Minha fé não é aquilo em que acredito

A distinção mais útil que encontrei nesta caminhada foi a que estabeleceu Jacques Ellul entre fé e crença. Crença é aquilo que professamos acreditar; é o contéudo doutrinário peculiar à nossa facção religiosa, expresso com palavras muito bem escolhidas em nossas declarações de fé. Não há, por outro lado, conjunto de palavras suficiente para definir adequadamente a fé. Nossas crenças são passíveis de exposição, mas nossa fé é questão pessoal – seu conteúdo é o mistério tremendo, a tensão superficial entre eu e o universo, entre eu e o desconhecido, entre eu e o futuro, entre eu e a morte, entre eu e o outro, entre eu e Deus.

Os religiosos de todas as estirpes vivem em geral muito mais preocupados com as filigranas da crença do que com a vivência da fé – e posso dizê-lo por experiência própria. As divisões que fazemos questão de estabelecer entre a nossa e as demais facções da cristandade, e entre a cristandade e as outras heranças religiosas, estão fundamentados, naturalmente, em diferenças de crença. Às vezes dizemos que diante de Deus o desafio da fé é o mesmo para todos, mas agimos claramente como se nossa identidade de cristãos e de seres humanos fosse adequadamente definida pelo teor de nossas crenças. Sentimo-nos devidamente legitimados, devidamente representados, pela felicidade de pertencermos ao grupo ou denominação que professa (ao contrário, naturalmente, de todas os outros grupos ou denominações) a crença mais pura, destilada e correta. Fingimos que nos dobramos diante de Deus e de seu Cristo, mas nosso cristianismo é ortodoxolatria.

“A fé”, explica Ellul, “isola o indivíduo; a crença, (qualquer que seja, inclusive a cristã) ajunta pessoas. Na crença nos vemos unidos a outros na mesma corrente institucional, todos orientados em direção ao mesmo objeto de crença, compartilhando das mesmas idéias, seguindo os mesmos rituais, arrolados na mesma organização, falando o mesmo dialeto.”

Diante disso, sinto-me cada vez menos inclinado a responder aos que perguntam em que acredito, ou aos que levantam-se em indignação quando ouvem a temerária confissão de alguma crença minha (“O quê? O Brabo acredita na evolução?” “O quê? O Brabo não condena a fé dos católicos?” “O quê? O Brabo crê que igreja bem-sucedida é a que fecha as portas?” “O quê? O Brabo acredita em [inserir crença arbitrária aqui]“). Sinto-me cada vez menos motivado a responder aos que perguntam sobre minha tradição religiosa, a qual denominação pertenço, se faço parte de alguma igreja, se endosso determinado autor ou se fico devidamente escandalizado diante de determinada barbárie doutrinária.

Não devo iludir a mim mesmo ou a quem quer que seja dando a impressão de que resta algo de importância na vida espiritual (ou na vida) que não seja a fé, e – minha gente – minha fé não é aquilo em que acredito. Minha fé não está naquilo em que acredito, e nem poderia estar. Minha fé não é adequadamente expressa por aquilo em que acredito, e nem poderia ser.

Em primeiro lugar, porque minhas crenças mudam, mesclam-se e transformam-se constantemente. Minhas crenças nascem, reproduzem-se e morrem num plano totalmente independente do desafio que está na fé. Em segundo lugar porque, como lembra Ellul, “toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião”. Quem pergunta aquilo em que acredito está tentando estabelecer comigo a mais rasteira das conexões; está querendo legitimar a sua crença a partir da minha, e isso não tem como ser saudável para ninguém.

Quem se abraça dessa forma à crença está buscando, evidentemente, o conforto do terreno conhecido e palmilhado. “A crença é confortadora”, observa Ellul. “A pessoa que vive no mundo da crença sente-se segura”. A fé, por outro lado, é coisa terrível, a que ninguém em são juízo deveria aspirar. A fé deixa-me sozinho com um Deus que pode não estar lá. A fé convida-me a um grau de liberdade que posso não ter o desejo de experimentar. A fé quer tirar-me da zona de conforto da crença e levar-me para regiões de mim mesmo e dos outros aonde não quero ir. A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida. A crença explica sensatamente aquilo em que acredito, a fé exige loucamente que eu prove.

Nossas crenças são âncoras de legitimação, que nos mantém seguros no lugar mas nos impedem de seguir adiante – o que, convenhamos, é muito conveniente. Quem iria em sã consciência escolher abandonar o abraço confirmatório da crença comum e dar um passo em direção à vertigem da fé, ao desafio de tornar-se um indivíduo separado, distinto e singular (numa palavra, santo) diante de Deus? Queremos voltar para o Egito, onde havia cebolas; não suportamos o desafio constante, sempre iminente, sempre exigente, do deserto.

Não tenho como recomendar a crença; sua única façanha é nos reunir em agremiações, cada uma crendo-se mais notável do que a outra e chamando o seu próprio ambiente corporativo de espiritualidade. Não tenho como endossar a crença; não devo dar a entender que a espiritualidade pode ser adequadamente transmitida através de argumentos e explicações. Não devo buscar o conforto da crença; o Mestre tremeu de pavor e não tinha onde reclinar a cabeça. Não devo ouvir quem pede a tabulação da minha crença; minha fé não é aquilo em que acredito.

Nunca deixa de me surpreender que para o cristianismo Deus não enviou para nos salvar um apanhado de recomendações ou uma lista suficiente de crenças, mas uma pessoa. Minha espiritualidade não deve ser vivida ou expressa de forma menos revolucionária. Não pergunte em que acredito. Mande um email, pegue uma condução, venha até minha casa, tome um café na minha mesa e aceite o meu abraço. Não devo esperar ato maior de fé, e não tenho fé maior para oferecer.


Em louvor dos pecadores

Em grande parte, depois de conviver por décadas com gente santa, só fui conhecer Jesus pessoalmente através dos pecadores.

Não fui encontrá-lo na igreja, onde insistíamos que ele morava e onde falávamos metade do tempo sobre ele. Na igreja encontrei meus amigos mais bem-intencionados, muito deles assustadoramente queridos e carentes, mas oprimidos como eu debaixo de um sistema fundamentado em medo e desejo. Por mais que eu simpatizasse com o calor da instituição e com o mérito das boas intenções, nada eu testemunhava ou vivia da satisfação inerente, a generosidade, a paixão e a terrível liberdade que os evangelhos atribuíam ao Filho do Homem. Cantávamos, chorávamos e nos abraçávamos debaixo do mesmo teto piedoso, mas ali não estava o espírito de Jesus.

Não encontrei-o nem me afastei dele na Federal, onde meus mentores evangélicos tinham alertado que eu encontraria amigos irresistivelmente devassos e correria o risco incessante de idéias sediciosas, construídos os dois para abalar minhas convicções. As idéias eram ralinhas e as companhias inofensivas, a grande maioria tão ou mais careta, casta e ultraconservadora quanto eu. Havia algum coleguismo e bons parceiros de truco, mas também não pouca competividade, intolerância e altivez (talvez tanto quanto na igreja), e o espírito de Jesus não estava ali.

Mas Deus teve misericórdia de mim, este santo, e permitiu que eu convivesse de perto com pecadores. Isso, em inúmeros sentidos importantes da palavra, me salvou.

Como eu suspeitava, os pecadores não se entregam como nós na igreja a pecados mesquinhos como a hipocrisia, a mentira e o orgulho; abrem eles mão desses amadorismos e tratam da coisa em si, da sem-vergonhice mais vital, sensorial e carnal – sexo, drogas e rock’n’roll.

Finalmente estava eu no mesmo recinto que pecadores de verdade, gente indecorosa, sensual e auto-indulgente; drogados, homossexuais, bêbados, libertinos, prostitutas, poetas; safados, depravados, corruptos, lascivos. Habituei-me ao doce perfume da maconha, visitei os mais variados mocós, vi carreiras de cocaína se armarem e desaparecerem; sentei-me ouvindo Janis Joplin numa sala que eu visitava pela primeira vez, olhando para um homem dormindo onde acabara de cair, enquanto um casal transava e curtia drogas no quarto ao lado e outros faziam churrasco lá atrás. Comprei camisinhas que não eram para mim. Ajudei a pagar um tolete quando o dinheiro faltou. Visitei bares gays porque estavam na moda e meus amigos sabiam por isso que lá seria mais fácil descolar uma pedra de fumo ou, paradoxalmente, uma garota.

É natural que fora uma cervejinha ou outra me mantive sóbrio e casto durante todo esse período – não que, naturalmente, fizesse diferença. Mantive-me um santo – um carola, amado ternamente por eles apesar disso – entre pecadores. Eu me sabia mais ou menos resistente às seduções da carne e talvez estivesse ainda sustentando a ilusão de que poderia “fazer diferença” no meio daquela pobre gente. Talvez estivesse procurando mais um motivo extravagante para me orgulhar, de ser capaz de manter minha integridade à prova de balas mesmo convivendo com os mais baixos e corrompidos. A esta altura, não sei dizer o que esperava.

Mas sei dizer o que não esperava: não esperava encontrar entre os pecadores, e pela primeira vez na vida, a terna experiência do espírito de Jesus.

Não em mim. Neles.

Posso garantir que até aquele momento eu só conhecia a postura de Jesus e dos primeiros cristãos de ouvir falar. Os evangelhos atribuem ao Filho do Homem tremendas paixão, vitalidade, generosidade e independência; o livro de Atos e as cartas falam de cristãos que “tinham tudo em comum” e “eram de um só coração”. Em seus momentos mais idealistas Jesus fala em amar os inimigos, dar a outra face, emprestar sem esperar receber de volta, oferecer um banquete a quem não tem como retribuir. Paulo descreve um mundo sem preconceito de sexo, raça ou classe social. João garante que Deus é amor, e que o amor abre mão de qualquer traço de temor.

Paradoxalmente, este mundo definido em termos positivos poucos cristãos chegam em qualquer medida a experimentar. Escolhemos nos definir não por essas qualidades afirmativas – aquilo que o Apóstolo chama de “fruto do Espírito” – mas pelo que é negativo e paralisante e opressor contra os outros e nós mesmos: a culpa, a mesquinhez, a repressão, a neurose, a negação, o niilismo. O mundo em que todos se aceitam e se amam, embora faça parte da nossa pregação nominal, nos é aterrorizante por natureza. Tudo na nossa postura batalha contra ele. A “gloriosa liberdade dos filhos de Deus” não nos interessa. Alguém me dê depressa um líder carismático e um rol muito claro de mandamentos – é só o que pedimos.

Entre os pecadores encontrei um universo livre da superficialidade de igreja e da irrelevância burguesa da faculdade. Aqui estava um mundo que escolhia se definir, na prática e não a partir de qualquer discurso ou demagogia, pela aceitação e pelo amor. Aqui estava gente que tinha tudo em comum, até mesmo – onde está, Mamom, a tua vitória? – o dinheiro. Gente que ignorava rótulos de classe, sexo e conta bancária para se tratar como gente no sentido mais fundamental da coisa. Gente que se recusava a ser manipulada pelo desejo e pelo temor, e fazia isso entregando-se a um e mandando às favas o outro.

A comunhão que experimentam, descobri, não tem limites; sua generosidade, que não espera recompensa que não o instante, não tem paralelo. Os pecadores abrem suas portas uns para os outros a qualquer momento do dia ou da noite; repartem sua droga, seu dinheiro, sua casa e seu pão sem qualquer trâmite ou transação, seja com um irmão importuno ou com o desconhecido em que acabam de tropeçar. Emprestam, terrivelmente, sem esperar receber de volta. Carregam quem precisam ser carregado, descolam um trampo para quem precisa, tiram a camisa para quem vomitou na roupa, emprestam a chave do carro para quem não tem onde fumar, providenciam o apartamento de alguém na praia para o que foi expulso de casa, repartem sem chiar ou cobrem o tanque de gasolina. Trabalham tanto para os outros quanto para si, acolhem com graça incondicional; são compassivos até para com os que não os toleram, longânimos com os que todos já decidiram ser melhor rejeitar. Convivem sem traumas com a consciência, apavorante para nós, de que não são melhores do que ninguém.

Entre os pecadores não transita apenas a legitimidade de quem recusa-se a ter o que esconder: rola, senhoras e senhores, um amor – e tão forte que lança fora todo o medo. São gente boa no sentido afirmativo da coisa. Gente sensualista, mas raras vezes desonesta. Auto-indulgente, mas sempre generosa. Pecadora, mas não proselitista. Matam-se, mas o que fazem pelos outros é só resgatar. Morrem, mas abraçados.

Não é difícil entender porque Jesus curtia tanto a companhia dos pecadores e não escondia seu orgulho em associar-se a eles. A integridade existe e a verdadeira comunhão não é uma impossibilidade: os pecadores legítimos não as desconhecem. Louvados sejam nas alturas os grandes pecadores, porque uma porção fundamental de Jesus sobrevive na Terra apenas através deles.

Arrependo-me, naturalmente, de não ter pecado tanto quanto devia com meus amigos pecadores. Eu, que não consigo viver nem de longe tão perto da inteireza de Jesus quanto eles, deveria ter lhes dado pelo menos essa satisfação.



A hora da morte

Quando Adão estava à beira da morte, totalmente despreparado que estava para abandonar o mundo quando havia ainda tanto a ser experimentado, o anjo da morte teve pena dele e disse:

– Quero consolá-lo com um milagre que você não conhece; sua vida se perpetuará através dos seus descendentes.

Quando Jesus estava à beira da morte, totalmente despreparado que estava para abandonar o mundo quando havia ainda tanto a ser feito, o anjo da morte, sabendo que Jesus não tinha filhos, teve pena dele e disse:

– Quero consolá-lo com um milagre que você não conhece: sua vida se perpetuará através dos seus seguidores.

Quando eu estiver à beira da morte, totalmente despreparado que estarei para abandonar o mundo quando haverá ainda tanto a ser dito, o anjo da morte dirá:

– Você não teve filhos e não terá seguidores, mas quero consolá-lo com um milagre que você conhece.

E dir-me-á ao ouvido o que eu sempre soube.


Entre a bíblia e uma playboy, prefiro a playboy!

O mais curioso não é o título mas sim a indignação de quem leu e veio conferir a blasfêmia que não deu pra conter aos olhos, na maioria, pessoas que nunca leram ou sequer estudaram as escrituras mas que estão sempre à disposição para lutar e defender O Livro Sagrado (que mal conhecem).
Usamos a bíblia como acessório dominical e só. Mas estamos sempre levantando a espada sobre a cabeça de quem ousar tirar uma onda.
Tratamos todos os outros livro e revistas com mais prioridades do que a bíblia. Inclusive a playboy e a revista do horóscopo ou sei lá o que. Mas para não passar uma imagem feia, vamos mostrar que amamos a bíblia acima de todas as coisas.

Vamos analisar as escrituras mas antes deixa eu ver o twitter, facebook, ler o JovenSapiens, fazer um lanche, jogar uma bolinha, bater perna, ver a novela, filme, seriado, ouvir a nova música que baixei... Agora sim, vou ler! Ops... Tem alguém ligando. Espera ai que eu volto já. Agora tenho de ajudar minha mãe a arrumar a casa, vou cuidar do meu irmão, passear com o cachorro, sair com a galera (de novo). Uffa! Agora vou dormir. O dia foi cheio. Amanhã eu leio um ou dois capítulos.

No outro dia olhando o Jovensapiens:
"Entre a bíblia e uma playboy, prefiro a playboy!"
-Opaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Agora eu vou quebrar o barraco!

Ops!


Abraço,
Eliab Alves Pereira

O homenzinho e o deus

A cidade foi atacada por um deus enorme e descalço
que ninguém podia vencer.
Tombaram exércitos e quebraram-se espadas,
morreram centenas,
e nada o fazia parar.

Foi quando um homenzinho inofensivo baixou sua lança e disse à multidão
que venceria o deus sem matá-lo; iria derrubá-lo sem ferir.
O deus riu um riso despreocupado de deus e com um golpe tremendo do braço fez o homem voar;
esmagou o homem com os pés e triturou-o entre as coxas,
despedaçou-o com os dentes e banhou-o em sangue e urina;
cuspiu, xingou e provocou.

Quando o homenzinho mal se podia pôr em pé
o gigante deu-lhe para segurar sua própria espada divina
e ofereceu de peito aberto seu divino coração,
mas o homem abaixou a espada e aquietou.

“Covarde”, disse o deus, e atravessou o homem despedaçado
com a lança que o próprio homem tinha deixado para trás.
Ferido de morte, o homenzinho entoou baixinho uma canção blasfema,
“venha o que vier, amar-te-ei pela eternidade”.
O deus inclinou-se para ouvir e o homem sussurrou-lhe ao ouvido, “sou seu filho”, e morreu.



A verdade e sua metáfora

Em certo país dava-se o nome de metáfora a qualquer recipiente próprio para conter algum líquido. Havia nesse país uma fonte de água cristalina, porém tão amarga que dizia-se bastar um único gole para matar de desgosto um homem adulto; cria-se no entanto que diluída ou em pequenas doses essa água tinha propriedades mágicas ou medicinais, e deu-se a ela o nome de verdade.

Levas de peregrinos acorriam incessantemente à fonte, e partiam para seus lugares de origem levando a verdade em seus vasos metafóricos.

Porém uma rigorosa seita, que cria que a verdade deve ser experenciada sem o auxílio de metáforas, atacava as caravanas de peregrinos. Querendo ensiná-los a obter a verdade em estado puro, os sectários destruíam a pauladas as metáforas que a continham. Quebrados os recipientes, a verdade se derramava e desaparecia no solo, ficando sem ela peregrinos e sectários.

Certa vez um rapaz voltava da fonte levando a verdade em sua metáfora quando viu de longe a aproximação dos sectários. Não querendo ver derramada a verdade que trazia consigo, o rapaz não hesitou e bebeu em goles resolutos toda a água da vasilha.

– Onde está a verdade que você trazia nessa metáfora? – perguntaram os perseguidores.

– Eu bebi – desafiou o rapaz. – Agora a verdade está dentro de mim.

E os sectários mataram-no a pauladas.

Em compensação, começou a correr a notícia de que a verdade, embora amarga, não era mortal, e que o recipiente próprio para conter a verdade era um ser humano. Com o passar do tempo os próprios homens passaram a ser chamados de metáforas, e conta-se que nunca estiveram mais perto da verdade.


A estranha tese de um judeu errante que não errou uma

Há dois mil anos, debaixo deste mesmo sol, um judeu desaforado sustentava a escandalosa noção de que Deus não aceita as pessoas com base em sua herança genética, desempenho moral, pureza sexual, popularidade, capacidade comprovada de empreendimento, consistência na observância religiosa, quociente de inteligência, saldo médio, nível de crédito ou qualquer outro mérito ou demérito curricular usual, mas com base em seu próprio cavalheirismo e graciosidade – aquilo que a Bíblia chama de graça.

Uma característica fundamental do Deus que é Pai, propunha Jesus, é que ele não fazbarganhas. Todas as tentativas pessoais e corporativas de ganhar o seu favor e a sua preferência não são apenas inúteis mas contraproducentes: geram em nós uma falsa impressão de mérito pessoal (que só irá nos prejudicar) e não ajudam em nada a limpar a nossa barra.



PARA OS QUE HAVIAM FEITO DE AGRADAR A DEUS SUA PROFISSÃO, A MENSAGEM DE JESUS ERA IMPENSÁVEL ESCÂNDALO.

O Deus da boa nova requer ao mesmo tempo muito mais e muito menos. Para agradá-lo é preciso abrir mão de qualquer tentativa de agradá-lo – e começar a imitá-lo; para imitá-lo é necessário abrir mão de nossa tendência a enxergar diferenças de mérito entre bons e maus, e passar a conceder a todos o mesmo improvável tratamento e as mesmas chances. É preciso aprender a dispensar nosso sol e nossa chuva sobre justos e injustos, sobre os que nos agradam e sobre os que nos odeiam, sendo nisso singulares como Deus é singular – santos como Deus é santo.

Para as pessoas que haviam feito de agradar a Deus sua vida, sua tese e sua profissão, a mensagem de Jesus era impensável escândalo. Os religiosos do tempo de Jesus acreditavam, como os de hoje, que o homem não deveria ser livre para não ter de agradar a Deus. Os riscos de tal liberdade eram incomensuráveis. O único modo de manter o homem seguro na senda da moral e da salvação, sabiam eles, era debaixo das rédeas seguras da religião.

Jesus por outro lado, não tinha uma palavra de condenação para oferecer aos corruptos, aos promíscuos, aos terroristas, aos militares da ocupação romana, às prostitutas, aos samaritanos, aos vendidos colaboracionistas, aos criminosos de colarinho branco, aos injustos, aos imorais, aos glutões, aos bêbados, aos mendigos, aos preguiçosos, aos violentos, aos pegajosos, aos irritantes e aos irritados e a todos os seus asseclas de todas as estirpes. Jesus não os condenava, não porque simpatizasse particularmente com a sua conduta, mas porque se condenasse a um teria de condenar a todos. Se todos recebessem o que mereciam, conforme refletiria Hamlet, ninguém escaparia ao açoite. Não há um justo, não há ninguém com uma ficha limpa. Nem mesmo um.
SE TODOS RECEBESSEM O QUE MERECIAM NINGUÉM ESCAPARIA AO AÇOITE.

Como não há ninguém que possa levantar a mão dizendo que fez corretamente a lição, todos carecem e recebem o mesmo tratamento paciente do mesmo paciente Pai. Não adianta chamar de lado oferecendo maçãs, propinas, untuosos elogios ou longas orações. Estar na condição humana é estar embarcado num mesmo orgulhoso e precário Titanic, e para encontrar a paz é preciso primeiro reconhecer isso. É requisito encarar a dura e libertadora realidade de que você não é melhor do que ninguém e que carece da mesma misericórdia que todos os outros.

Para os pecadores sem máscaras é, curiosamente, mais fácil.

Significativamente, as palavras de condenação de Jesus estavam reservadas para os que apregoavam que as boas intenções da religião institucional eram a solução para o problema de garantir-se um lugar no bote salva-vidas do Titanic da condição humana – e tentavam impor austeramente essa solução sobre os outros.

Nenhuma noção parecia a Jesus mais odiável do que essa. Para Jesus, acreditar e agir como se a barganha da religiosidade pudesse de alguma forma garantir alguma cumplicidade com Deus não era apenas a maior impenitência de todas. Era a única.

“Aprendam o que quer dizer eu quero misericórdia e não sacrifício”, vociferava ele. E falava sério.


Você só me honra na sua honra?

O pastor Santos (pastor da Bola de Neve em Ponta Negra/Natal) contou uma história uma vez que me fez refletir para escrever esse post.
Quando ele era mais jovem, participou de um campeonato de Jiu Jitsu. Ele contou que mandou confeccionar uma camisa em homenagem a Jesus Cristo, ele queria usar essa camisa quando subisse no 1º lugar do pódio. Pensava em honrar o nome de Deus quando conseguisse a vitória do campeonato e qual seria o melhor lugar se não o 1º? O que acontece é que na última luta ele não conseguiu vencer o adversário. Ficou em segundo lugar no ranking.

Ele pensou: “E agora? Eu ainda devo fazer a homenagem mesmo no 2º lugar? Deixa pra lá. Eu disse que ia fazer uma homenagem se conseguisse o lugar mais alto daqui. Deus não merece ficar em segundo, seu lugar é acima de todos”.

E então ele decidiu não mostrar a camisa que tinha feito para homenagear Jesus com sua vitória. Ele conta que depois de tomar essa decisão sentiu Deus falar com Ele de uma forma que incomodou bastante. Deus fez uma pergunta a ele que deixou uma marca indelével em sua mente: “Você só me honra na sua honra?”.

Aquilo fez com que ele tomasse um golpe tão grande que superava todas as lutas que ele passou. Ele enxergou a burrada que estava prestes a fazer e então mudou de opinião. Mesmo no segundo lugar do pódio ele levantou a camisa para todo o ginásio ver e todos aplaudiram de pé a sua homenagem.

A atitude do pastor Santos não é muito diferente da nossa atitude quando estamos enfrentando qualquer coisa que nos deixe envergonhado diante de Deus. Principalmente quando se trata de pecados.
Nós temos o costume de nos distanciar de Deus por vergonha de nossos atos. Sempre que pecamos nós sentimos tanta vergonha que deixamos de nos relacionar com Deus pensando que isso vai ajudar na nossa recuperação. É como se com um tempo Deus se esquecesse do que fizemos e é esse o tempo de voltar antes que ele se lembre do que fizemos. Isso é bastante infantil. Mas todos nós fazemos isso. Por quê? Bem, explicar o porque disso não é a intenção desse post.

Eu quero fazer com que você entenda que Deus nos faz a mesma pergunta que fez ao pastor Santo quando estamos nessa situação.
Você só me adora quando está certinho?
Você só me busca quando você está limpo?
Você só se relaciona comigo quando está sem pecado?
Você só me honra na sua honra?

As pessoas procuravam Jesus do jeito que elas estavam. Elas não procuravam se consertar para depois procurá-lo. Elas não podiam se ajudar então procuravam quem podia ajuda-las. Se a mulher do fluxo de sangue tentasse se tornar pura antes de procurar Jesus ela ia morrer daquele jeito.

Honre a Deus no seu fracasso. Busque a Deus enquanto peca. Chame por Deus enquanto tudo está afundando. Não tente se consertar pra ficar digno o suficiente para apresentar-se a Ele. Você nunca estará bom o bastante por seus próprios esforços.

Veja o exemplo de Pedro: Quando ele começou a duvidar e não conseguia mais andar sobre as águas, ele gritou por Cristo. Ele não tentou nadar por si mesmo e tentou reforçar a fé a fim de voltar a flutuar. Ele chamou pelo único que podia salvá-lo. Não tente se limpar antes de ir falar com Deus. Isso pode piorar a situação e você pode entrar num caminho sem volta. Venha pra Ele todo machucado, sujo e imperfeito. Ele vai te aceitar mesmo assim e vai cuidar de você. Da mesma forma que o pai cuidou do filho pródigo quando voltou pra casa.



Abraço,
Eliab Alves Pereira

Briga entre irmãos






Quando eu era mais novo, eu e meu irmão vivíamos brigando, discussões, pontapés, provocações, tudo era válido para atingir o outro. Sabe como nós parávamos? Quando nossa mãe chegava, pegava os dois brigões e resolvia tudo com a chinela. 









Um protestante me perguntou qual era a diferença de um católico para um espírita. Perguntei qual era o motivo da questão. Ele me respondeu que achava que eles não tinham nenhuma diferença. Acreditam em reencarnação, e... Só foi esse o argumento.  Só pela quantidade de comparações você já entende onde essa conversa vai parar!


A diferença entre um religioso e outro? O deus (com d minúsculo)! Somente. Nenhum é melhor que o outro. 

Todos estão numa tarefa inútil de fazer algo bom o suficiente para ser reconhecido e premiado com a salvação, ou seja lá como for chamado o prêmio final de sua religião. E no caso dos cristãos, esse esforço é mais inútil ainda, uma vez que Deus apresenta uma salvação por Graça e não por obras.
Mas continuando a conversa...

Essa é uma guerra que vem sendo travada há séculos. Protestantes versus católicos. Quem está com a razão? Seria uma boa pedida para um dos eventos do UFC, heim?

Cada um que mostre argumentos mais afiados que o outro. Cada um que encontre mais passagens do que o outro na bíblia para defender seu ponto de vista. Uma religião, dois tipos de religiosos, milhões de argumentos, vários deuses e nenhum Deus!

De um lado os protestantes atacam os católicos por causa da idolatria a bonecos de barro, gesso, sei lá! Mas esquecem da idolatria que os próprios protestantes têm em relação aos seus pregadores na TV, seus cantores superfamosos, sua doutrina, seus pioneiros, etc... Atacam a fé dos católicos sobre reencarnação, mas alguns dos que estão do lado dos protestantes desconfiam do agir do Espirito Santo, se batiza ou não, se fala em línguas ou não, se profetizam ou não.

De um lado um condena o outro por extorsão, mas esquece dos casos de pedofilia dos seus membros. Uns falam da aceitação exagerada de um lado, mas se esquecem de que eles condenam demais. Um fala que o outro ama demais o dinheiro, mas fala isso com os bolsos cheios. Uns dizem que é proibido ter homossexuais na direção da igreja. Mas seus púlpitos estão cheios de arrogância, orgulho, inveja, idolatria, discórdia, etc.

Enfim, todos apontam para os erros externos do outro e todos se esquecem de sua podridão interior. É como se ao exibir o erro do outro, a atenção se volta pra ele e as pessoas param de reparar em mim.
O tempo que deveria ser investido na propagação do evangelho vem sido gasto com estudos para defender seus pontos de vista, é gasto com festas pra mostrar quem pode mais, o tempo é gasto com cultos que cultuam mais a religião do que ao próprio Deus, há perda de tempo pra ver qual é o melhor político que a igreja deve votar ou qual membro vão colocar no poder. O tempo que deveria ser usado para ensinar as escrituras é jogado fora para satisfazer o ego de muito safado que usa o nome de Deus para popularizar seu próprio nome, que usa a boca para falar asneira e dizem que é a pregação do evangelho, muitos gastam suas energias em tentar passar uma imagem de santo, quer use terno quer use batina. Graças a Deus não são todos assim. Mas a maior parte já contaminou por completo a imagem que a igreja deveria ter.

Católicos e protestantes. Quem está com a razão?
Isso é a mesma coisa que perguntar se uma zebra é preta com listras brancas ou é branca com listras pretas.
Não importa. Todos estão tentando fazer algo da forma mais distante possível de Deus.
Sabe quando essa guerra vai acabar? Talvez no momento em que se cumprir por completo a profecia de Paulo, e em Cristo não houver mais judeu e grego, civilizado e bárbaro, escravo e livre, homem e mulher.

Enquanto isso não acontece, os nossos amigos católicos e protestantes estão confortáveis demais nessa zona de conflito. Pelo menos cada um pode defender-se do outro e do próprio Deus. Mantendo-se afastado o suficiente para que Ele não os incomode.

Por que usei deus (com d minúsculo) no início do post? Porque está mais que claro que o deus que os protestantes e católicos (não todos) adoram é um deus falso. É o deus do dogma, o deus da religiosidade, o deus que condena os argumentos dos outros e que se molda para caber nos meus ideais. Por isso deus com d minúsculo. Por que o Deus com D maiúsculo está bem longe dessa sacanagem.

Quando eu era mais novo, eu e meu irmão vivíamos brigando, discussões, pontapés, provocações, tudo era válido para atingir o outro. Sabe como nós parávamos? Quando nossa mãe chegava, pegava os dois brigões e resolvia tudo com a chinela.


Termino meu post citando Soren Kierkegaard:
“A questão é bem simples. A bíblia é muito fácil de entender. Mas nós, cristãos, somos um bando de vigaristas trapaceiros. Fingimos que não somos capazes de entendê-la porque sabemos muito bem que no minuto em que compreendermos estaremos obrigados a agir em conformidade. Tome qualquer palavra do Novo Testamente e esqueça tudo a não ser o seu comprometimento de agir em conformidade com ela. ‘Meu Deus’, dirá você, ‘se eu fizer isso minha vida estará arruinada. Como vou progredir na vida?’. Aqui jaz o verdadeiro lugar da erudição cristã. A erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para defender-se da bíblia; para assegurar que continuemos sendo bons cristãos sem que a bíblia chegue perto demais. Ah, erudição sem preço! O que seria de nós sem você? Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. De fato, já é coisa terrível estar sozinho com o Novo Testamento.”

Abraço,
Eliab Alves Pereira

Convertidos pelos outros

Fui almoçar na praia esse ultimo fim de semana. Enquanto eu esperava a conta chegar, tive de ouvir uma conversa sobre a conversão de um dos cozinheiros do restaurante, que é/era homossexual.
Uma das pessoas que estava comigo perguntou se era verdade que o indivíduo realmente tinha aceitado a Jesus.

Pessoa comigo: - Se converteu mesmo?
Garçom: - Sim! Tá até andando de bíblia e usando roupa de pastor.
Pessoa comigo: - Graças a Deus! Tomara que continue assim, né? Só Deus mesmo para mudar a vida de alguém dessa forma.

Depois dessa rápida conversa eu fiquei me perguntando: Será que a conversão foi resumida a tal ponto que agora podemos declarar alguém como nova criatura porque passou a andar com uma bíblia e com roupas compostas?
Não estou duvidando da conversão do camarada, mas estou questionando os critérios que usamos para avaliar algo de tamanha grandeza.

Conversão, pelo pouco que sei, é uma mudança de dentro pra fora. Não o contrário.
Por que intitulamos alguém como nova criatura pelo fato de ele(a) levantar a mão no apelo feito pelo pastor, pela mudança no figurino, por largar as festas e bebidas? Por que para nós se tornou tão importante a estética do túmulo? Por que os vermes que estão por dentro não nos incomodam?

O que estou querendo dizer é que se eu tenho uma vida de pecado e passo a frequentar a igreja e digo que aceito a Jesus, a partir desse momento as pessoas me consideram um irmão, um novo convertido. Mas como eles sabem disso? Como eles sabem como está meu coração? Eles avaliam a mudança do meu interior pela minha mudança exterior. E isso está errado. Se eu largo a farra por causa da igreja, eu estou fazendo isso por amor a igreja ou às suas regras, mas meu coração ainda deseja muito sair com os amigos e encher a cara. E ai? Mesmo assim eu sou considerado um irmão. Mas o que Cristo nos ensinou? “Só em desejar em seu coração, pra Deus é como se você já tivesse feito”. (Parafraseando).

De que adianta eu viver como uma nova criatura exteriormente se meu coração ainda não foi mudado? E como Deus vai mudar meu coração se eu não sei que ele precisa ser mudado? Pra Deus realizar essa mudança eu preciso saber qual é a minha necessidade e pedir a Ele. Mas se eu não sei que estou doente, não vou procurar o médico. E por que eu não sei que estou doente? Porque ficou claro que o que importa é se eu estou usando as roupas certas ou abandonei os pecados visíveis. Fui declarado curado por causa da minha mudança na aparência. Mas por dentro um câncer me consome.

O inferno tá cheio de gente com terno e gravata e corações cheios de inveja, orgulho, preconceito, avareza, hipocrisia e regras.

Espero que o nosso amigo esteja realmente em processo de conversão. Espero que seu coração esteja sendo limpo de toda impureza e que ele esteja reagindo de forma correta contra o pecado. Suas roupas, jeito de falar, lugar que frequenta, não são o que Deus está procurando. Deus está à procura de um coração que precise de mudança, não de um coração que precise de maquiagem. Ele não quer reformar seu coração, Ele quer destruí-lo por completo e colocar outro no lugar. Suas roupas e costumes? Deus pouco se importa com isso. Vai por mim. Ele tem coisa mais importante pra se preocupar.


Abraço
Eliab Alves Pereira