-inferno, de neve, granizo, fumaça, gelo, escuridão e tempestades, e naquela vizinhança toda sorte de diabos, demônios e espíritos malignos. Sua habitação é uma grande extensão de terra que levaria quinhentos anos para atravessar. Além dela jaz o inferno. Ao sul localiza-se a câmara contendo reservas de fogo, a caverna da fumaça e a forja dos ventos e furacões. Acontece então que o vento que sopra do sul traz calor e mormaço sobre a terra. Não fosse pelo anjo Ben Nez, o Alado, que retém o vento sul com suas plumas, o mundo seria consumido. Além disso, a fúria de suas rajadas é temperada pelo vento norte, que aparece sempre como moderador, qualquer que seja o outro vento que estiver soprando.
A leste, oeste e sul, céu e a terra tocam um ao outro, mas o norte Deus deixou por terminar, para que a qualquer homem que afirmasse ser deus fosse oferecida a tarefa de suprir a deficiência, de modo a ser condenado como impostor.
A terra começou a ser construída pelo centro, com a pedra fundamental do Templo, a Eben Shetiyah, pois a Terra Santa é o ponto central da superfície da terra, Jerusalém é o ponto central da Palestina e o Templo está situado no centro da Cidade Santa. No santuário em si o Hekal é o centro, e a Arca santa ocupa o centro do Hekal, erigido sobre a pedra fundamental, que é dessa forma o centro da terra. Dali lançou-se o primeiro raio de luz, cortando a Terra Santa, e a partir dali iluminando toda a terra. A criação do mundo, no entanto, não poderia ter tomado lugar até que Deus banisse o senhor da escuridão. “Retire-se”, Deus disse a ele, “pois desejo criar o mundo através da luz”. Apenas depois que a luz havia sido formada surgiram as trevas, a luz governando o céu, as trevas a terra. O poder de Deus manifestou-se não apenas na criação do mundo de coisas, mas igualmente nas limitações que ele impôs sobre cada uma. Os céus e a terra estenderam-se em comprimento e largura como se aspirassem à infinitude, e foi preciso a palavra de Deus para colocar um limite no alcance deles.


Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash(particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Tradução: Paulo Brabo

Lendas dos Judeus #02 (O alfabeto)


A CRIAÇÃO: O alfabeto
Quando Deus estava para criar o mundo pela sua palavra, as vinte e duas letras do alfabeto desceram da terrível e augusta coroa de Deus onde haviam sido gravadas com uma pena de fogo flamejante, posicionaram-se em pé ao redor de Deus, e uma após a outra falou e pediu:
– Crie o mundo através de mim!
A primeira a vir à frente foi a letra Tav. Ela disse:
– Ó, Senhor do mundo! Seja da sua vontade criar o mundo através de mim, visto que é através de mim que o senhor dará a Torá a Israel pela mão de Moisés, como está escrito: “Moisés ordenou-nos a Torá.”
O Santo, bendito seja ele, respondeu e disse:
– Não.
– Por que não? – perguntou Tav.
E Deus respondeu:
– Porque nos dias que virão deverei colocar você como sinal de morte sobre as frontes dos homens.
Assim que Tav ouviu essas palavras da boca do Santo, bendito seja ele, retirou-se da sua presença desapontada.
A letra Shin deu um passo a frente e pediu:
– Ó, Senhor do mundo, crie o mundo através de mim, visto que o seu próprio nome, Shaddai, começa comigo.
Infelizmente Shin é também a primeira letra de Shav, mentira, e de Sheker, falsidade, e foi por isso desclassificada. Resh não teve melhor sorte: foi observado que ela era a letra inicial de Ra’, perverso, e de Rasha’, maligno, e diante disso a distinção de que ela desfruta por ser a primeira letra no Nome de Deus, Rahum, o misericordioso, em nada contava. Kof foi rejeitada porque Kelalah, maldição, pesa mais do que o fato de ser a primeira letra em Kadosh, o Santo. Em vão Tzade chamou a atenção para a palavra Zaddik, o Justo: havia Zarot, os infortúnios de Israel, testemunhando contra ela. A letra Pe tinha Podeh, redentor, em seu favor, mas Pesha, transgressão, refletia desonra sobre ela. Ayin foi declarada inadequada, porque embora comece ‘Anawah, humildade, faz a mesma coisa por ‘Erwah, imoralidade.
Samek disse;
– Ó, Senhor, seja da sua vontade começar a criação através de mim, pois o senhor é chamado como eu de Samek, o Sustentador de todas as coisas que tendem a cair.
Mas Deus disse:
– Você é necessária no lugar em que está, e deve continuar a sustentar todas as coisas que tendem a cair.
Nun é a primeira letra de Ner, “a lâmpada do Senhor”, que é “o espírito dos homens”, mas também de Ner, “a lâmpada dos ímpios”, que será apagada por Deus. Mem começa a palavra Melek, rei, um dos títulos de Deus, mas como é também a primeira letra de Mehumah, confusão, não teve chance de realizar o seu desejo. A reivindicação de Lamed trazia sua própria refutação. Ela apresentou o argumento de que era a primeira letra em Luhot, as tábuas celestiais dos Dez Mandamentos, esquecendo que as tábuas eram feitas em pedaços por Moisés. Kaf estava certa da vitória: tanto Kisseh, o trono de Deus, quanto Kabod, sua honra, e Keter, sua coroa, começam com ela. Deus teve de lembrá-la de que iria bater uma contra a outra as suas mãos, Kaf, em desespero pelos infortúnios de Israel. À primeira vista Yod parecia ser a letra apropriada para o princípio da criação, devido à sua associação com Yah, Deus, porém Yezer ha-Ra’, a inclinação para o mal, também acontecia de começar com ela. Tet identificava-se com Tob, o bem, porém o verdadeiro bem não é deste mundo; pertence ao mundo que está por vir. Het é a primeira letra de Hanun, o Gracioso; porém essa vantagem é vencida por seu lugar na palavra para pecado, Hattat. Zain sugere Zakor, lembrança, mas é ela mesma a palavra para arma, aquela que fere. Wav e He compõem o Inefável Nome de Deus, e são portanto exaltados demais para prestarem serviço no mundo terreno. Se Dalet representasse apenas Dabar, a Palavra Divina, teria sido usada, mas representa também Din, justiça, e sob o governo da lei sem o amor o mundo teria caído em ruína. Finalmente, a despeito de lembrar Gadol, grande, Gimel não foi escolhida, porque Gemul, retribuição, começa com ela.
Depois que as revindicações de todas essas havia sido negadas, a letra Bet aproximou-se do santo, bendito seja ele, e pediu diante dele:
– Ó, Senhor do Mundo! Seja sua vontade criar o mundo através de mim, levando-se em conta que os moradores do mundo dão louvor ao senhor através de mim, como é dito: “Bendito seja o Senhor para sempre. Amém e amém”.
O Santo, bendito seja ele, atendeu imediatamente ao pedido de Bet.
– Bendito o que vem em nome do Senhor – disse ele.
E criou o seu mundo através de Bet, como é dito: “Bereshit [No princípio] Deus criou os céus e a terra”.
A única letra que absteve-se de fazer qualquer pedido foi a modesta Alef, e Deus mais tarde recompensou sua humildade concedendo a ela o primeiro lugar nos Dez Mandamentos.

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash(particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Tradução: Paulo Brabo

Lendas dos Judeus #01 (As primeiras coisas criadas)

A CRIAÇÃO: As primeiras coisas criadas


No princípio, dois mil anos antes do céu e da terra, sete coisas foram criadas: a Torá, escrita com fogo negro sobre fogo branco e repousando sobre o colo de Deus; o Trono Divino, erguido no céu e que mais tarde estaria sobre as cabeças dos Hayyot; o Paraíso à direita de Deus, o Inferno à sua esquerda; o Santuário Celestial diretamente à frente de Deus, tendo em seu altar uma jóia gravada com o Nome do Messias, e a Voz que clama: “Voltai, filhos dos homens”.

Quando decidiu a respeito da criação do mundo, Deus tomou conselho com a Torá. A recomendação dela foi:

– Oh, Senhor, um rei sem um exército e sem cortesãos e atendentes não merece o nome de rei, pois ninguém há perto para prestar-lhe a homenagem devida.

A resposta agradou a Deus sobremaneira. Dessa forma ele ensinou todas as coisas terrenas, através do seu divino exemplo, a nada empreender antes de primeiro consultar os seus conselheiros.

O conselho da Torá foi dado com algumas reservas. Ela duvidava do valor de um mundo terreno por causa do pecado do homem, que iria por certo negligenciar os seus preceitos. Porém Deus dissipou as suas dúvidas, dizendo a ela que o arrependimento havia sido criado muito antes, e que os pecadores teriam oportunidade de corrigir sua conduta. Além disso, o serviço do templo seria investido de poder de remissão, e o Paraíso e o inferno destinavam-se a fazerem sua obrigação como recompensa e punição. Finalmente, o Messias era designado a trazer salvação, que poria um fim a toda a pecaminosidade.

PORÉM NEM MESMO ESTE MUNDO TERIA PERMANECIDO, SE DEUS TIVESSE EXECUTADO O SEU PLANO ORIGINAL DE GOVERNÁ-LO SOB O PRINCÍPIO DA JUSTIÇA ESTRITA.
Tampouco foi este mundo habitado pelo homem a primeira das coisas terrenas criadas por Deus. Ele fez diversos mundos antes deste, mas destruiu a todos, porque não se satisfez com nenhum antes de criar o nosso. Porém nem mesmo este mundo mais recente teria permanecido, se Deus tivesse executado o seu plano original de governá-lo sob o princípio da justiça estrita. Foi apenas quando viu que a justiça por si mesma traria a ruína do mundo que ele associou à justiça a misericórdia, e fez com que ambas governassem conjuntamente. Desta forma, desde o princípio de todas as coisas prevaleceu a bondade divina, sem a qual nada teria continuado a existir. Se não fosse por isso, as miríades de espíritos malignos já teriam colocado um fim às gerações dos homens. Porém a bondade de Deus ordenou que a cada mês de Nisã, por ocasião do equinócio da primavera, os serafins aproximem-se do mundo dos espíritos, e os intimidem de modo a que eles temam fazer mal ao homem.

Além disso, se Deus em sua bondade não tivesse concedido proteção aos fracos, os animais mansos já teriam sido há muito tempo eliminados pelos animais selvagens. No mês de Tamuz, por ocasião do solstício do verão, quando a força do beemote está no seu auge, ele urra tão alto que todos os animais o ouvem, e por um ano inteiro permanecem assustados e temerosos, e seus atos tornam-se menos ferozes do que seriam por natureza. Novamente, no mês de Tisri, por ocasião do equinócio do outono, o grande pássaro ziz bate suas asas e dá o seu grito, para que todas as aves de rapina, águias e abutres, recuem de medo, e passem a temer lançaram-se sobre os outros e aniquilá-los em sua cobiça. Além disso, não fosse a misericórdia de Deus, o vasto número de peixes grandes teria rapidamente colocado um fim nos pequenos. Porém por ocasião do solstício do inverno, no mês de Tebet, o mar torna-se agitado, pois o leviatã espirra água, e os grandes peixes ficam inquietos; eles refream seu apetite, e os pequenos escapam da sua rapacidade.


Finalmente, a bondade de Deus se manifesta na preservação de seu povo, Israel. Ele não poderia ter sobrevivido à inimizade dos gentios, se Deus não tivesse designado para ele protetores, os arcanjos Miguel e Gabriel. Quando acontece de Israel desobedecer a Deus, e é acusado de mau comportamento pelos anjos de outras nações, ele é defendido pelos seus guardiões designados, com resultado tão positivo que os outros anjos passam a temê-los. Uma vez que os anjos das outras nações estão aterrorizados, as próprias nações não ousam levar avante seus perversos intentos contra Israel.

Para que a bondade de Deus reinasse na terra como no céu, aos Anjos da Destruição foi designado um posto na extremidade mais distante dos céus, do qual não devem nunca se mover, enquanto os Anjos da Misericórdia circundam o trono de Deus, às suas ordens.


Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash(particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Tradução: Paulo Brabo

Box: Lendas dos Judeus (Introdução)

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.


Iremos postar um texto por dia das Lendas dos Judeus. As lendas se resumem a pequenos textos que contam de uma forma criativa e cheia de informações algumas histórias do livro Gênesis. Da mesma forma que é na bíblia, Lendas dos Judeus relata as histórias em forma de conto ou poema popular. Devemos acreditar na sua descrição? Bem, acredito que deve ser levado em consideração mais do que a interpretação do conto original tem sido levado hoje em dia em nosso país. Você que lê o JovenSapiens com frequência, já deve ter topado com algum post que explica sobre a narrativa de Gênesis. Ao contrário do que crescemos ouvindo, a narrativa do Gênesis é muito mais do que aquilo que está escrito e o seu significado original é muito, mas muito diferente do que nos ensinaram. O Gênesis, em sua leitura original, é lido como poema, conto ou lenda popular, dependendo da história. Ou seja, o que devemos analisar é bem mais o seu significado do que o que está estampado pra todo mundo ver.
Se você contar a história de Adão e Eva, por exemplo, a um Judeu, provavelmente ele não saberá sobre o que você está falando. Enquanto "nós" lemos a história de Adão e Eva como a maneira que perdemos nossa imortalidade e fomos expulsos do paraíso, o Judeu lê a mesma história entendendo que isso se trata de uma maneira de como educar os filhos apresentando-lhes uma moral e uma consequência caso aquela ordem seja violada.
"Nesse sentido, a história de Adão e Eva, longe de ser apenas a história de como perdemos a imortalidade, pode ser melhor descrita como sendo 'a história de como somos capazes de viver corretamente', tendo recebido a faculdade crítica do discernimento moral e desenvolvido desse modo a habilidade de obedecer à aliança.
E não é só isso. Não apenas a capacidade de discernir certo e errado é a marca do ser humano maduro, mas há outro modo engraçado em que a história do jardim diz respeito à psicologia do desenvolvimento. Precisamente como crianças, o primeiro casal aprende o que é certo e o que é errado recebendo uma regra para obedecer, transgredindo essa regra e sendo punidos por essa razão. A narrativa está fundamentada na simples observação do modo como ensinamos nossos filhos a fazer os mesmos discernimentos.

(Alan F. Segal, Life After Death)
Espero que vocês gostem das Lendas dos Judeus. E só um aviso: Não leiam tentando achar verdade na descrição dos contos, leiam aproveitando a boa leitura e tentando entender o significado por trás da narrativa, ok?


Abraço,
Eliab Alves
Recomendamos: "Os mesmos discernimentos" http://jovensapiens.blogspot.com.br/2012/03/os-mesmos-discernimentos.html

Prece - Fernando Pessoa


SENHOR, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu. Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo)  – eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai. [...]
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

[Prece - no livro O EU PROFUNDO - Obras em Prosa - em um volume - Editora Nova Aguilar, 2da Edição - 1976, página 33]

Ops!

Leitores, não me decepcionem, por favor. Algum voluntário para nos explicar isso?
Não se preocupem. Vou tentar refutar seus argumentos de defesa. Alguém topa o desafio?
Se no final ninguém me atacar na rua, eu tentarei explicar isso.
Divirtam-se!