A verdade e sua metáfora

Em certo país dava-se o nome de metáfora a qualquer recipiente próprio para conter algum líquido. Havia nesse país uma fonte de água cristalina, porém tão amarga que dizia-se bastar um único gole para matar de desgosto um homem adulto; cria-se no entanto que diluída ou em pequenas doses essa água tinha propriedades mágicas ou medicinais, e deu-se a ela o nome de verdade.

Levas de peregrinos acorriam incessantemente à fonte, e partiam para seus lugares de origem levando a verdade em seus vasos metafóricos.

Porém uma rigorosa seita, que cria que a verdade deve ser experenciada sem o auxílio de metáforas, atacava as caravanas de peregrinos. Querendo ensiná-los a obter a verdade em estado puro, os sectários destruíam a pauladas as metáforas que a continham. Quebrados os recipientes, a verdade se derramava e desaparecia no solo, ficando sem ela peregrinos e sectários.

Certa vez um rapaz voltava da fonte levando a verdade em sua metáfora quando viu de longe a aproximação dos sectários. Não querendo ver derramada a verdade que trazia consigo, o rapaz não hesitou e bebeu em goles resolutos toda a água da vasilha.

– Onde está a verdade que você trazia nessa metáfora? – perguntaram os perseguidores.

– Eu bebi – desafiou o rapaz. – Agora a verdade está dentro de mim.

E os sectários mataram-no a pauladas.

Em compensação, começou a correr a notícia de que a verdade, embora amarga, não era mortal, e que o recipiente próprio para conter a verdade era um ser humano. Com o passar do tempo os próprios homens passaram a ser chamados de metáforas, e conta-se que nunca estiveram mais perto da verdade.


A estranha tese de um judeu errante que não errou uma

Há dois mil anos, debaixo deste mesmo sol, um judeu desaforado sustentava a escandalosa noção de que Deus não aceita as pessoas com base em sua herança genética, desempenho moral, pureza sexual, popularidade, capacidade comprovada de empreendimento, consistência na observância religiosa, quociente de inteligência, saldo médio, nível de crédito ou qualquer outro mérito ou demérito curricular usual, mas com base em seu próprio cavalheirismo e graciosidade – aquilo que a Bíblia chama de graça.

Uma característica fundamental do Deus que é Pai, propunha Jesus, é que ele não fazbarganhas. Todas as tentativas pessoais e corporativas de ganhar o seu favor e a sua preferência não são apenas inúteis mas contraproducentes: geram em nós uma falsa impressão de mérito pessoal (que só irá nos prejudicar) e não ajudam em nada a limpar a nossa barra.



PARA OS QUE HAVIAM FEITO DE AGRADAR A DEUS SUA PROFISSÃO, A MENSAGEM DE JESUS ERA IMPENSÁVEL ESCÂNDALO.

O Deus da boa nova requer ao mesmo tempo muito mais e muito menos. Para agradá-lo é preciso abrir mão de qualquer tentativa de agradá-lo – e começar a imitá-lo; para imitá-lo é necessário abrir mão de nossa tendência a enxergar diferenças de mérito entre bons e maus, e passar a conceder a todos o mesmo improvável tratamento e as mesmas chances. É preciso aprender a dispensar nosso sol e nossa chuva sobre justos e injustos, sobre os que nos agradam e sobre os que nos odeiam, sendo nisso singulares como Deus é singular – santos como Deus é santo.

Para as pessoas que haviam feito de agradar a Deus sua vida, sua tese e sua profissão, a mensagem de Jesus era impensável escândalo. Os religiosos do tempo de Jesus acreditavam, como os de hoje, que o homem não deveria ser livre para não ter de agradar a Deus. Os riscos de tal liberdade eram incomensuráveis. O único modo de manter o homem seguro na senda da moral e da salvação, sabiam eles, era debaixo das rédeas seguras da religião.

Jesus por outro lado, não tinha uma palavra de condenação para oferecer aos corruptos, aos promíscuos, aos terroristas, aos militares da ocupação romana, às prostitutas, aos samaritanos, aos vendidos colaboracionistas, aos criminosos de colarinho branco, aos injustos, aos imorais, aos glutões, aos bêbados, aos mendigos, aos preguiçosos, aos violentos, aos pegajosos, aos irritantes e aos irritados e a todos os seus asseclas de todas as estirpes. Jesus não os condenava, não porque simpatizasse particularmente com a sua conduta, mas porque se condenasse a um teria de condenar a todos. Se todos recebessem o que mereciam, conforme refletiria Hamlet, ninguém escaparia ao açoite. Não há um justo, não há ninguém com uma ficha limpa. Nem mesmo um.
SE TODOS RECEBESSEM O QUE MERECIAM NINGUÉM ESCAPARIA AO AÇOITE.

Como não há ninguém que possa levantar a mão dizendo que fez corretamente a lição, todos carecem e recebem o mesmo tratamento paciente do mesmo paciente Pai. Não adianta chamar de lado oferecendo maçãs, propinas, untuosos elogios ou longas orações. Estar na condição humana é estar embarcado num mesmo orgulhoso e precário Titanic, e para encontrar a paz é preciso primeiro reconhecer isso. É requisito encarar a dura e libertadora realidade de que você não é melhor do que ninguém e que carece da mesma misericórdia que todos os outros.

Para os pecadores sem máscaras é, curiosamente, mais fácil.

Significativamente, as palavras de condenação de Jesus estavam reservadas para os que apregoavam que as boas intenções da religião institucional eram a solução para o problema de garantir-se um lugar no bote salva-vidas do Titanic da condição humana – e tentavam impor austeramente essa solução sobre os outros.

Nenhuma noção parecia a Jesus mais odiável do que essa. Para Jesus, acreditar e agir como se a barganha da religiosidade pudesse de alguma forma garantir alguma cumplicidade com Deus não era apenas a maior impenitência de todas. Era a única.

“Aprendam o que quer dizer eu quero misericórdia e não sacrifício”, vociferava ele. E falava sério.


Você só me honra na sua honra?

O pastor Santos (pastor da Bola de Neve em Ponta Negra/Natal) contou uma história uma vez que me fez refletir para escrever esse post.
Quando ele era mais jovem, participou de um campeonato de Jiu Jitsu. Ele contou que mandou confeccionar uma camisa em homenagem a Jesus Cristo, ele queria usar essa camisa quando subisse no 1º lugar do pódio. Pensava em honrar o nome de Deus quando conseguisse a vitória do campeonato e qual seria o melhor lugar se não o 1º? O que acontece é que na última luta ele não conseguiu vencer o adversário. Ficou em segundo lugar no ranking.

Ele pensou: “E agora? Eu ainda devo fazer a homenagem mesmo no 2º lugar? Deixa pra lá. Eu disse que ia fazer uma homenagem se conseguisse o lugar mais alto daqui. Deus não merece ficar em segundo, seu lugar é acima de todos”.

E então ele decidiu não mostrar a camisa que tinha feito para homenagear Jesus com sua vitória. Ele conta que depois de tomar essa decisão sentiu Deus falar com Ele de uma forma que incomodou bastante. Deus fez uma pergunta a ele que deixou uma marca indelével em sua mente: “Você só me honra na sua honra?”.

Aquilo fez com que ele tomasse um golpe tão grande que superava todas as lutas que ele passou. Ele enxergou a burrada que estava prestes a fazer e então mudou de opinião. Mesmo no segundo lugar do pódio ele levantou a camisa para todo o ginásio ver e todos aplaudiram de pé a sua homenagem.

A atitude do pastor Santos não é muito diferente da nossa atitude quando estamos enfrentando qualquer coisa que nos deixe envergonhado diante de Deus. Principalmente quando se trata de pecados.
Nós temos o costume de nos distanciar de Deus por vergonha de nossos atos. Sempre que pecamos nós sentimos tanta vergonha que deixamos de nos relacionar com Deus pensando que isso vai ajudar na nossa recuperação. É como se com um tempo Deus se esquecesse do que fizemos e é esse o tempo de voltar antes que ele se lembre do que fizemos. Isso é bastante infantil. Mas todos nós fazemos isso. Por quê? Bem, explicar o porque disso não é a intenção desse post.

Eu quero fazer com que você entenda que Deus nos faz a mesma pergunta que fez ao pastor Santo quando estamos nessa situação.
Você só me adora quando está certinho?
Você só me busca quando você está limpo?
Você só se relaciona comigo quando está sem pecado?
Você só me honra na sua honra?

As pessoas procuravam Jesus do jeito que elas estavam. Elas não procuravam se consertar para depois procurá-lo. Elas não podiam se ajudar então procuravam quem podia ajuda-las. Se a mulher do fluxo de sangue tentasse se tornar pura antes de procurar Jesus ela ia morrer daquele jeito.

Honre a Deus no seu fracasso. Busque a Deus enquanto peca. Chame por Deus enquanto tudo está afundando. Não tente se consertar pra ficar digno o suficiente para apresentar-se a Ele. Você nunca estará bom o bastante por seus próprios esforços.

Veja o exemplo de Pedro: Quando ele começou a duvidar e não conseguia mais andar sobre as águas, ele gritou por Cristo. Ele não tentou nadar por si mesmo e tentou reforçar a fé a fim de voltar a flutuar. Ele chamou pelo único que podia salvá-lo. Não tente se limpar antes de ir falar com Deus. Isso pode piorar a situação e você pode entrar num caminho sem volta. Venha pra Ele todo machucado, sujo e imperfeito. Ele vai te aceitar mesmo assim e vai cuidar de você. Da mesma forma que o pai cuidou do filho pródigo quando voltou pra casa.



Abraço,
Eliab Alves Pereira

Briga entre irmãos






Quando eu era mais novo, eu e meu irmão vivíamos brigando, discussões, pontapés, provocações, tudo era válido para atingir o outro. Sabe como nós parávamos? Quando nossa mãe chegava, pegava os dois brigões e resolvia tudo com a chinela. 









Um protestante me perguntou qual era a diferença de um católico para um espírita. Perguntei qual era o motivo da questão. Ele me respondeu que achava que eles não tinham nenhuma diferença. Acreditam em reencarnação, e... Só foi esse o argumento.  Só pela quantidade de comparações você já entende onde essa conversa vai parar!


A diferença entre um religioso e outro? O deus (com d minúsculo)! Somente. Nenhum é melhor que o outro. 

Todos estão numa tarefa inútil de fazer algo bom o suficiente para ser reconhecido e premiado com a salvação, ou seja lá como for chamado o prêmio final de sua religião. E no caso dos cristãos, esse esforço é mais inútil ainda, uma vez que Deus apresenta uma salvação por Graça e não por obras.
Mas continuando a conversa...

Essa é uma guerra que vem sendo travada há séculos. Protestantes versus católicos. Quem está com a razão? Seria uma boa pedida para um dos eventos do UFC, heim?

Cada um que mostre argumentos mais afiados que o outro. Cada um que encontre mais passagens do que o outro na bíblia para defender seu ponto de vista. Uma religião, dois tipos de religiosos, milhões de argumentos, vários deuses e nenhum Deus!

De um lado os protestantes atacam os católicos por causa da idolatria a bonecos de barro, gesso, sei lá! Mas esquecem da idolatria que os próprios protestantes têm em relação aos seus pregadores na TV, seus cantores superfamosos, sua doutrina, seus pioneiros, etc... Atacam a fé dos católicos sobre reencarnação, mas alguns dos que estão do lado dos protestantes desconfiam do agir do Espirito Santo, se batiza ou não, se fala em línguas ou não, se profetizam ou não.

De um lado um condena o outro por extorsão, mas esquece dos casos de pedofilia dos seus membros. Uns falam da aceitação exagerada de um lado, mas se esquecem de que eles condenam demais. Um fala que o outro ama demais o dinheiro, mas fala isso com os bolsos cheios. Uns dizem que é proibido ter homossexuais na direção da igreja. Mas seus púlpitos estão cheios de arrogância, orgulho, inveja, idolatria, discórdia, etc.

Enfim, todos apontam para os erros externos do outro e todos se esquecem de sua podridão interior. É como se ao exibir o erro do outro, a atenção se volta pra ele e as pessoas param de reparar em mim.
O tempo que deveria ser investido na propagação do evangelho vem sido gasto com estudos para defender seus pontos de vista, é gasto com festas pra mostrar quem pode mais, o tempo é gasto com cultos que cultuam mais a religião do que ao próprio Deus, há perda de tempo pra ver qual é o melhor político que a igreja deve votar ou qual membro vão colocar no poder. O tempo que deveria ser usado para ensinar as escrituras é jogado fora para satisfazer o ego de muito safado que usa o nome de Deus para popularizar seu próprio nome, que usa a boca para falar asneira e dizem que é a pregação do evangelho, muitos gastam suas energias em tentar passar uma imagem de santo, quer use terno quer use batina. Graças a Deus não são todos assim. Mas a maior parte já contaminou por completo a imagem que a igreja deveria ter.

Católicos e protestantes. Quem está com a razão?
Isso é a mesma coisa que perguntar se uma zebra é preta com listras brancas ou é branca com listras pretas.
Não importa. Todos estão tentando fazer algo da forma mais distante possível de Deus.
Sabe quando essa guerra vai acabar? Talvez no momento em que se cumprir por completo a profecia de Paulo, e em Cristo não houver mais judeu e grego, civilizado e bárbaro, escravo e livre, homem e mulher.

Enquanto isso não acontece, os nossos amigos católicos e protestantes estão confortáveis demais nessa zona de conflito. Pelo menos cada um pode defender-se do outro e do próprio Deus. Mantendo-se afastado o suficiente para que Ele não os incomode.

Por que usei deus (com d minúsculo) no início do post? Porque está mais que claro que o deus que os protestantes e católicos (não todos) adoram é um deus falso. É o deus do dogma, o deus da religiosidade, o deus que condena os argumentos dos outros e que se molda para caber nos meus ideais. Por isso deus com d minúsculo. Por que o Deus com D maiúsculo está bem longe dessa sacanagem.

Quando eu era mais novo, eu e meu irmão vivíamos brigando, discussões, pontapés, provocações, tudo era válido para atingir o outro. Sabe como nós parávamos? Quando nossa mãe chegava, pegava os dois brigões e resolvia tudo com a chinela.


Termino meu post citando Soren Kierkegaard:
“A questão é bem simples. A bíblia é muito fácil de entender. Mas nós, cristãos, somos um bando de vigaristas trapaceiros. Fingimos que não somos capazes de entendê-la porque sabemos muito bem que no minuto em que compreendermos estaremos obrigados a agir em conformidade. Tome qualquer palavra do Novo Testamente e esqueça tudo a não ser o seu comprometimento de agir em conformidade com ela. ‘Meu Deus’, dirá você, ‘se eu fizer isso minha vida estará arruinada. Como vou progredir na vida?’. Aqui jaz o verdadeiro lugar da erudição cristã. A erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para defender-se da bíblia; para assegurar que continuemos sendo bons cristãos sem que a bíblia chegue perto demais. Ah, erudição sem preço! O que seria de nós sem você? Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. De fato, já é coisa terrível estar sozinho com o Novo Testamento.”

Abraço,
Eliab Alves Pereira

Convertidos pelos outros

Fui almoçar na praia esse ultimo fim de semana. Enquanto eu esperava a conta chegar, tive de ouvir uma conversa sobre a conversão de um dos cozinheiros do restaurante, que é/era homossexual.
Uma das pessoas que estava comigo perguntou se era verdade que o indivíduo realmente tinha aceitado a Jesus.

Pessoa comigo: - Se converteu mesmo?
Garçom: - Sim! Tá até andando de bíblia e usando roupa de pastor.
Pessoa comigo: - Graças a Deus! Tomara que continue assim, né? Só Deus mesmo para mudar a vida de alguém dessa forma.

Depois dessa rápida conversa eu fiquei me perguntando: Será que a conversão foi resumida a tal ponto que agora podemos declarar alguém como nova criatura porque passou a andar com uma bíblia e com roupas compostas?
Não estou duvidando da conversão do camarada, mas estou questionando os critérios que usamos para avaliar algo de tamanha grandeza.

Conversão, pelo pouco que sei, é uma mudança de dentro pra fora. Não o contrário.
Por que intitulamos alguém como nova criatura pelo fato de ele(a) levantar a mão no apelo feito pelo pastor, pela mudança no figurino, por largar as festas e bebidas? Por que para nós se tornou tão importante a estética do túmulo? Por que os vermes que estão por dentro não nos incomodam?

O que estou querendo dizer é que se eu tenho uma vida de pecado e passo a frequentar a igreja e digo que aceito a Jesus, a partir desse momento as pessoas me consideram um irmão, um novo convertido. Mas como eles sabem disso? Como eles sabem como está meu coração? Eles avaliam a mudança do meu interior pela minha mudança exterior. E isso está errado. Se eu largo a farra por causa da igreja, eu estou fazendo isso por amor a igreja ou às suas regras, mas meu coração ainda deseja muito sair com os amigos e encher a cara. E ai? Mesmo assim eu sou considerado um irmão. Mas o que Cristo nos ensinou? “Só em desejar em seu coração, pra Deus é como se você já tivesse feito”. (Parafraseando).

De que adianta eu viver como uma nova criatura exteriormente se meu coração ainda não foi mudado? E como Deus vai mudar meu coração se eu não sei que ele precisa ser mudado? Pra Deus realizar essa mudança eu preciso saber qual é a minha necessidade e pedir a Ele. Mas se eu não sei que estou doente, não vou procurar o médico. E por que eu não sei que estou doente? Porque ficou claro que o que importa é se eu estou usando as roupas certas ou abandonei os pecados visíveis. Fui declarado curado por causa da minha mudança na aparência. Mas por dentro um câncer me consome.

O inferno tá cheio de gente com terno e gravata e corações cheios de inveja, orgulho, preconceito, avareza, hipocrisia e regras.

Espero que o nosso amigo esteja realmente em processo de conversão. Espero que seu coração esteja sendo limpo de toda impureza e que ele esteja reagindo de forma correta contra o pecado. Suas roupas, jeito de falar, lugar que frequenta, não são o que Deus está procurando. Deus está à procura de um coração que precise de mudança, não de um coração que precise de maquiagem. Ele não quer reformar seu coração, Ele quer destruí-lo por completo e colocar outro no lugar. Suas roupas e costumes? Deus pouco se importa com isso. Vai por mim. Ele tem coisa mais importante pra se preocupar.


Abraço
Eliab Alves Pereira

O que é a igreja?

– O que é “a Igreja”? – perguntou Belzebu severamente, relutando em acreditar que seus servos fossem mais espertos do que ele.

– Bom, quando uma pessoa diz uma mentira e teme que não vão acreditar nela, chama sempre Deus por testemunha, e diz: “Por Deus, estou dizendo a verdade!” Isso, em essência, é “a Igreja”, porém com uma peculiaridade: aqueles que reconhecem a si mesmos como sendo “a Igreja” acabam convencidos de que são incapazes de errar, e portanto qualquer besteira que proferem não podem nunca refutar. A Igreja é constituída da seguinte forma: homens asseguram a si mesmos e a outros de que seu mestre, Deus, a fim de assegurar que a lei que revelou aos homens não seja mal interpretada, deu poder a determinados homens que, juntamente com aqueles a quem transferem esse poder, são os únicos capazes de interpretar corretamente o ensino dele. Assim esses homens, que chamam a si mesmos de “Igreja”, consideram-se defensores da verdade não porque pregam o que é verdadeiro, mas porque se consideram os únicos verdadeiros sucessores dos discípulos dos discípulos dos discípulos, até os discípulos do próprio mestre, Deus. Embora esse método, como o dos milagres, tenha a desvantagem de que as pessoas possam afirmar simultaneamente, cada uma por si mesma, serem membros da única Igreja verdadeira (como de fato sempre acontece), tem a vantagem de que tão logo os homens declaram que são a Igreja e desenvolvem sua doutrina com base nessa afirmação, não podem mais renunciar ao que já disseram, por mais absurdo que seja, não importa o que digam as outras pessoas.
A PRÓPRIA POSIÇÃO DELES OBRIGAVA-OS A DISTORCER O ENSINO.

– Mas por que a Igreja distorceu o ensino em nosso favor? – perguntou Belzebu.

– Fizeram isso – prosseguiu o diabo de capa – porque uma vez tendo se declarado os únicos expositores legítimos da lei de Deus, e tendo persuadido os outros disso, tornaram-se os árbitros máximos do destino dos homens e obtiveram portanto o poder máximo. Tendo obtido este poder, ficaram naturalmente orgulhosos e, em sua maior parte, depravados, e deste modo provocaram a indignação e a inimizade de outros contra eles mesmos. E na sua luta contra esses inimigos, não tendo outros meios além de violência, começaram a perseguir, executar e queimar na fogueira todos que não reconheciam a sua autoridade. Portanto a própria posição deles obrigava-os a distorcer o ensino, de modo a justificar tanto suas vidas perversas quanto a crueldade empregada contra os seus inimigos. E foi exatamente isso que fizeram.


Texto de Paulo Brabo



Uma entrevista

Apresentador: Você é um pastor cristão, e diz que acredita na Bíblia, o que significa que você deveria amar todas as pessoas.

Pastor: É isso mesmo.

Apresentador: Mas me parece que você e a sua igreja têm uma posição um tanto quanto sem amor, quando se trata dos gays. Os homossexuais são bem vindos em sua igreja?

Pastor: É claro. Nós cremos que o evangelho é uma mensagem relevante para cada pessoa desse planeta, e nós queremos que todos ouçam o evangelho e encontrem a salvação em Jesus Cristo. Então, em nossa igreja, nossos braços estão estendidos para pessoas com qualquer tipo de histórico, todo tipo de raça, todo tipo de etnia e cultura. Somos um lugar para todos os tipos de pecadores, e pessoas com todos os tipos de problemas.

Apresentador: Mas você disse “somos um lugar para pecadores”. Então você acredita que a homossexualidade é pecado, certo?

Pastor: Sim, acredito.

Apresentador: Então como você concilia o mandamento de amar todas as pessoas com uma posição sobre o homossexualismo que alguns diriam ser radicalmente intolerante?

Pastor (sorrindo): Se você acha que a minha posição sobre homossexualismo é radical, espere até ouvir no que mais eu acredito! Eu creio que um casal de adolescentes que fazem sexo no banco de trás do carro estão pecando. O casal heterossexual que não é casado mas moram juntos ali na esquina, para mim, está pecando. De fato, qualquer atividade sexual que ocorre fora da aliança do casamento entre um marido e sua esposa é pecado. Mais ainda, Jesus leva essa ética sexual um passo além e vai ao cerne do assunto. Isso significa que cada vez que eu simplesmente desejo sexualmente outra pessoa, estou pecando. A visão radical de Jesus sobre o sexo nos mostra todos como pecadores sexuais, e foi por isso que ele veio morrer. Jesus veio para salvar pecadores, homo e heterossexuais, e transformar nossos corações, mentes e comportamentos. Porque ele morreu por mim, eu devo tudo a ele. E como seguidor de Jesus, procuro obedecer tudo que ele diz sobre sexo e moralidade.

Apresentador: Mas Jesus não condenou o homossexualismo diretamente, não é mesmo?

Pastor: Ele não precisava. Ele foi diretamente à questão do coração e intensificou os mandamentos contrários a comportamentos imorais do Antigo Testamento. Assim, Jesus não condenou o adultério, por exemplo, da mesma forma que um dos Dez Mandamentos. Jesus condena até mesmo o desejo que leva ao adultério, com o propósito de nos oferecer corações transformados que começam a bater no ritmo de seus mandamento radicais.

Apresentador: Você diz que ele condenou o adultério, mas ele decidiu não condenar aquela mulher que foi pega em adultério.

Pastor: Sim, mas ele disse a ela “vá, e não peques mais”.

Apresentador: Mas quem é você para condenar alguém que não se alinha com as suas crenças pessoais sobre sexualidade?

Pastor: Quem sou eu? Ninguém. Não é de importância alguma o que eu penso sobre essas coisas. Essa conversa sobre homossexualismo não tem nada a ver com as minhas crenças pessoais. É sobre Jesus e o que ele diz. Eu não tenho direito de condenar ou julgar o mundo. Esse direito pertence a Jesus. Minha esperança é segui-lo fielmente. Isso significa que tudo que ele diz em relação a práticas sexuais é o que eu creio ser verdadeiro, amável e muito melhor para a felicidade do ser humano – mesmo quando parece estar longe das murmurações da cultura atual.

Apresentador: Mas você está julgando. Você está dizendo para todos os gays que estão nos assistindo que eles são pecadores.

Pastor: Eu não estou falando apenas dos gays. Estou apontando Jesus como resposta para toda pecaminosidade sexual.

Apresentador: Mas você está se referindo aos gays. Por que você está tão focado assim nos homossexuais?

Pastor (sorrindo): Com todo o respeito, foi você quem trouxe esse assunto.

Apresentador: Você está dizendo que não é possível ser gay e cristão?

Pastor: Não. Estou dizendo que você não pode ser um cristão genuíno sem arrependimento. Todos – incluindo eu – são culpados de pecar, mas o cristianismo se baseia no arrependimento. Concordamos com Deus sobre nosso pecado, deixamos essa prática para trás e corremos para Jesus. Quando se trata de cristianismo, esse debate não é sobre homossexualismo contra outros pecados. É se o arrependimento é ou não integral para a vida cristã.

Apresentador: Mas você enxerga porque um homossexual nos assistindo pode pensar que você está o atacando pessoalmente? Você está dizendo que há algo de errado com ele.

Pastor: Eu penso que o ensinamento de Jesus sobre sexualidade nos mostra que há algo de errado com todos nós – algo que só pode ser consertado pelo que Jesus fez por nós na cruz, em sua ressurreição. Dito isso, eu entendo porque as pessoas podem pensar que estou atacando-as pessoalmente. A maioria das pessoas que se sentem atraídas pelo mesmo sexo acreditam que nascem com essas tendências. É por isso que elas normalmente veem essa atração como algo central em suas existências, e assim se identificam com o rótulo de “gay”. Então quando alguém questiona seu comportamento ou desejo, eles entendem como um ataque ao que há de mais central em si mesmos. Isso normalmente não é a intenção da pessoa que discorda do comportamento homossexual. Mas é assim que se entende. Eu compreendo isso.

Apresentador: Se é verdade que uma pessoa nasce com uma ou outra orientação sexual, então como é possível ser amável condenar a orientação de alguém?

Pastor: Bem, nós realmente não sabemos com certeza sobre a atração sexual ser inata e decidida desde o nascimento. Tudo que temos é o testemunho de pessoas que dizem ter experimentado desejos homossexuais desde a infância. O cristianismo ensina que todas as pessoas nascem com uma inclinação para o pecado. É possível que algumas pessoas terão uma propensão ao abuso do álcool ou ataques de ira, enquanto outros uma propensão a outros pecados. De qualquer forma, cristãos acreditam que as pessoas são mais do que seus instintos sexuais. Nós acreditamos que a dignidade humana é diminuída sempre que definimos nós mesmos por comportamentos e desejos sexuais. Pense nisso: homens casados, às vezes, são atraídos por muitas mulheres que não são sua esposa. Isso significa que eles devem se auto-intitular como polígamos? De forma alguma. E você certamente não consideraria agressivo por parte dos cristãos encorajar homens casado a não agirem conforme seus desejos, em um esforço para permanecerem fieis às suas esposas. Esse é o cristianismo, afinal de contas.

Apresentador: Não, ainda parece que você está dizendo para as pessoas não serem honestas com quem elas são.

Pastor: Só parece assim porque você acredita que o desejo sexual reflete o centro da identidade de alguém. Ajudaria se você e outros que concordam com você entendessem que, ao me pressionar para aceitar o comportamento homossexual como normal e virtuoso, vocês estão indo contra o próprio centro da minha identidade como seguidor de Jesus. O rótulo mais importante para mim é “cristão”. Minha identidade – em Cristo – é central para quem eu sou. Então eu poderia dizer a mesma coisa e chamar você de intolerante, preconceituoso e agressivo por tentar mudar uma convicção que está no cerne de quem eu sou, como cristão. Eu não digo isso porque eu não acredito que seja a sua intenção. Mas você também não deveria pensar que a minha intenção é atacar um homossexual ou causar danos a ele simplesmente porque eu discordo.

Apresentador: Mas o problema é: sua posição cultiva o ódio e encoraja o bullying.

Pastor: Eu reconheço que algumas pessoas trataram de forma equivocada os homossexuais no passado. É um vergonha que qualquer um faça chacota, provoque ou agrida outro humano feito a imagem de Deus. Dito isso, eu penso que devemos deixar mais uma coisa clara, no que tange o discurso civil: discordar não é odiar. Eu espero que ainda possamos ter uma conversa de verdade nesse país sobre pontos de vista diferentes sem retratar um ao outro da pior forma possível. A ideia de que discordar do comportamento homossexual necessariamente resulta em perigo aos gays é elaborada para encerrar as conversas e imediatamente definir um ponto de vista (nesse caso, o ponto de vista cristão) como fora dos limites. Como cristão, eu devo amar meu próximo e buscar o bem dele, mesmo quando não concordo 100% com ele. Mais ainda, a figura de Cristo morrendo na cruz por seus inimigos necessariamente afeta a forma como eu penso sobre essa e outras questões.

O acalentado conforto da proibição

Só os grandes articuladores da fé, que vivem e pensam em esferas distantes da multidão, é que falam da sua religião em termos profundos e categorias teológicas. Para uma pessoa normal, ou para alguém que observa de fora, uma religião é mais claramente definida pelas suas proibições.

O cidadão comum, muito sensatamente, prefere não ter de sentir-se à vontade entre termos como atonement, parousia, kenosis, koinonia e kairos. O cristão médio vive muito bem sem conhecer as quatro teorias da redenção, sem ter lido a autobiografia de Agostinho, sem pausar diante das agonias de Kierkegaard e sem dobrar-se com as angústias de Bonhoeffer. Ele intui que é possível aproximar-se de Jesus sem saber exatamente o que é graça irresistível, pecado original, amilenismo, soteriologia, hermenêutica, exegese, escatologia realizada, depravação total, arminianismo, imanência, universalismo, teísmo aberto ou monergismo. Muitos cristãos tarimbados sentem-se pouco à vontade para manusear sem proteção até mesmo conceitos que são mencionados pelo nome na Bíblia, coisas como santificação, graça, justificação, eleição e arrependimento. Até mesmo, olha, fé.

Em contraste com isso, os mais despreparados dentre nós sentem-se em geral prontos para elencar as interdições que envolve a nossa fé particular – ou, no mínimo, para zelar nominalmente pela aplicação delas. De longe, “minha religião não permite” é a profissão de fé mais comumente proferida da Terra.

É desse modo, elencando proibições, que na vida real falamos aos outros da nossa religião e inquirimos os outros a respeito da deles. É falando de proibições que orientamos ou corrigimos o caminho dos que se agregam ao círculo da nossa crença.

Há coisa de cinquenta anos as facções evangélicas e protestantes do Brasil cultivavam uma série de interdições em comum, a maioria das quais foram abolidas nesse intervalo, embora continuem a vigorar para um grupo ou outro. Crente não podia não podia beber, não podia ir ao cinema, não podia jogar futebol; não podia ouvir música do mundo, não podia entrar em boate, não podia fumar; não podia jogar, não podia fazer apostas e não podia dizer palavrão; se fosse mulher, não podia usar calça comprida, não podia usar maquiagem, não podia cortar o cabelo.

Corta para 2011: não só caíram todas essas proibições (ou a sua maioria), como a cultura e a tecnologia avançaram rápido demais para que as assembleias pudessem legislar com adequada austeridade proibições novas. Tarde demais para lembrar que crente não pode usar telefone celular, não pode ter conta no twitter e não pode ler o Paulo Brabo (nem o JovenSapiens).

Isso não quer dizer que os cristãos tenham deixado de construir sua identidade entrincheirando-se atrás de suas mais sagradas proibições. Permanecemos, como sempre, particularmente interessados nas transgressões que dizem respeito ao corpo: da nossa pauta eterna aparentemente nada tem poder para riscar a contracepção, as relações homossexuais e o sexo não apaziguado pelo casamento.

Tanto a teologia quanto as proibições acabam sempre, portanto, encontrando o seu público. Para os teólogos, a essência da fé está nas filigranas e coisas profundas que a massa não tem como entender; para a massa dos fiéis, a essência da fé está nas proibições muito práticas que lhes fornecem por um lado uma identidade e por outro lhes garantem uma recompensa.

Uma das muitas coisas singulares a respeito de Jesus de Nazaré é que ele evitou por completo tanto as armadilhas teologantes dos letrados e eruditos quanto a religiosidade rasa, de proibição e recompensa, das massas.

Jesus não ignorava, naturalmente, que as duas abordagens tem muita coisa em comum. Em grande parte, a lista de proibições adotada pelos crentes é composta ou esboçada pelos religiosos letrados que residem acima deles na pirâmide socioeconômica. “Se não são os sofisticados o bastante para entender as minúcias da teologia em que se fundamentam,” raciocinam os líderes religiosos com relação ao seu rebanho, “que pelo menos não caiam naquelas transgressões mais severas. Façamos uma lista”.

Postando-se muito acima dessas mesquinharias, Jesus recusava-se, por um lado, a gastar um instante que fosse do seu tempo expondo ou discutindo teologia. Era contando histórias que ele desfiava indicações sobre a natureza e os desafios do Reino. Era no calor sem sofisticação de estradas, de refeições, de curas e de abraços – no calor da vida real – que ele mostrava como o Reino se deveria viver.

Por outro lado, ele recusava-se de modo consistente a fornecer ao seu público o conforto almejado das listas de proibições. Jesus não só negava-se a falar da vida abundante em termos de obediência a interdições, como repelia com exuberância as tentativas que as pessoas por vezes faziam de, às custas dele, reduzir a ética a uma resposta “sim ou não” para um problema complexo.

Naquela época não tinha qualquer penetração cultural a noção que todos conhecemos hoje, de que as motivações mais mesquinhas para se agir de determinada forma são o medo da punição e o desejo da recompensa. Jesus, no entanto, agia e ensinava como se fosse coisa muito evidente que uma ética de conduta regida por proibições é limitada e infantilizante. Muito mais ambicioso, o rabi de Nazaré sonhava com um mundo deautonomia individual e de decisões responsáveis: “por que vocês não decidem por si mesmos o que é certo?” (Lucas 12:57).

Ao mesmo tempo, Jesus desafiava constantemente a noção – pelo menos tão enraizada nos seus dias quanto nos nossos – de que simplesmente abster-se de descumprir os mandamentos era coisa capaz de garantir alguma recompensa ou de habilitar o adorador a exigi-la de Deus. Não contente em negar o conforto das listas de regras e proibições, o Filho do Homem insistia que na perspectiva divina nenhuma obediência tem recompensa ou a merece.

Na verdade, Jesus sugeriu mais de uma vez que a sensação de superioridade moral que acompanha uma vida de obediência estrita aos mandamentos é, em si mesma, a única recompensa que um religioso/carola deve esperar receber pela sua conduta.

Quem rege sua postura pela obediência aos mandamentos, insistia Jesus, não faz nada de mais e nada deve esperar em troca. A imitação de Deus requer uma bondade assertiva e uma generosidade vivida, não uma vida de recuos, desvios e melindres. Como ilustração espetacular desse modo de ver as coisas, em seu último discurso no evangelho de Mateus o Filho do Homem ousa condenar ao inferno não os pecadores que rebaixaram-se a fazer o mal, mas os religiosos que deixaram de fazer o bem.

Essa visão outorgava ao homem uma liberdade que tinha tanto de terrível quanto de sublime. O apóstolo Paulo maravilhou-se diante dela mais de uma vez. Por vezes usamos o seu “mas nem todas me convém” a fim de anular por completo o seu “todas as coisas me são lícitas”, porém isso é não fazer justiça à vertigem que ele detectou. Para recapturá-la seria preciso reescrever o seu hino como: “todas as coisas me são lícitas, e terei a hombridade de assumir responsabilidade por todas que eu fizer ou deixar de fazer”.

Um Deus que sonhava para os seres humanos uma vida de plena maturidade, sem recalques mas sem descontos, mostrou-se incrível e exigente demais para ganhar verdadeira popularidade.

Ao sugerir que seu Pai não recompensava a obediência, mas esperava uma gentileza assertiva mais do que uma obediência neurótica a regulamentos, Jesus requereu uma profunda e intransigente ressignificação da imagem que os homens faziam (e ainda tendem a fazer) de Deus. Não é de se admirar que poucas gerações de convertidos depois os cristãos já tivessem revertido à imagem tradicional da divindade, aquele que aceita os bons e rejeita os desobedientes.

Jesus, patrono da maturidade, perguntava a seus discípulos porque eles não discerniam por si mesmos o que era correto, e ensinava que as prostitutas chegam ao céu antes dos religiosos. Hoje em dia as igrejas, patrocinando a imaturidade, explicam que a Bíblia é uma norma inflexível de conduta, e ousam dizer a gente adulta, capaz de ler os evangelhos por si mesma, que criança boazinha é que vai para o céu.


Texto de Paulo Brabo


Piercings, Evangelho e Cultura

Antes de começar o texto, quero pedir desculpas aos leitores por trazer um texto que não tem muita relevância. Dizer o que você deve o não fazer não é o objetivo do JovenSapiens. Mas infelizmente esse é um assunto que muitos cristãos têm dúvida. Então trouxe esse ótimo texto do pastor Sandro Baggio para tirar "nossas" dúvidas!
Eliab Alves Pereira 

Piercings estão cada vez mais comuns em nossos dias. Algo que há menos uma década era olhado com reprovação e preconceito, é hoje visto em homens, mulheres, jovens e até crianças. Se a sociedade parece estar aceitando esses adereços cada vez com mais naturalidade, os cristãos parecem confusos a respeito. Afinal de contas, a questão da aparência ainda é assunto de grande discussão e controvérsia em muitos círculos evangélicos.

A primeira coisa que precisamos ter em mente quando o assunto é aparência pessoal, é que se trata de algo que muda com o tempo e com o lugar. Usos e costumes estão diretamente ligados à cultura.

Basicamente uma cultura é formada por três elementos: cosmovisão (a maneira como o povo vê o mundo), sistema de valores (o que é importante para aquele povo) e normas de conduta (o modo como o povo se comporta, e isso diz respeito tanto à vestimenta, como ao modo de se relacionar com os outros, etc.). Culturas são diferentes de acordo com sua cosmovisão, valores e normas de conduta. Arrotar em público após uma refeição é totalmente aceitável (e até louvável) em certas culturas, e repugnante em outras. Uma mulher com os seios à mostra é normal em muitos países da África (onde a mesma mulher não pode exibir as pernas acima do tornozelo) enquanto que o mesmo é obsceno em outras partes do mundo. Beijar na boca em público é normal aqui no Brasil, mas pode levar alguém à cadeia em certos países islâmicos. Nestes mesmos países islâmicos, um homem não pode andar de mãos dadas com sua esposa, mas pode andar de mãos dadas com outro homem. No Ocidente tal prática evoca idéias de homossexualismo. E por aí vai.

Todas essas coisas são formas de expressão cultural. Podem ser um insulto ou algo escandaloso para os de fora (que não fazem parte da cultura), mas não são necessariamente erradas para quem é daquela cultura. O fato é que nenhuma cultura é totalmente igual à outra e nenhuma cultura está acima da outra. João viu no céu povos de todas as tribos, raças, línguas e nações (grupos étnicos). Todas as culturas possuem elementos que precisam ser valorizados e outros que precisam ser transformados pelo Evangelho.

Sendo a aparência pessoal é uma questão de expressão cultural, esta aparência também muda de acordo com a cultura. Pinturas na face e no corpo estão presentes em diversas culturas. Na Polinésia, os nativos usam a tatuagem para escrever sua história familiar no corpo. A tatuagem e o piercing no umbigo eram comuns no Antigo Egito. Alguns povos usam piercing, brincos e outras formas de alteração do corpo (body modification ou simplesmente bod mod). O problema é que o mundo está ficando pequeno. Estamos nos tornando cada vez mais uma aldeia global. Esta globalização faz com que certos costumes que antes só eram vistos em algumas culturas isoladas e lugares remotos da terra, comecem a se tornar moda em todo o mundo.

A tatuagem de henna é uma exemplo recente desta realidade. E quem são os responsáveis pelo lançamento da moda em nosso mundo dominado pela MTV e Internet? São os artistas, músicos e cantores. São eles quem fazem a moda. Foram os Beatles que popularizaram os costumes orientais no Ocidente. A popularização do piercing foi em 1993 com o vídeo clip “Cryin”, do Aerosmith, onde Alicia Silverstone apareceu com um piercing no umbigo. Uma banda de rock, uma balada romântica, uma jovem atriz linda. Elementos essenciais para fazer a moda pop ou cultura pop, que nada mais é do que uma mistura de culturas e costumes do mundo pós-moderno.

Leornard Sweet, professor metodista e um dos mais interessantes pensadores cristãos de nossa época, comenta sobre tatuagens e piercings em seu e-book The Dawn Mistaken For Dusk. Ele diz que a razão pela qual “bod mod” é o assunto no 1 nas listas de discussões e bate-papos de jovens cristãos com menos de 20 anos nos EUA é que isso faz parte da cultura jovem pós-moderna atual (e quase global), uma cultura onde a imagem é altamente valorizada. A ironia disso tudo é que cirurgias plásticas e implante de silicone são coisas cada vez mais aceitas pelos cristãos modernos. Tem personalidades famosas do mundo evangélico brasileiro com o corpo siliconado. Todavia, como diz Sweet, “Cirurgia plástica é uma forma severa de alteração do corpo. Isto é aceito, mas brincos e tatuagens, não são?”

Na Bíblia lemos a história de Isaque que deu a Rebeca uma argola de seis gramas de ouro para ser colocada no nariz (piercing) e, após fazer isto, ajoelhou-se para adorar a Deus. Penso que se o primeiro ato fosse pecado ou considerado pagão, então Isaque não teria adorado a Deus em seguida.

No livro de Êxodo, percebemos que as mulheres dos hebreus usavam brincos e argolas, os quais foram oferecidos como oferta dedicada ao Senhor para a construção do Tabernáculo. Novamente, não penso que Deus aceitaria de seu povo ofertas que representassem costumes pagãos.

O texto mais intrigante para mim se encontra em Ezequiel 16, onde o próprio Deus diz que adornou Jerusalém com jóias, pulseiras, colares, argolas para o nariz e brincos para as orelhas. Ao que parece, tais adornos não eram uma ofensa ao Senhor.

Uma vez que a Bíblia parece não condenar o uso de piercing, por quê deveríamos nós?

Nosso desafio não é condenar, mas orientar as pessoas (principalmente os jovens) para os riscos que existem em fazer estas coisas sem uma orientação profissional e cuidados de higiene e saúde. A pessoa está consciente dos riscos de inflamação, doenças contagiosas e “efeitos colaterais” diante da sociedade? Está consciente de que algumas alterações são irreversíveis e, mesmo diante da possibilidade de reversão, podem deixar marcas para o resto da vida?

Mais ainda, precisamos falar sobre questões de identidade, valor pessoal e auto-imagem. Pois são estas as questões mais importantes para quem está considerando qualquer forma de alteração do corpo, seja uma plástica no nariz, implantar silicone nos seios, colocar um piercing ou fazer uma tatuagem.


Soli Gratia!
Sandro Baggio, pastor